sexta-feira, 17 de novembro de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 55,6%. Sozinho, o PS ultrapassa a PAF em 5%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

ARY

Brevíssima Antologia da Poesia Com Certeza
J.C. ARY DOS SANTOS / 1973

Morramos todos por isso
Mais por isto e por aquilo:
no açougue do toutiço
a poesia morre ao quilo.
/
Carne gorda carne magra
raramente entremeada
com açorda com vinagre
poucas vezes com mostarda
cheira mal diz a comadre
cheira bem fareja o frade
e logo responde o padre
em tom de falso derriço:
Morramos todos por isso
atados como o chouriço!
/
Só a textilopoesia
nesta meada das letras
muitas vezes desenfia
um colar de contas pretas:
Dona Ernesta vai à missa
toda bordada a missanga;
faz poemas com alpista
tira fonemas da manga
e devotada e artista
diz em tom de lenga-lenga
a oração concretista
da melhor raça podenga:
Deuspeus paipai é quepe
estes poemas fezpez:
— Melo e Caspa faz poemas
como quem tem dores nos pés.
/
Diz o Alexandre O'Neill
que às vezes lhe falta um til.
Ora ponha-o na cabeça
para ver como se acaba
o que depressa começa
quando a chegada desaba!
Mas se não fosse o O'Neill
Portugal não tinha Abril.
— Ai meu adeus pequenez
o que será deste mês
se nos não chove de vez?
Bem choveu. Ele que fez?
Tropeçou-nos de ternura
a todos como bem quis.
Em Lisboa amor procura
Alexandre Português
que é gaivota e não o diz.
/
Já o mesmo não direi
— que me desculpe o Pacheco —
de dona-fiama-irei-
-ao-fundo-do-mar-a-seco.
/
Descobriu monstros marinhos.
É certo. Mas foi por eles
que errando pelos caminhos
ficou cecília mais reles.
/
Vila do Conde é maior
que todo o fundo do mar
e o Zé Régio é o melhor
descobridor a cantar.
Se a poesia é uma ostra
em Portalegre cidade
acha a pérola quem mostra
a invenção da verdade.
Na varanda do suor
em tristalegre saudade
José Régio fez um filho
que lhe nasceu por amor
e já de maior idade.
/
Também Natália é parida
do parto de suas dores
e faz poemas que dançam
toucados de mosto e flores.
/
Natália ninfa nascida
na ilha de seus amores
quando Camões lhe deu vida
por outros descobridores.
/
Sei bem que tal não agrada
a Dom Frei Gastão da Cruz
que só não é agostinho
por falta de água e luz.
/
Mas um poeta mesquinho
a própria água reduz
quando mija em vez de vinho
desperdícios de alcatruz.
— Pois que mije a toda a hora
e que vá puxando à nora...
/
Mas há coisas que se puxam
que não podemos saber
coisas que nascem estrebucham
antes de alguém as dizer:
Viva o Zé Gomes Ferreira
quando inventa uma roseira.
Viva o Manuel da Fonseca
quando nos fala da seca
e viva Miguel que outorga
as livre mesmo que morda.
/
E tu e tu que me pões
um mago dentro da cama
filho do pai de Camões
Mário de rosas e lama
Cesariny Vasconcelos
nomes que a choldra não grama
porque tu não vais com eles
e ficas em verde rama
tocando no bolso esquerdo
os nomes de quem te chama.
/
Só é poeta quem perde
o corpo de quem mais ama
— Isto o dirá em verdade
o grande Eugénio de Andrade.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

JAVIER CERCAS


Hoje na Sábado escrevo sobre O Monarca das Sombras, de Javier Cercas (n. 1962), um dos nomes centrais da literatura espanhola contemporânea. Com meia-dúzia de livros publicados no nosso país, os leitores sabem que O Monarca das Sombras, agora traduzido, retoma o tema nunca esgotado da Guerra Civil de Espanha, iniciado com Soldados de Salamina. Desta feita, a abordagem faz-se a partir da figura de Manuel Mena, o tio-avô que integrou as forças falangistas e, em 1938, com apenas dezanove anos, foi abatido durante a batalha do Ebro. Como sempre, o autor documenta o texto com grande minúcia. Ilustrado com fotografias de Manuel Mena e fac-símiles, o livro é um compósito de memórias e narrativa histórica, embora o autor o considere um romance. O primeiro parágrafo tem a secura e a precisão de um verbete de dicionário: nome, idade, função… Foi a forma encontrada para reconciliar-se com o passado. Não se trata de julgar, mas de tentar perceber o que levou um adolescente a escolher o lado errado da História, comprometendo e atormentando os vindouros com a vexata quaestio. Autor e primeiro narrador são a mesma pessoa: «Era tio paterno da minha mãe […] antes de ser escritor já pensava que um dia teria de escrever um livro acerca dele.» Mas há um segundo narrador que cita o autor pelo nome («A verdade é que Paco Cercas, avô de Javier Cercas…») e até faz hermenêutica com a obra respectiva. É esse narrador, doublé de historiador, que investiga e faz luz sobre os factos: «O resultado só pode descrever-se como uma carnificina indescritível.» Segue-se o sombrio inventário de baixas, locais de combate, identidade dos principais intervenientes, circunstâncias exactas da morte de Manuel Mena, etc. Como alguém disse, com propriedade, trata-se de um romance sem ficção. Porém, num detalhe fútil, o autor “derrapa”: nos anos 1950, a peseta tinha uma cotação residual, sendo fantasioso afirmar que «trezentas e quinze pesetas e noventa e seis cêntimos» correspondem ao equivalente «aproximado a trezentos e cinquenta euros actuais» Mas não será um deslize que afectará O Monarca das Sombras. Publicou a Assírio & Alvim. Quatro estrelas.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

AUSTRÁLIA


Ontem, dias depois da Nova Zelândia, uma maioria de 62% de australianos disse sim ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em Sydney e Melbourne a média foi de 84%. Num país onde a comunidade LGBT tem tanta força, é extraordinário que só agora o Governo e o Parlamento tenham mostrado vontade de legislar nesse sentido. O diploma final será publicado «antes do Natal», garantiu o primeiro-ministro Malcolm Turnbull. O líder da Oposição, Bill Shorten, afirmou: «Hoje celebramos, amanhã legislamos.» Sir Peter John Cosgrove, governador-geral de Sua Majestade, também se congratulou com o resultado. Várias personalidades já demonstraram o seu entusiasmo, entre elas Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá, Tim Cook, o patrão da Apple, e David Cameron, ex-PM britânico. Gays australianos assumidos, como Ian Thorpe, o campeão olímpico de natação, Penny Wong, a líder dos trabalhistas, e Alan Joyce, CEO da companhia de aviação Qantas, foram alguns dos que se juntaram às manifestações de júbilo nas ruas de Sydney, Melbourne, Camberra e Perth. A Austrália torna-se assim o 26.º país a reconhecer, em todo o seu território, o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Imagem: celebração em Melbourne. Clique.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

OITENTA ANOS


Faz agora 80 anos foi publicado Indícios de Oiro, de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), poeta maior da língua portuguesa em qualquer época. Foi portanto em 1937 que estes poemas pela primeira vez se publicaram em livro. Nos anos 1970, 80 e 90 seriam publicados, em livro, outros inéditos do poeta. Convém lembrar a efeméride: oitenta anos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

ANCRAGE?


