segunda-feira, 25 de setembro de 2017

BUNDESTAG


A vitória da CDU/CSU garante a Angela Merkel o quarto mandato. Até aqui, nada de novo. Preocupantes são os 13% do AfD — Alternative für Deutschland —, que fazem regressar a extrema-direita ao Bundestag. Doravante vai ser instrutivo seguir o comportamento do Parlamento alemão, com a provável aliança dos Democratas-cristãos de Merkel com os Liberais de Christian Lindner e os Verdes de Simone Peter e Cem Özdemir. A ver vamos.

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domingo, 24 de setembro de 2017

O FAKE DO EXPRESSO

Hoje, em Belém, o Presidente da República foi peremptório: «Não há relatório oficial algum, nem da parte do Estado Maior General das Forças Armadas, nem do SIS [Serviço de Informações de Segurança], nem do SIED [Serviço de Informações Estratégicas de Defesa]», sobre Tancos e o ministro da Defesa.

«É importante saber de quem é a autoria do documento, com que intenção foi elaborado e com que objectivos, aparentemente políticos, foi divulgado como sendo das secretas...», disse por sua vez Azeredo Lopes.

Não obstante, Passos e Cristas insistem na patranha.

sábado, 23 de setembro de 2017

LISBOA


Sondagem Aximage divulgada hoje pelo Correio da Manhã e o Negócios.
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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

PORTO


Sondagem do CESOP da Universidade Católica para o Jornal de Notícias. O Porto está ao rubro. Clique na imagem.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

PURGA


Juan Marsé, 84 anos, catalão, escritor eminente, militante anti-franquista, exilado do fascismo, não concorda com a independência da Catalunha. Tanto bastou para que os apparatchik da Generalitat destruam livros seus, em livrarias e bibliotecas, pichando-os de ‘renegado’ e ‘austricista’ (botifler). Que disse Marsé? Que o referendo... «És rigurosamente incompatible con un Estado de Derecho. No necesito otro argumento para rechazar tal propuesta. Yo no soy nacionalista y todas las banderas me repugnan.» Elementar.

SILÊNCIO DE CHUMBO

A Espanha fica aqui ao lado. A saga independentista da Catalunha não nos pode ser indiferente. Um pouco por todo o mundo, intelectuais tomam posição: uns a favor da secessão, outros contra. Em Portugal, como sempre, o silêncio da intelligentsia é de chumbo. Não quero que pensem como eu. Mas tomem posição!

CASTRO & WHITEHEAD


Hoje na Sábado escrevo sobre O Anjo Pornográfico, a biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro (n. 1948), uma das grandes vozes em língua portuguesa. As suas biografias de Garrincha, Carmen Miranda e Nelson Rodrigues, bem como a história da Bossa Nova, valem por obras inteiras, de ficção e ensaio. O Anjo Pornográfico acaba de ser publicado em Portugal, e embora o livro seja de 1992, conserva todo o ímpeto a que Nelson tem direito. No nosso idioma nunca li nada equivalente. Numa breve introdução, Ruy Castro avisa: o livro é sobre «um escritor a quem uma espécie de imã demoníaco (o acaso, o destino, o que for) estava sempre arrastando para uma realidade ainda mais dramática do que a que ele punha sobre o papel.» Quem leu Nelson Rodrigues (1912-1980), dramaturgo, cronista, romancista, contista, repórter e guionista, sabe que esse homem controverso e excessivo irritou a Esquerda, a Direita, os liberais, os católicos, os vanguardistas, até mesmo a ‘maioria silenciosa’. Porém, foi ele quem, em 1943, com Vestido de Noiva, fez o teatro brasileiro entrar no século XX. Apoiante da ditadura militar brasileira, depôs em tribunal a favor de amigos acusados de ‘terrorismo’, ao mesmo tempo que negociava com o general Médici uma saída airosa para Nelsinho, o filho envolvido com a guerrilha urbana sob o pseudónimo de Prancha (o rapaz foi torturado em 1972, contra ordens superiores). Desconcertante, livrou da prisão e da tortura muitos intelectuais esquerdistas. Mas Ruy Castro não se atém aos anos em que Nelson era já um dramaturgo e intelectual público célebre. As origens familiares no Recife (repórter intrépido, o pai, Mário Rodrigues, teve catorze filhos: Nelson foi o quinto) são descritas com tal minúcia que o leitor julga estar a ler um bom romance. A carreira jornalística e literária são ilustradas com factos e anedotário que compõem um fresco da vida cultural e política brasileira ao longo de várias décadas. O volume inclui fotografias e índice onomástico, bem como a bibliografia de Nelson, a qual refere os vinte filmes feitos a partir de obras suas. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