Entrevistado hoje pelo jornal belga Le Soir, Puigdemont afirmou:

«Une autre solution que l’indépendance est possible. C’est toujours possible! J’ai travaillé pendant trente ans à obtenir un autre ancrage de la Catalogne dans l’Espagne!» Vero?

Lembrar que o ex-president fugiu para Bruxelas há dezassete dias, convencido que punha a Catalunha na agenda internacional. Já verificou que estar na capital da Europa, ou em Adelaide, na Austrália, é a mesma coisa. O flop diplomático é total. Não obteve, como pretendia, estatuto de exilado político, situação que evitaria os empecilhos judiciais em que está metido. Não conseguiu ser recebido por Juncker, nem por Tusk, nem sequer pela senhora Mogherini. Que se saiba, não conseguiu ser recebido na sede da Nieuw-Vlaamse Alliantie, o partido independentista flamengo que tem ministros no Governo e grande representação parlamentar. Admitindo que tenha havido um encontro privado com algum dirigente do N-VA, é pior a emenda que o soneto. Nenhum canal de televisão o convidou para uma entrevista em directo. Cereja em cima do bolo, não conseguiu ser convidado por nenhum grupo de eurodeputados para ir ao Parlamento Europeu.

E agora ainda tem Ada Colau à perna. A alcaldesa de Barcelona exige explicações sobre a fuga e as implicações económicas da DUI.

Clique na imagem do Soir.

domingo, 12 de novembro de 2017

WEB SUMMIT, PANTEÃO & FRIOLEIRAS


Paddy Cosgrave, o patrão da Web Summit, publicou no Twitter um comunicado explicando a escolha do Panteão para o jantar: os irlandeses celebram a morte e, nessa medida, queria que os seus convidados (um grupo restrito de investidores de topo) estivessem perto dos heróis de Portugal. Em Dublin, por exemplo, o mais importante jantar dos fundadores da Web Summit teve lugar na Christ Church Cathedral, ou seja, «in the largest crypt in the UK and Ireland.» Está explicado.

O aluguer de monumentos nacionais para a realização de eventos mundanos é possível porque o subsecretário de Estado da Cultura do Governo PSD/CDS, Jorge Barreto Xavier, impôs o Despacho n.º 8356/2014, de 24 de Junho, à Direcção Geral do Património Cultural. Um pro forma, pois já desde 2013 se faziam jantares no Panteão.

O cúmulo do ridículo é ver o PSD e o CDS a arrancarem os cabelos.

Clique nas imagens do Twitter e do jantar da Web Summit.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ACTO SIMBÓLICO


O juiz Pablo Llarena, do Supremo Tribunal de Espanha, deu um prazo de sete dias a Carme Forcadell para pagar uma fiança de 150 mil euros e, assim, sair da prisão de Alcalá Meco para onde seguiu esta noite. A ex-Presidenta do Parlamento catalão afirmou durante a inquirição que «a declaração unilateral de independência da Catalunha foi um acto simbólico sem efeitos jurídicos». Quando sair da prisão está proibida de sair de Espanha.

Os outros membros da Mesa, Lluís Maria Corominas, Anna Simó, Lluis Guinó e Ramona Barrufet, aguardam o julgamento em liberdade, tendo sete dias para pagarem, cada um deles, uma fiança de 25 mil euros.

Joan Josep Nuet, que votou contra a DUI, saiu em liberdade, sem fiança, mas com termo de identidade e residência.

A HORA DO SUPREMO


Acusados de rebelião, sedição, desvio de fundos públicos, prevaricação e desobediência, Carme Forcadell, ex-Presidenta do Parlamento catalão, bem como Lluís Maria Corominas, Anna Simó, Lluis Guinó, Ramona Barrufet e Joan Josep Nuet, membros da Mesa, começaram hoje a ser ouvidos no Supremo. O MP pede prisão incondicional para todos, excepto Joan Josep Nuet, que votou contra a DUI. À chegada ao tribunal foram recebidos com insultos e um mar de bandeiras de Espanha. Recordar que o Supremo avocou todos os processos referentes ao referendo e à DUI que corriam nos tribunais catalães.

Na imagem, Carme Forcadell, hoje. Foto de El País. Clique.

SAGAN & KENZABURO


Hoje na Sábado escrevo sobre Bom Dia, Tristeza de Françoise Sagan (1935-2004). Em Março de 1954, a vida literária francesa foi abalada por um escândalo não previsto: uma adolescente de 18 anos acabava de publicar o seu primeiro romance, Bonjour Tristesse. Nunca uma menor de idade ousara desafiar as convenções. Sagan não vinha do bas-fond nem estava por conta de um editor oportunista. Pelo contrário, era filha da grande burguesia industrial francesa e frequentava o beau monde mais exclusivo. A sua passagem por um convento tinha sido uma vénia à tradição de libertinagem do século XVIII. As ondas de choque não impediram que o livro tivesse vencido o Prémio dos Críticos, por decisão de um júri que incluía gente como Bataille, Caillois e Blanchot. O filósofo existencialista Gabriel Marcel foi um dos seus defensores. Bom Dia, Tristeza regressa agora às livrarias portuguesas, na tradução de Isabel St. Aubyn, a mais recente das três que o livro teve em Portugal. Sagan fala sem eufemismos das exigências do corpo, de consumo de álcool e drogas, de relações livres: «Anne acariciava-me o cabelo, a nuca, muito terna. […] Nunca experimentara uma fraqueza tão usurpadora, tão violenta. Fechei os olhos. Parecia-me que o meu coração cessara de pulsar.» Era o início de uma Obra desigual mas prolífica: vinte romances e vários volumes de diário e memórias. Muitos dos seus livros foram adaptados ao cinema (a começar por este) e ao teatro, porque Sagan se tornou uma figura planetária e, sem que ainda se soubesse, a última escritora mundana. A imprensa nunca mais a largou: militância política contra a Guerra da Argélia e no Maio de 68, casos amorosos com homens e mulheres (a jornalista Annick Geille foi sua companheira durante muitos anos), dois casamentos e um filho, cocaína, orgias, noites de roleta em Monte Carlo, o traumático acidente quando conduzia o Aston Martin, o envolvimento com Mitterrand no caso do petróleo do Uzbequistão, acusações por fraude fiscal, doença e morte. Esta reedição em capa dura inclui ilustrações de Mily Possoz, o fac-símile do despacho da PIDE — que classificou o livro como «francamente amoral» —, e posfácio de Jorge Reis-Sá. Quatro estrelas. Publicou a Casa dos Ceifeiros.

Escrevo ainda sobre Morte pela Água, do japonês Kenzaburo Oe (n. 1935), Prémio Nobel da Literatura em 1994. Com meia dúzia de livros traduzidos no nosso país, o autor regressa às livrarias portuguesas com o seu romance mais recente, em tradução de Helder Moura Pereira feita a partir a edição de língua inglesa. O título é ‘roubado’ a The Waste Land, de T. S. Eliot. O narrador é Kogito Choko, alter-ego do autor que os leitores conhecem de obras anteriores. Pode-se dizer que Morte pela Água é um livro-testamento, a obra de um escritor que chega a um ponto da sua vida em que se vê coagido a mergulhar em lembranças remotas: a infância no campo e o tempo em que acalentava o sonho de ser escritor. Por outro lado, o conflito com as ambiguidades do Japão ‘imperial’ é um tema obsessivo. Além de Eliot e A Terra Devastada, Kenzaburo põe em pauta outras obras e autores, sendo Edward Said, que foi seu amigo, um deles. Iconoclasta, controverso, Kanzaburo Oe recusou a Ordem da Cultura por não reconhecer autoridade ao Imperador. Quatro estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

O MURO


Com o derrube do Muro de Berlim, na noite de 9 de Novembro de 1989, a História mudou. Faz hoje 28 anos. Nessa noite, milhares de alemães da RDA atravessaram a fronteira que separava as duas Alemanhas. Nunca até então a utopia fora um facto. Em menos de um ano (ao fim de 339 dias), Helmut Kohl acabou com a RDA e fez a reunificação alemã. Em Dezembro de 1991, a URSS implodiu.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

UM SÉCULO

Faz hoje cem anos triunfou em Petrogrado, actual São Petersburgo, a primeira revolução comunista da História. Pelo calendário Juliano, era 25 de Outubro na Rússia, 7 de Novembro no Ocidente. Oito meses após a Revolução de Fevereiro que levou à abdicação de Nicolau II (o czar tinha contra si o povo, os militares, a intelligentsia, a grande nobreza, a nobreza boiarda, a classe política, os exilados e as Potências) e à tomada de posse de dois governos provisórios, o primeiro chefiado pelo príncipe Georgy Lvov, o segundo por Kerensky, a Revolução de Outubro derrubou a Monarquia e impôs o regime que durou até 26 de Dezembro de 1991. Deixou um saldo de mais de 50 milhões de mortos, número que inclui as vítimas do Holodomor, a grande fome da Ucrânia imposta por Estaline entre 1932 e 33. Até morrer em 1924, Lenine foi quase sempre o homem forte.

A URSS nasceu em 1922, agregando quinze países dentro das suas fronteiras, ao mesmo tempo que mantinha um controlo férreo sobre outros sete, teoricamente independentes: RDA, Polónia, Hungria, Checoslováquia, Bulgária, Roménia e Albânia. A entrada dos tanques do Pacto de Varsóvia em Budapeste (1956) e Praga (1968) acabou com as últimas ilusões. Tudo visto, a Revolução de Outubro acabaria por influenciar o rumo do século XX.

Hoje, em Moscovo e São Petersburgo, não está agendada nenhuma cerimónia oficial ou oficiosa para celebrar a data.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

LILI


Grande mulher. Vem a propósito citar Adília Lopes:

«Eu quero foder foder / achadamente / se esta revolução / não me deixa / foder até morrer / é porque / não é revolução / nenhuma [...]» — in Florbela Espanca Espanca, 1999.

WEB SUMMIT

Repito o que escrevi o ano passado. Faz-me confusão que um Governo do PS, apoiado pelo BE, PCP e PEV, patrocine a Web Summit. Eu sei que o evento coloca Lisboa no radar dos hot spots internacionais, enche hotéis, restaurantes, bares e discotecas, mas é o tipo que coisa que faria sentido ser apoiada pelo CDS. Os promotores da Web Summit sabem que o seu público-alvo são os jovens empreendedores que querem acabar com a Segurança Social, a Saúde e o Ensino público. A Web Summit é o triunfo do individualismo, cada um por si, sem deveres nem obrigações para com terceiros. Isto parece agit-prop. Se pensarem um bocadinho, vêem que não é.

TERROR


O terror voltou a abater-se sobre gente inocente. Até ao momento estão confirmados 26 mortos vítimas da matança da missa do meio-dia de domingo, na Primeira Igreja Baptista de Sutherland Springs (Texas). O atirador foi abatido. Tinha 26 anos e era um antigo soldado, expulso do Exército americano, com cadastro de violência doméstica sobre a mulher e o filho.

À esquerda da imagem o rosto do matador. Clique.

domingo, 5 de novembro de 2017

ESPERAR PARA VER

Os arautos catalanistas não têm motivo de satisfação. O MP belga limita-se a cumprir o protocolo, as démarches e os prazos estabelecidos na Lei. Tal como em Espanha, a Bélgica respeita a separação de poderes. Não havia razão para impor prisão preventiva a quem se apresentou voluntariamente e tem todo o interesse em estar na capital belga (até ao momento foram goradas as tentativas de um encontro com Jean-Claude Juncker), quanto mais não seja para desestabilizar o Governo, que depende do apoio de três partidos flamengos, um deles o independentista N-VA / Nieuw-Vlaamse Alliantie. Calma que a procissão ainda vai no adro.

CONDICIONAL


O juiz belga que os esteve a interrogar até às 20:40h acaba de conceder liberdade condicional a Puigdemont, Antoni Comín, Clara Ponsatí, Lluís Puig e Meritxell Serret. Enquanto prosseguir a instrução do processo de extradição, os cinco são obrigados a permanecer na Bélgica, sob vigilância policial e sem possibilidade de alterarem o domicílio declarado.

ARÁBIA SAUDITA


O mundo já não é o que era. Onze príncipes, um dos quais o todo-poderoso Al-Walid bin Talal, e ‘dezenas’ de antigos e actuais ministros, foram presos ontem em Riade. Em simultâneo, foram demitidos os dirigentes máximos da Marinha e da Guarda Nacional da Arábia Saudita (uma força interna de elite). O príncipe Miteb bin Abdullah, filho do antigo rei, foi afastado compulsivamente da guarda pretoriana da Casa Real.

Tudo aconteceu horas depois depois da publicação do decreto real que nomeou o príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, 32 anos, para chefiar a comissão anticorrupção do reino que tem por função «preservar o dinheiro público, punir pessoas corruptas e todos os que lucram com sua posição...» Que isto tenha acontecido no dia em um míssil, alegadamente do Iémen, caiu perto do aeroporto de Riade, inspira teorias de conspiração.

Clique na imagem do príncipe Mohammad bin Salman.

sábado, 4 de novembro de 2017

ASSÉDIO


Se a espiral de insinuações, revelações e acusações prosseguir, a próxima entrega de Óscares será assim. Clique na fotomontagem.