Escrevo ainda sobre A Estrada Subterrânea, de Colson Whitehead (n. 1969), que após um intervalo de catorze anos regressa à edição portuguesa com o seu sexto romance, vencedor do Pulitzer de Ficção 2017 e outros prémios importantes. Tendo o seu primeiro livro, A Instituição É Tudo, passado despercebido entre nós, pode ser que a história de Cora e César (por que razão o tradutor manteve o original Caeser?) cative os leitores para a obra do autor. Cora e César são dois escravos que utilizam a famosa Underground Railroad, a rede subterrânea clandestina que no século XIX permitiu a fuga de dezenas de milhares de escravos do Sul esclavagista para os Estados abolicionistas do Norte. Contado na terceira pessoa, o livro ilustra o quotidiano da época, em particular a bipolaridade política dos brancos da Carolina do Norte: «Forjámos esta nação separada, livre das interferências do Norte e do contágio de uma raça inferior.» Whitehead intercala realidade e “fantástico” (o livro também recebeu o prémio Arthur C. Clarke para literatura de ficção científica), de forma a enfatizar a saga das vítimas dos «cavaleiros da noite». Não teria sido mais simples usar o acrónimo abominável de KKK? Quatro estrelas. Publicou a Alfaguara.

DECLARAÇÃO DE INTERESSES

Para evitar equívocos: sou contra o referendo catalão. Não gosto de referendos, qualquer que seja o seu objecto. Embora adoptado em sociedades democráticas, o carácter plebiscitário dos referendos tem raiz fascista. Dispenso-me de explicar porque existe vasta bibliografia sobre o assunto. Infelizmente, a trapalhada em que Carles Puigdemont meteu a Catalunha vai acabar mal. Para todos.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

VARGAS LLOSA & CATALUNHA


«El referéndum no va a tener lugar y es un disparate absurdo, un anacronismo que no tiene nada que ver con la realidad de nuestro tiempo, que no está por la construcción de nacionalidades, sino al contrario, por el desvanecimiento de las nacionalidades dentro de grandes organizaciones comunes como Europa. [...] El nacionalismo es una enfermedad que desgraciadamente ha crecido de manera lamentable en Cataluña. Mi esperanza es que el Gobierno tenga la energía suficiente para impedir que un golpe de Estado — que es lo que está realmente en gestación — tenga lugar y reciba la sanción que corresponde

O escritor, Prémio Nobel da Literatura, fez estas declarações em Madrid, hoje à tarde.

CONTRA A SECESSÃO


Um manifesto assinado por 234 professores de universidades espanholas, alguns dos quais catalães, exige que o governo actue «com a máxima velocidade, firmeza e determinação para proteger os direitos de todos», ou seja, impedir o referendo: «Os nacionalismos do século XX levaram o mundo a duas guerras apocalípticas e afundaram a Europa na barbárie.» O filósofo Fernando Savater é o primeiro signatário do documento, assinado também pelos historiadores Juan Pablo Fusi, Fernando Garcia de Cortázar e Gabriel Tortella, o sociólogo Félix Ovejero, o constitucionalista Antonio Torres del Moral, bem como Jon Juaristi, antigo presidente do Instituto Cervantes e da Biblioteca Nacional de Espanha.

Clique na imagem.

BARCELONA


A Guarda Civil espanhola prendeu os catorze membros da equipa responsável pela logística do referendo catalão, incluindo Josep Maria Jové, número dois do Departamento do Tesouro. Além destas 14 prisões, efectuadas em Barcelona, foi presa em Madrid a directora-geral dos serviços informáticos da Generalitat, Rosa María Rodríguez Curto. Cerca de trinta pessoas foram identificadas para averiguação.

A operação, ordenada por um juiz, foi levada ao Congresso e aprovada pelo PP, PSOE e CIUDADANOS. Os deputados do EH Bildu e do PODEMOS votaram contra, enquanto os do PDeCAT e do ERC abandonaram a sala. Carles Puigdemont, presidente da Generalitat, fala daqui a pouco.

Para evitar manifestações, foram cortadas várias avenidas e ruas de Barcelona. Clique na imagem do El País.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

SEM PRECEDENTES


Trump foi hoje às Nações Unidas dizer que não temos alternativa senão destruir completamente a Coreia do Norte... Guterres não pestanejou. Nunca em época alguma um Chefe de Estado fez um tal statement. Se isto não é uma declaração de guerra, imita muito bem. A sessão ainda decorre. António Costa está presente.

Clique na imagem do New York Times.

FLOP

Nunca viajei em companhias low cost. Por curiosidade, fiz duas ou três pesquisas, e nada batia certo: horários impossíveis, aeroportos distantes, tarifas ao triplo do valor anunciado em outdoors, taxas suplementares para tudo e mais alguma coisa, etc. Mas muita gente viaja. E, neste momento, com 173 voos (ou seja, 346 ligações) cancelados até ao fim de Outubro, de e para os aeroportos de Lisboa, Porto, Faro, Funchal e Lajes, estão cerca de 52 mil passageiros apeados, 80% dos quais oriundos ou com destino ao Porto. O CEO da companhia desculpa-se com a deficiente calendarização das férias dos pilotos, mas a realidade é outra: 140 pilotos bateram com a porta e foram trabalhar para a Norwegian, a companhia rival e terceira maior low cost europeia.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

UNIVERSIDADE CATÓLICA


Sondagem do CESOP da Universidade Católica Portuguesa para o Jornal de Notícias, sobre a eleição para a Câmara de Lisboa. Clique na imagem para ver melhor.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

TERROR EM LONDRES


Esta noite, o Governo britânico subiu para nível crítico a possibilidade de um ataque terrorista. Elementos do exército vão substituir a polícia em pontos-chave de Londres e outras cidades do Reino Unido. Downing Street acredita que um ataque em larga escala possa estar iminente. Entretanto, o Daesh já reivindicou o atentado desta manhã na estação de metro de Parsons Green.

Na imagem do Guardian, o engenho explosivo que não detonou por completo, facto que explica a ausência de mortos e apenas 29 feridos. Clique nela.

RATING

A Standard & Poor’s retirou Portugal do «lixo», colocando a notação do país em «grau de investimento». A decisão deve-se à evolução da economia e ao progresso sólido na consolidação orçamental. 

LONDRES: NOVO ATENTADO


Um atentado terrorista no metro de Londres ocorreu esta manhã por volta das 08:17 na estação de Parsons Green. A polícia metropolitana confirma a existência de muitos feridos, quase todos com queimaduras graves devido à explosão. Theresa May convocou para daqui a pouco o comité de emergência Cobra, anunciou Downing Street.

Clique na imagem.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

MILÁN FÜST


Hoje na Sábado escrevo sobre A História da Minha Mulher, de Milán Füst (1888-1967). Conhecido sobretudo como poeta, Füst é o autor deste romance de 1957 que agora chegou à edição portuguesa em tradução directa do húngaro de Ernesto Rodrigues. Inédito no nosso país, salvo um poema constante da antologia Rosa do Mundo, é provável que o livro suscite o interesse dos editores pela obra restante, teatro incluído. Infelizmente, parte importante do Diário foi destruída. O subtítulo, Apontamentos do Comandante Störr, remete para o fio da intriga. O narrador, Jacob, é um marinheiro holandês que não tem ilusões acerca da natureza do seu casamento: «Que a minha mulher me engana já eu suspeitava há muito.» É a primeira frase do livro e o tiro de partida para um longo monólogo interior acerca do adultério e da moral dissoluta de muitos europeus no período entre duas guerras. A escrita reflecte o ambiente decandentista de certos círculos (não esquecer que o narrador é um homem do mar que tirava desforço da infidelidade da mulher) boémios. Füst publicou o livro quinze anos depois de o ter concluído, na ressaca da fugaz contra-revolução anti-comunista de Outubro de 1956. Quatro estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

TRAGÉDIA GREGA


Há muito tempo que uma peça de teatro não me impressionava tanto como A Vertigem dos Animais Antes do Abate, do grego Dimítris Dimitriádis, em tradução de José António Costa encenada por Jorge Silva Melo. Os Artistas Unidos não podiam ter começado melhor a temporada 2017/18 do Teatro da Politécnica. Um halo de tragédia percorre o texto, onde bissexualidade, loucura, droga, crime, incesto e suicídio compõem um quadro de disfunção familiar levada ao limite. Porque tudo se passa no seio de uma família assombrada pela profecia de Filon (um admirável Américo Silva), o amigo maldito. Do elenco de nove actores gostaria de destacar os mais jovens, em especial João Pedro Mamede, que está a um passo de ser um nome de referência, bem como os de André Loubet e Pedro Baptista, ambos actuando nus durante boa parte do espectáculo. É evidente que o fundo sonoro, pontuado por excertos de Tchaikovski (1812), Verdi (o Dies irae do Requiem) e Offenbach (Barcarola e Can-Can), sublinha o dramatismo da dramaturgia. Muito boa a cenografia de Rita Lopes Alves. Não aconselhado a espíritos impressionáveis. Agora é esperar pelo juízo dos especialistas.