O FOLHETIM


A bola passou para a Bélgica.
Clique na imagem do jornal Le Soir.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

OS CINCO


A juíza Carmen Lamela já enviou para Bruxelas a ordem de captura, prisão e extradição de Carles Puigdemont, Antoni Comín, Clara Ponsatí, Meritxell Serret e Lluís Puig, acusados de rebelião, sedição, desvio de fundos públicos e crimes conexos, prevaricação e desobediência. As autoridades belgas tencionam cumprir o mandado com celeridade.

Imagem do jornal belga Le Soir. Clique.

OE 2018

Com os votos a favor do PS, BE, PCP e PEV, foi há pouco aprovado na generalidade o OE 2018. O PAN absteve-se. PSD e CDS votaram contra. A votação final global, na especialidade, está agendada para o próximo dia 27.

E vão três Orçamentos de Estado aprovados pela maioria de Esquerda.

SER OU NÃO SER

Visto a partir do Facebook ou do Twitter, o problema catalão tem sido uma espécie de ressonância magnética da forma como entre nós se pensa a democracia. E sobretudo do descaso que muita gente faz da separação de poderes. A democracia tem regras. O Estado de direito tem obrigações. Avaliar uma democracia pelo perfil de actuação da Justiça é um equívoco e, nalguns casos, um exercício de má-fé

Vejamos: Sócrates estava em Paris e veio a Portugal prestar contas ao MP. Isso não impediu a sua detenção à chegada ao aeroporto e onze meses de prisão preventiva. Temos de concluir que Portugal não é uma democracia?

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS


Em 1975, um grupo de autonomistas de extrema-direita fundou a Frente de Libertação dos Açores, que contou com apoio declarado da grande burguesia local e, de forma ambígua, do Departamento de Estado americano. Durante cerca de catorze meses, a FLA intimidou, ameaçou e fez tábua rasa da soberania portuguesa. A bandeira da FLA mantinha-se içada nos edifícios públicos. Sedes do PCP e do MDP/CDE foram destruídas em Ponta Delgada e Angra do Heroísmo. Foi criado um Exército de Libertação dos Açores. O Rádio Clube de Angra estava por conta dos insurrectos. O general Altino Pinto de Magalhães, Governador Militar e Comandante-em-Chefe das Forças Armadas açoreanas, nada podia fazer. António Borges Coutinho, o Governador Civil, demitiu-se no dia da grande manifestação pró-independência.

Vamos imaginar que o episódio se repetia. Mas que, desta vez, além da independência, os separatistas eram monárquicos apostados em restaurar a Monarquia. Presumo que, nos termos da democracia praticada pelos românticos defensores de uma Catalunha independente, tudo se deve admitir, à revelia das Leis e da Constituição.

Ou haverá dois pesos e duas medidas?

Clique na imagem.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

CONSUMOU-SE

Por decisão da juíza Carmen Lamela Díaz, foi decretada prisão efectiva, com carácter incondicional, dos membros do extinto Governo catalão: Oriol Junqueras, Jordi Turull, Meritxell Borrás, Josep Rull, Raül Romeva, Carles Mundó, Dolors Bassa e Joaquim Forn.

Eram 17:40 em Portugal quando, com grande aparato de segurança, oito furgões da polícia transportaram os implicados do tribunal para as cinco prisões de Madrid onde vão ficar detidos.

PRISÃO

O juiz da Audiência Nacional pediu a prisão imediata e incondicional de Oriol Junqueras, Jordi Turull, Meritxell Borrás, Josep Rull, Raül Romeva, Carles Mundó, Dolors Bassa e Joaquim Forn. O único que aguardará em liberdade o julgamento é o ex-conseller Santi Vila, que se demitiu na véspera da DUI.

A HORA DE MADRID


Catorze dos vinte independentistas acusados pelo MP espanhol de rebelião, sedição, desvio de fundos públicos e crimes conexos, portaram-se como gente, respeitando a dignidade dos cargos que detinham e o povo que os elegeu.

Carme Forcadell, ex-presidenta do Parlamento catalão, mais Lluís Corominas, Anna Simó, Ramona Barrufet e Joan Josep Nuet compareceram perante o Supremo Tribunal. Em simultâneo, Oriol Junqueras, ex-vice-presidente do Governo catalão, mais Carmen Lamela, Jordi Turull, Joaquín Forn, Josep Rull, Dolors Bassa, Raül Romeva, Carles Mundó e Santi Vila, compareceram perante a Audiência Nacional. A pedido dos advogados, as sessões do Supremo foram adiadas para o próximo dia 9. Prosseguem as da Audiência Nacional. Até lá, ficam todos sob vigilância policial.

Entretanto, em Bruxelas, assessorado por Paul Bekaert, advogado dos terroristas da ETA, empanturrado de moules-frites, Puigdemont goza o panorama. Não está sozinho. Com ele estão os ex-consellers Clara Ponsatí, Antoni Comín, Lluís Puig e Meritxell Serret. Um rebate de consciência fez regressar Meritxell Borràs, que começou por integrar o bando, mas desistiu para apresentar-se à Justiça.

Como disse José Montilla, antigo Presidente da Generalitat, «foram as astúcias e os truques de Puigdemont que nos trouxeram aqui

Na imagem, Carme Forcadell à chegada ao Supremo. Clique.

MEDINA & ROBLES


Fernando Medina fechou o acordo com Ricardo Robles, do BE, assegurando maioria absoluta na Câmara de Lisboa. Robles fica com o pelouro da Educação, Transportes e habitação.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

MOULES-FRITES


Estes são os vinte políticos catalães acusados pelo MP espanhol de rebelião, sedição, desvio de fundos públicos e delitos conexos, no âmbito da independência unilateral da Catalunha. Com uma excepção, vão comparecer a partir de amanhã perante o juiz em Madrid. O único que não vai é Puigdemont. Fugiu para Bruxelas e não tenciona sair de lá. Quem o acha um herói bem pode limpar as mãos à parede.

Imagem do jornal catalão La Vanguardia. Clique nela.

PARIS REVIEW & SANDRO WILLIAM JUNQUEIRA


Hoje na Sábado escrevo sobre o terceiro tomo de entrevistas compiladas da Paris Review. Fundada em 1953, a revista mantém-se como uma das mais prestigiadas do mundo. A sua mudança para Nova Iorque, ocorrida em 1973, ditou a continuidade. Com 222 números publicados até ao momento, continua a ter nas entrevistas a sua pièce de résistance. Em Portugal estão traduzidas três colectâneas, sendo o volume mais recente da responsabilidade de Alda Rodrigues. Este número inclui entrevistas com Alice Munro (1931), Dorothy Parker (1893-1967), Elena Ferrante (1943), George Steiner (1929), Henry Miller (1891-1980), Emmanuel Carrère (1957), John Steinbeck (1902-1968), Julian Barnes (1946), Karl Ove Knausgard (1968), Lydia Davis (1947), Susan Sontag (1933-2004) e W.H. Auden (1907-1973), ou seja, sete escritores vivos e cinco já desaparecidos. A inclusão de Ferrante e Knausgard faz vénia à repercussão mediática das obras respectivas, enquanto Carrère preenche a quota francesa. Nove são ficcionistas puros, um é poeta, e os outros dois são ensaístas, embora Sontag, notabilizada como tal, também tenha escrito romances. A entrevista mais longa é com George Steiner. Setenta páginas prodigiosas nas quais acompanhamos o raciocínio do último renascentista vivo. A partir de temas concretos, o autor confessa o ‘atrito’ com a ficção: «precisam de um romancista a sério, que eu não sou.» O mesmo para a poesia. Por isso ficou pensador, controverso dos dois lados do Atlântico, erudito como muito poucos, senhor de uma cosmogonia única. Não há espaço para resumir as respostas que deu em 1994, mas elas valem pelo livro todo. Sontag também é brilhante, mas olha para a posteridade. Ferrante é prosaica. Auden enfatiza o senso comum em registo sarcástico (e trata o companheiro de uma vida como senhor Kallman). Knausgard, entrevistado por James Wood himself, concede que não escreve bem: «A verdade é que sou demasiado autocrítico para ser escritor, e fui muito crítico com este projecto. Foi uma tortura.» Refere-se aos seis volumes de A Minha Luta. O norueguês põe o acento tónico no politicamente correcto: já ninguém discute o que interessa porque o feminismo e o multiculturalismo é que são importantes. Barnes nunca desilude. Carrère é o único que pronuncia… chique. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre Quando as Girafas Baixam o Pescoço, de Sandro William Junqueira (n. 1974). Entre os novos ficcionistas, a sua voz distingue-se com nitidez. Autor de quatro romances, uma peça de teatro e dois livros para a infância, Sandro William Junqueira manipula com fluência um universo semântico muito pessoal. O livro mais recente é uma alegoria bem escarolada da não-razão de sobreviver: «Naquela urbanização há um buraco. Uma falha no ordenamento do betão.» A linearidade é enganadora. O imáginário do autor dribla o leitor mais precavido. Os interstícios da prosa vão sendo sinalizados por ecos do Modernismo. Montado numa sucessão de sketches, o romance secciona a narrativa em cem micro-capítulos. O sexo é recorrente: «enfiou dentro de si o maior número de dedos que conseguiu.» Certa ideia de cenografia molda várias passagens. Vera, uma das protagonistas, «tem um filho atravessado na barriga. E tem o pai do filho atravessado na garganta. […] Mas ela sabe que não pode ter duas coisas atravessadas no corpo ao mesmo tempo.» Não é despiciendo supor que, em data incerta, Sandro William Junqueira possa vir a autonomizar uma das estórias. Quatro estrelas. Publicou a Caminho.

TERROR EM NOVA IORQUE


Halloween trágico. Ontem ao fim da tarde, guiando uma carrinha de caixa aberta e gritando Allahu akbar, um homem de 29 anos atropelou dezenas de ciclistas em Nova Iorque, na ciclovia contígua ao rio Hudson. Oito pessoas morreram e onze estão em estado grave. Cinco dos oito mortos são argentinos. O atacante, oriundo do Uzbequistão, vivia em Nova Iorque desde 2010 e tinha consigo documentação do Daesh. Só foi detido (com um tiro na barriga) depois de percorrer 1,6 quilómetros e deixar um rasto de sangue e bicicletas destruídas. É o ataque mais grave ocorrido em Nova Iorque desde o 11 de Setembro.

A imagem é do New York Times. Clique.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

O FUGITIVO


Puigdemont está na Bélgica, disse hoje em conferência de imprensa, «porque Bruxelas é a capital da Europa e o problema catalão é um problema europeu». Bem pode esperar sentado. Disse mais: tenciona manter ali um Govern no exílio, e só voltará a Espanha se e quanto tiver garantias. Tudo isto dá a medida da trapalhada em que meteu parte da população catalã, ávida de uma independência pronta-a-servir, mas iludida ao ponto de não ter parado um minuto para pensar em detalhes como a moeda própria e o limbo diplomático.

Aguardemos os próximos desenvolvimentos. Para já, fica no ar a perplexidade de milhões de espanhois e o repto lançado por Kris Peeters, vice-primeiro-ministro do Governo belga: «Se declaraste a independência tens de estar com o teu povo. Não aqui.» Paul Bekaert, o advogado flamengo da ETA, foi contratado pelo ex-President, mas onde ele faz falta é em Espanha, a defender os que não fugiram.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

PUIGDEMONT & OS CINCO


Lluís Llach, deputado catalão do partido Junts pel Sí, escreveu no Twitter que Puigdemont e os ex-consellers que o acompanharam vão estabelecer em Bruxelas um Govern no exílio. Com Puigdemont seguiram Joaquim Forn, Meritxell Borràs, Antoni Comín, Dolors Bassa e Meritxell Serret, que ocupavam as pastas do Interior, Governação, Saúde, Trabalho e Agricultura. A fuga fez-se de carro entre Barcelona e Marselha, e de avião entre Marselha e Bruxelas.

A imagem mostra Puigdemont e os cinco. Clique para ver melhor.

SAÍDA PELA ESQUERDA BAIXA


No dia em que foi acusado de rebelião, golpe de Estado, desvio de fundos públicos e delitos conexos, Puigdemont e um grupo de ex-consellers (entre 5 e 8, conforme as fontes) fugiram para Bruxelas. O Governo belga vê com apreensão a sua presença no país, pois um pedido de asilo político abriria um conflito na UE.

A atitude de Puigdemont contrasta com o do seu ex-vice, Oriol Junqueras, que permanece em Barcelona. Como em tudo, ou se tem guts, ou não tem.

Clique na imagem.

ACUSADOS


Num acórdão de 118 páginas, José Manuel Maza, procurador-geral do Ministério Público de Espanha, acusa Puigdemont, Carme Forcadell e os membros da Mesa do Parlament, Junqueras e os consellers do Govern catalão, dos crimes de rebelião, sedição, desvio de fundos públicos e delitos conexos. Para evitarem a prisão, cada um dos 20 arguidos terá de pagar 300 mil euros de fiança.

Carles Puigdemont, Carme Forcadell, Oriol Junqueras, Jordi Turul, Raül Romeva, Antoni Comín, Josep Rull, Dolors Bassa, Meritxell Borràs, Clara Ponsatí i Obiols, Joaquim Forn, Lluís Puig i Gordi, Carles Mundó, Santiago Vila, Meritxell Serret i Aleu, Lluís María Corominas, Lluis Guinó, Anna Simó, Ramona Barrufet e Joan Josep Nuet i Pujals têm de apresentar-se ‘com urgência’ em Madrid.

Na imagem, a primeira página da acusação. Clique.

sábado, 28 de outubro de 2017

O DAY AFTER


Suprema ironia, Soraya Sáenz de Santamaría, vice-presidenta do Governo espanhol, provavelmente a ministra mais conservadora de Rajoy, ocupa agora o cargo de Presidenta da Generalitat. Ficará no lugar até ao regresso da normalidade, ou seja, até à entrada em funções do Governo que sair das eleições autonómicas de 21 de Dezembro. Caiu por terra a ideia de um ‘comissário’ de perfil técnico. 