Clique na fotografia de João Gonçalves.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

CAMPANHA NEGRA

Os neo-liberais, a Direita, grosso modo, incensa o mercado livre. Mas, pelos vistos, o mercado imobiliário tem de ser regulado à boa maneira soviética. É o que dá ter os jornais, o PSD, o CDS, as agências de comunicação, etc., atolados de antigos militantes do MRPP, da LCI, do PCP-ML, da UDP e afins. Não vale a pena citar nomes porque existe bibliografia sobre o assunto.

A CASA


Vamos lá então esmiuçar o caso que faz salivar a Direita.

Fernando Medina comprou no ano passado, por 645 mil euros, um duplex (usado) na Avenida Luís Bívar, em Lisboa. É o edifício amarelo à direita da imagem. Como a casa tem uma área bruta de 182 metros quadrados, significa que Medina pagou 3.544 euros por cada metro quadrado, valor superior em 47,8% à média das escrituras de 2016.

E quanto pagaram os vizinhos do mesmo prédio?

Celeste Cardona, ex-ministra do CDS, pagou 3.655 euros/m2
Ricardo Bayão Horta, ex-ministro do CDS, pagou 3.456 euros/m2
Jaime Silva, ex-ministro do PS e sogro de Medina, pagou 3.350 euros/m2
Judite de Sousa, pivô da TVI, vendeu o dela por 2.987 euros/m2

Chama-se a isto o mercado.

Por que razão Isabel Teixeira Duarte, em 2010, pagou 4.112 euros/m2, e vendeu, em 2016, por 3.544 euros/m2, é uma questão que só a senhora pode esclarecer.

O Presidente da Câmara de Lisboa publicou entretanto um esclarecimento detalhado com documentação anexa a corroborar isto tudo.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

FERNANDO MEDINA


Não é segredo para os meus amigos que apoio a candidatura de Fernando Medina, de cuja Comissão de Honra faço parte. Fui um dos que hoje ao fim da tarde se deslocaram ao Pátio da Galé e pude testemunhar o ambiente de empatia mútua que ali se viveu. Reencontrei amigos (intelectuais, artistas, políticos, gente das profissões liberais) que não via há muito tempo, e isso deu-me uma certeza: nas horas certas, estamos juntos.

domingo, 10 de setembro de 2017

SETÚBAL VERMELHA


Albérico Afonso Costa acaba de publicar Setúbal Cidade Vermelha, relato minucioso de como a cidade viveu os 19 meses do PREC. Não é a primeira vez que o historiador elege Setúbal como foco central da sua obra: Roteiro Republicano de Setúbal», publicado em 2010, ou o mais ambicioso História e Cronologia de Setúbal 1248-1926, publicado em 2011, são obras de referência. Como anteontem lembrou Fernando Rosas na apresentação do livro, sem o detalhe local a História fica incompleta (cito de cor). Certas passagens são de leitura compulsiva. Os ‘insurgentes’ da extrema-esquerda dos anos 1970 encontram aqui um circunstanciado tour d’horizon das suas utopias. Dividido em cinco partes, o volume contém, ao longo de 335 páginas, cronologias dos anos de 1974 e 1975, vasta iconografia (capas de jornais, cartazes, fotografias) do período em análise, inserts de declarações e obras de terceiros, entrevistas com uma vintena de protagonistas, tábua de siglas, bibliografia e um exaustivo índice remissivo, cuja consulta depende do apoio de uma boa lente. A edição é da Estuário.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 56%. A diferença entre o PS e o PSD é agora de 11,6%. Sozinho, o PS ultrapassa a PAF. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

IRMA


Sempre que via a série CSI MIAMI ficava fascinado com o waterline da cidade mas, acto contínuo, lembrava-me do tsunami que no Natal de 2004 atingiu a ilha tailandesa de Phi Phi antes das réplicas em catorze países do Índico provocarem mais de duzentos mil mortos, grande parte deles no Sul da Índia e nas Maldivas. A imagem mostra um detalhe da zona de Miami-Dade de onde, neste momento, estão a ser evacuadas cerca de 700 mil pessoas. Não quero imaginar as imagens que veremos este fim-de-semana. Clique na imagem.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