Além de Puigdemont, Junqueras e todos os membros do Governo catalão, também foram demitidos 150 altos funcionários da Generalitat. Um deles foi Trapero, director-geral dos Mossos d'Esquadra.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

CATALEXIT & 155


Por 214 votos a favor, 47 contra e uma abstenção, o Senado espanhol aprovou a aplicação, na Catalunha, do art.º 155 da Constituição. A medida, que entra em vigor amanhã, destitui Puigdemont do cargo de Presidente da Generalitat, exonera todos os membros do Governo catalão, inibe o Parlament de legislar contra os interesses de Espanha, retira autonomia aos Mossos d'Esquadra, permitirá intervir em todos os organismos públicos da Catalunha (a TV3 é um deles), etc. Em Maio de 2018 haverá eleições autonómicas. Rajoy reuniu o Conselho de Ministros para ratificar a decisão do Senado

Cerca de uma hora antes, o Parlament catalão tinha aprovado a declaração unilateral de independência da Catalunha por 70 votos a favor, 10 contra e duas abstenções. A votação fez-se por voto secreto, em urna (uma imposição dos independentistas), depois de 52 deputados anti-independência terem abandonado o plenário.

Clique na imagem do El País.

O DIA D?


O Parlamento catalão prevê votar hoje a declaração unilateral de independência da Catalunha. A sessão estava marcada para as 11 da manhã, hora portuguesa, mas ainda não começou porque mais de metade dos deputados não chegaram. Constituir «una República catalana como estado independiente soberano, democrático y social...» é a proposta conjunta da CUP e de Junts pel Sí.

Se a DUI for aprovada, como se prevê, terá de ser eleita no prazo de 15 dias uma comissão constituinte.

Em rota de colisão com os independentistas, demitiu-se ontem o historiador Santi Vila, consejero (ministro) da Economia e Conhecimento do Govern catalão.

Enquanto isto, em Madrid, o Senado prepara-se para votar a intervenção na Catalunha.

As imagens mostram a primeira e última páginas das dez que constituem a proposta de DUI. Clique nelas.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

TRAPALHADA


Dando curso às suas habituais indecisões, Puigdemont anunciou ontem que iria hoje a Madrid defender no Senado os anseios da Catalunha. Ao princípio da noite, desistiu. Esta manhã fez crer que convocaria eleições autonómicas para 20 de Dezembro. O anúncio formal esteve anunciado para as 13:30h, foi adiado uma hora, e cancelado às 14:20h. Frente ao Palau, milhares de estudantes gritaram: Puigdemont traidor. Queremos a independência já!

Às cinco da tarde, o Presidente da Generalitat foi ao Parlamento catalão passar a bola:

«[...] No hay ninguna garantía que justifique la convocatoria de unas elecciones. No acepto las medidas del articulo 115 por injustas. He intentado obtener las garantías para hacer estas elecciones pero esto no ha obtenido una respuesta responsable del PP que ha aprovechado para añadir tensión. [...]»

Disse e abandonou o edifício. A sessão plenária prossegue.

Cabe perguntar: porquê e para quê a trapalhada do referendo do passado dia 1? Entretanto, mais de 1.500 empresas transferiram as suas sedes sociais e fiscais para fora da Catalunha. Quando, amanhã ou no sábado, a Catalunha for intervencionada ao abrigo do art.º 155 da Constituição de Espanha, a quem vão os catalães pedir responsabilidades?

Clique na imagem do jornal Català Digital.

MARÍAS & REYES


Hoje na Sábado escrevo sobre o primeiro dos três volumes que compõem O Teu Rosto Amanhã, um dos romances mais famosos do espanhol Javier Marías (n. 1951). Este primeiro volume, que agora voltou às livrarias, tem por subtítulo Febre e lança. Eterno nobelizável, romancista, ensaísta e tradutor dos mais notáveis entre os seus pares europeus e americanos, Javier Marías serve-se da sua vasta experiência anglo-saxónica (viveu a infância e parte da adolescência nos Estados Unidos, onde o pai se exilou por causa de Franco) para construir a teia oxbridge que está no centro do romance. O narrador tem o dom de ler as consciências, antecipando comportamentos e acontecimentos futuros: «A mim pagaram-me para contar o que ainda não era nem tinha sido...» Como será o nosso rosto amanhã? A ideia de uma organização secreta, porventura inexistente, apostada em escrutinar um futuro a haver, remete para Philip K. Dick e outros. Tudo começa com o pacto estabelecido entre Jacques Deza e Sir Peter Wheeler, esse «falso ancião» capaz das maiores maquinações. Escrito e publicado em 2002, este primeiro volume de O Teu Rosto Amanhã oscila entre o presente e o passado, com ênfase particular nos meandros da Guerra Civil Espanhola. Jacques Deza, provável alter-ego do autor, e narrador autodiegético da obra, não deixa escapar nada: esquecimento, traição, racismo, ódios, sexo, filosofia, serviços secretos britânicos e russos, repressão franquista, Hugo Chávez, Literatura, Tristram Shandy (uma das traduções de Javier Marías), Ian Fleming, Orwell, Geração de 27, gossip diplomático, Margaret Thatcher, idiossincrasias, Brecht, etc. Em pano de fundo omnipresente, o Mal, na peculiar concepção do autor: «Hoje existe um gosto de se expor ao mais baixo e vil, ao monstruoso e ao aberrante…» Por vezes, a sintaxe cola-se à forma de inventário (acontece nas citações bibliográficas inseridas na narrativa), mas não se trata de menor apuro. Javier Marías domina todos os recursos estilísticos, encaixando na prosa, com naturalidade, registos aparentemente antagónicos. A tentação do ensaio surge nos interstícios da narrativa, facto que não é novidade na obra ficcional do autor. O mesmo se diga do excesso de apontamentos eruditos. Este volume inclui iconografia. Cinco estrelas. Publicou a Alfaguara.

Escrevo ainda sobre O Livro de Emma Reyes. A infância da pintora colombiana Emma Reyes (1919-2003) está contida nas 23 cartas que preenchem o Livro. Emma nasceu num bairro de lata de Bogotá, tendo sido entregue ainda criança ao ‘cuidado’ de uma mulher que a mantinha trancada num quarto sem janelas, sem água e sem luz eléctrica. Mais tarde foi internada num convento de freiras onde durante 15 anos sofreu abusos de vária ordem. Dos pais não há notícia. Depois da evasão (1938) aprendeu a ler e escrever, viajou à boleia pela América Latina, casou no Uruguai e ganhou uma bolsa para estudar em Paris, onde casaria pela segunda vez e privaria com Germán Arciniegas e outros. Foi Germán quem a convenceu a pôr o passado por escrito (o livro foi publicado em 2012 por decisão dos herdeiros do historiador). As cartas começam no dia em que De Gaulle abandonou o Eliseu. Este volume inclui o fac-símile dessa primeira carta, bem como desenhos. Emma Reyes faz o relato do indizível sem autocomplacência: «Nesse ano, e por culpa do Diabo, o Papa não recebeu o nosso presente.» Não obstante a secura, terrível. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ATÉ QUE ENFIM


A decisão foi tomada hoje à noite pelo Conselho Superior de Magistratura.
Clique na imagem do Expresso.

WENDERS


O Presidente da República condecorou Wim Wenders com o grau de Comendador da Ordem do Mérito. Para Marcelo Rebelo de Sousa, o realizador alemão, laureado na mesma cerimónia com o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, marca-nos a todos porque... «Cada passo da nossa vida corresponde a um ou dois filmes seus.» Vero? Nanja comigo.

Tenho ali uma vintena de realizadores que me foram marcando ao longo da vida (Antonioni, Altman, Bergman, Buñuel, Carpenter, Cassavetes, Chabrol, DeMille, Fellini, Hawks, Kazan, Kubrick, Losey, Minnelli, Pasolini, Polanski, Pollack, Ray, Rohmer, Wilder), e este cavalheiro não consta. Mas gostos não se discutem. Em todo o caso, que a Presidência da República tenha sido capaz de um upgrade de Katia Guerreiro para Wim Wenders é um bom sinal.

Clique na imagem.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

MOÇÃO CRISTAS REJEITADA

Por 122 votos contra 105, o Parlamento rejeitou a Moção de Censura do CDS. Votaram contra: PS, BE, PCP, PEV e PAN. Votaram a favor: CDS e PSD. O Presidente da República queria nova legitimação? Aí a tem.

UNIDADE DE MISSÃO


Tiago Oliveira, 47 anos, doutorado em Governança de Risco de Incêndio, investigador do Centro de Estudos Florestais da Universidade de Lisboa, responsável pela protecção florestal do grupo Navigator, foi empossado esta manhã como Chefe da Unidade de Missão para a Protecção Civil. Em termos protocolares e de responsabilidade, o cargo é equivalente ao de secretário de Estado, ficando Tiago Oliveira na dependência directa do primeiro-ministro. A dimensão das responsabilidades é imensa. Tiago Oliveira terá de pôr na ordem as várias associações de bombeiros, coordenar as forças de segurança envolvidas, estabelecer prioridades, canalizar meios humanos e materiais, enfim, reconstruir o país ardido e criar condições para que o 15 de Outubro não se repita.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

CAPAZES


A associação feminista CAPAZES vai apresentar queixa ao Conselho Superior de Magistratura contra o relator do acórdão da Relação do Porto que, no passado dia 11, a propósito de adultério, invocou a Bíblia e o Código Civil de 1886. Ou seja, contra o juiz desembargador Neto de Moura e a juíza Maria Luísa Arantes que também assinou.

Na imagem, primeira página do referido acórdão. Clique.

EM QUE FICAMOS?

Afinal, o que quer Puigdemont? Impôs o ‘referendo’ do passado dia 1 e, com base nele, foi ao Parlamento catalão no dia 10 declarar o direito da Catalunha à independência sob a forma de República, tendo suspendido acto contínuo os seus efeitos.

Entretanto, no dia 21, o Governo espanhol accionou o art.º 155 da Constituição, decisão que terá de ser votada no Senado (onde o PP detém maioria absoluta) no próximo dia 27. Puigdemont reconhece a humilhação mas não tira consequências dela.

Até ao momento, mais de 1.300 empresas, incluindo todas as cotadas no IBEX 35, retiraram da Catalunha as suas sedes sociais e fiscais. Puigdemont assobia para o lado.

Puigdemont gosta de manifestações. Fora isso, não parece capaz de nada. Trapero, o comandante dos Mossos, foi acusado de sedição, demitido e constituído arguido no passado dia 4. O que fez Puigdemont? Nada. Jordi Sànchez, presidente da Assembleia Nacional Catalã, e Jordi Cuixart, presidente de Òmnium Cultural, foram presos no passado dia 16 acusados de incitamento à violência. Puigdemont foi à manif solidária.

Não estaria na altura de suspender a suspensão da DUI?

E nem falo de eleições, porque Puigdemont foge delas como o Diabo da cruz.

Soube-se hoje que Puigdemont vai falar ao Parlamento catalão no próximo dia 26, véspera do plenário do Senado em Madrid. Mais uma lamechise em prol do diálogo? Eu, se fosse independentista (não sou), estaria profundamente decepcionado.

domingo, 22 de outubro de 2017

CATARINA SAIU


O Governo mudou de ministros e de secretários de Estado. Mas essas mudanças acarretaram alteração da sua orgânica. Sob tutela do ministro Adjunto havia duas secretarias de Estado: Autarquias Locais, ocupada por Carlos Miguel; Cidadania e Igualdade, ocupada por Catarina Marcelino.

Agora, o novo ministro Adjunto, Pedro Siza Vieira, fica sem secretarias de Estado. As que o seu antecessor tutelava passaram: uma para a Administração Interna (Autarquias Locais), outra para a Presidência e Modernização Administrativa (Cidadania e Igualdade). E foi criada uma nova secretaria de Estado, dita da Protecção Civil, sob tutela do MAI. Estas mudanças ditaram a saída de Catarina Marcelino, aparentemente porque a ministra da Presidência, Maria Manuel Leitão Marques, quis outra cara no seu ministério. Podemos não gostar ou não perceber, mas, para o melhor e para o pior, estas coisas acontecem nos governos, nas empresas, nos clubes, nas associações, nas escolas, nas direcções-gerais, nos institutos, nas fundações, etc.

A imagem é de Catarina Marcelino, a secretária de Estado demitida apesar de ter feito um bom trabalho.

PERGUNTA OPORTUNA

O Presidente da República quer saber, e já agora eu também, por que razão os deputados (sobretudo os que foram eleitos pelos círculos afectados) ainda não foram visitar os concelhos ardidos. Será porque não têm galochas?

SÉCULO XXI?


Isto não aconteceu na Arábia Saudita. Aconteceu no Porto.
Clique na imagem do Jornal de notícias.

sábado, 21 de outubro de 2017

ESPANHA

O Governo espanhol accionou hoje o art.º 155 da Constituição, que será votado pelo Senado no próximo dia 27. O PP detém maioria absoluta no Senado, mas o PSOE faz questão de votar ao lado do PP. Em resumo, as medidas aprovadas são as seguintes:

Carles Puigdemont e Oriol Junqueras são destituídos dos cargos de Presidente e vice-presidente da Generalitat.

O Governo catalão cessa todas as suas funções.

O Parlamento catalão mantém-se em funções, mas inibido de fazer nomeações ou de legislar contra o art.º 155. Carme Forcadell, a presidenta, mantém o cargo.

Madrid assume o controlo directo das Finanças, Economia, Autoridade Fiscal, Segurança, Polícias, Telecomunicações, Serviços Digitais e Informação (a direcção da TV3 será substituída).

Estão previstas eleições gerais na Catalunha entre Janeiro, como quer o PSOE, e Maio, como prefere o PP.

AXIMAGE


Sondagem Aximage, efectuada depois dos incêndios de domingo passado, divulgada hoje pelo Correio da Manhã. Clique nas imagens.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A VER VAMOS

Realiza-se amanhã, sábado, o Conselho de Ministros extraordinário que vai tirar consequências do Relatório da Comissão Técnica Independente nomeada pelo Parlamento. Antes (09:30), o Presidente da República dá posse a dois ministros e quatro secretários de Estado. Não sei o que vai sair do CM extraordinário. No momento em que metade do país colapsou, a nossa expectativa e a nossa exigência não podem deixar de ser muito altas. A ver vamos.

COISAS SÉRIAS

As armas furtadas em Tancos no passado 27 de Junho apareceram anteontem, 18 de Outubro, na Chamusca. Entre as duas datas, chefias do Exército e outros militares (um deles foi Vasco Lourenço) alertaram para a possibilidade de não ter havido furto. As armas ‘desaparecidas’ fariam parte de um lote abatido ao stock mas não registado como tal. Acontece muito, repetiu gente insuspeita. Fui dos que aceitaram a tese como boa. Mas eis que as armas surgem do nada após denúncia anónima. Dando de barato o facto de o seu desaparecimento e ulterior aparecimento terem ocorrido no pós-Pedrógão Grande e no pós-Domingo Negro, respectivamente, curiosa coincidência, o factor Chamusca muda tudo. Ou não?

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

KNOPFLI & JOUMANA


Hoje na Sábado escrevo sobre Nada Tem Já Encanto, antologia da poesia de Rui Knopfli (1932-1997) publicada nos vinte anos da morte do poeta. Um acontecimento. Pedro Mexia, que seleccionou os poemas a partir da obra completa do autor, tomou a decisão acertada de incluir dois livros na íntegra, Máquina de Areia (1964) e O Escriba Acocorado (1978), ambos «considerados um poema único dividido em várias secções». No tocante aos outros seis livros, a escolha privilegia os poemas que põem em pauta a identidade nacional (moçambicano ou português?) e a borrasca imperial: «Servidor incorruptível da verdade e da memória, / escrevo sentado e obscuro palavras terríveis / de ignomínia e acusação. […] A História que há-de ler-se é por mim escrita. / Anonimato igual nos cobrirá. A estas palavras não.» A obra de Knopfli, uma das grandes vozes da poesia de língua portuguesa, divide-se em duas fases distintas: a moçambicana (1959-72) e a do exílio (1978-97). Os seis anos de intervalo fizeram a catarse mnemónica que culminaria no livro derradeiro, O Monhé das Cobras (1997). Mas convém recuar meio século e ler os versos premonitórios de Reino Submarino (1962) ou, em registo oposto aos solavancos da História, verificar como Knopfli antecipou a poesia do real — vejam-se poemas como Fim de Tarde no Café, À Paris ou Guns in the Afternoon —, género, se assim lhe podemos chamar, que entre nós apenas seria consagrado na segunda metade dos anos 1970. Filho da burguesia fundadora e daquela Polana «mansa e boa» onde cresceu, Knopfli não receou fazer, antes do início da luta armada, o epitáfio da colonização. Sirvam de exemplo poemas como Certidão de Óbito («Um tempo de lanças nuas / espera por nós…») ou, sobre todos, O Preto no Branco, cujo último verso é o proémio da luta independentista: «Tudo quanto há-de gravar o meu nome / numa das balas da tua cartucheira. / Nessa bala hipotética, nessa bala possível / que se vier (ela há-de vir) // melhor dirá o que aqui fica por dizer.» Poeta déraciné, Knopfli logrou escapar ao inferno da «voz traída». O volume é prefaciado por Eugénio Lisboa. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre Eu matei Xerazade. Confissões de uma mulher árabe em fúria, da libanesa Joumana Haddad (n. 1970), primeiro título de uma nova editora, Sibila, que chega às livrarias com uma colecção dedicada à palavra das mulheres. Joumana escreve poesia, literatura erótica e livros infantis. Este livro oscila entre o ensaio e memórias da autora. A ironia do título teria o seu equivalente português em ‘Eu matei Nossa Senhora’. Joumana desconstrói o mito da mulher árabe subserviente, temente a Alá e às exigências do corpo: «sou definitivamente aquilo a que se costuma chamar uma mulher de tomates, mas não sofro de nenhuma inveja do pénis». A autora confessa estar farta de «metáforas fálicas» (sabres, mangueiras, pilares, etc.) e, nessa medida, chama as coisas pelo nome. A tradução de Inês Pedrosa ajuda. Numa linguagem irreverente, defende a revista que fundou em 2008, com o intuito de falar de literatura e do corpo: «Mas o objectivo central da JASAD não é o de ajudar os homens a ejacular…» O livro fecha com uma «tentativa de autobiografia» em forma de poema. Quatro estrelas. Publicou a Sibila.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

NOVO MAI


Eduardo Cabrita, actual ministro Adjunto, vai ser o próximo ministro da Administração Interna. A posse é no sábado, dia 21, antes do conselho de ministros extraordinário marcado para esse dia. O lugar de ministro Adjunto será ocupado por Pedro Siza Vieira.

CENSURA


O CDS vai apresentar amanhã uma moção de censura ao Governo. Em princípio, a moção será debatida e votada na próxima terça-feira, dia 24. O PSD já declarou ir votar a favor. Até aqui, nada de especial. As moções de censura fazem parte da vida parlamentar no mundo civilizado. Mas não deixa de ser irónico que seja o CDS (e não o PSD) a avançar com a iniciativa. O país não esquece que a Lei do Eucalipto, o Decreto-Lei n.º 96/2013, de 19 de Julho, saiu das mãos de Assunção Cristas, a actual líder do partido. E também não esquece as palavras de Paulo Portas.

DEMISSÃO


Constança Urbano de Sousa, ministra da Administração Interna, demitiu-se. Foi um erro político ter esperado pela comunicação do Presidente da República para o fazer, embora a ministra diga que já o tinha tentado logo após a tragédia de Pedrógão Grande.

Excerto da carta de demissão:

«Exmo Senhor Primeiro-Ministro,

Logo a seguir à tragédia de Pedrógão pedi, insistentemente, que me libertasse das minhas funções e dei-lhe tempo para encontrar quem me substituísse, razão pela qual não pedi, formal e publicamente, a minha demissão. Fi-lo por uma questão de lealdade. [...] Durante a tragédia deste fim de semana, voltei a solicitar que, logo após o seu período crítico, aceitasse a minha cessação de funções, pois apesar de esta tragédia ser fruto de múltiplos fatores, considerei que não tinha condições políticas e pessoais para continuar no exercício deste cargo, muito embora contasse com a sua confiança. Tendo terminado o período crítico desta tragédia e estando já preparadas as propostas de medidas a discutir no Conselho de Ministros Extraordinário de 21 de outubro, considero que estão esgotadas todas as condições para me manter em funções, pelo que lhe apresento agora, formalmente, o meu pedido de demissão, que tem de aceitar, até para preservar a minha dignidade pessoal