NGUYEN & AGUSTINA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Simpatizante, o primeiro livro de Viet Thanh Nguyen (n. 1971), vencedor do Pulitzer de Ficção 2016. Nguyen tem origem vietnamita, mas radicou-se com a família nos Estados Unidos quando se deu a queda de Saigão. Depois deste romance publicou um ensaio sobre o Vietname. Antes havia publicado contos na imprensa. Sem surpresa, a intriga é um melting pot da actualidade, de histórias com referentes biográficos que Nguyen terá ouvido aos pais (ele era uma criança de quatro anos quando deixou o país onde nasceu), e de metaficção. Um compósito de livro de espionagem apimentado por reminiscências da guerra, e de busca de identidade num país novo. O narrador anónimo é um oficial vietnamita refugiado em Los Angeles, doublé de espião e proprietário de uma loja de bebidas, um intelectual (autor de uma tese sobre Graham Greene), enfim, um homem cheio de contradições, filho ilegítimo de um padre francês. A primeira frase diz tudo: «Sou um espião, um infiltrado, um malsim, um homem de duas faces. Não será porventura uma surpresa que também seja um homem de duas mentes.» O segundo parágrafo abre com a famosa citação de Eliot: «abril, o mês mais cruel.» Saigão, a terra devastada, implodia com fragor. Na precipitação da retirada de Saigão veio tudo: gente comum, militares de alta patente sul-vietnamitas, agentes duplos, informadores de Thang, os pais de Nguyen, uma das centenas de famílias que foram instaladas em Fort Indiantown Gap, um campo de refugiados na Pensilvânia. Não admira que Nguyen utilize o livro para, ao mesmo tempo que exorciza os fantasmas do narrador (que volta ao Vietname para defender os seus ideais), revisita a América profunda dos anos 1970 e 80: cinema, música, tiques geracionais. Tudo sem ignorar as previsíveis comparações com o Vietname, personalidade das mulheres incluída. A actualidade está presente ao longo da narrativa: «Recostado na sua cadeira de junco, com uma t-shirt branca e umas calças de caqui, e os tornozelos perfeitos à mostra porque não usava peúgas com os sapatos de vela, era tão cool como um gelado…» Em suma, a escrita de Nguyen prende o leitor em velocidade cruzeiro. Quatro estrelas. Publicou a Elsinore.

Escrevo ainda sobre A Sibila, de Agustina Bessa-Luís (n. 1922). A reedição planificada da obra ficcional da autora é um acontecimento. Ainda que não publique nenhum romance inédito desde 2006, Agustina continua sendo a maior escritora portuguesa viva. Razão de sobra para saudar a 31.ª reedição de A Sibila, obra-prima que em 1954 provocou ondas de choque no meio literário, tendo recebido de imediato os prémios Delfim Guimarães e Eça de Queiroz. Não esquecer que Agustina foi, antes da queda da ditadura, a única autora de Direita respeitada por críticos de todos os quadrantes ideológicos, posição que mantém mesmo em democracia, sem ter abdicado das suas convicções e nunca se esquivando a militância activa. Com A Sibila, a literatura nacional ganhou uma personagem carismática, essa Quina que nos perturba «desde o alvorecer da razão», mulher indómita adoptada por sucessivas gerações de leitores. A acção do romance decorre na região de Amarante, na casa da Vessada (arrasada pelo fogo em 1870, mas reconstruída), entre meados dos séculos XIX e XX. A narrativa encontra-se pontuada, aqui e ali, por factos reais: a Revolução da Patuleia, o advento da República, etc. Se não leu, tem agora oportunidade. Os clássicos são sempre actuais. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

JOHN ASHBERY 1927-2017


Morreu ontem John Ashbery, um dos mais importantes poetas americanos do século XX. A notícia foi dada por David Kermani, seu companheiro de longos anos. Nas décadas de 1950-60, Ashbery foi um dos ícones da denominada Escola de Nova Iorque. Self-Portrait in a Convex Mirror, de 1975, o seu livro mais conhecido (a tradução portuguesa é de António M. Feijó, mas o volume da Relógio d'Água inclui, sob esse título, poemas de vários livros), recebeu no mesmo ano o Pulitzer, o National Book Award e o National Book Critics Circle Award, facto sem precedentes. Em 2012, Obama atribuiu-lhe a Medalha Nacional de Humanidades. De uma obra com mais de trinta títulos, dois estão traduzidos em Portugal. Tinha 90 anos.

domingo, 3 de setembro de 2017

BOMBA H


A contagem acelera. Desta vez não foi um teste de míssil, foi mesmo uma explosão nuclear. Eram 08:29 em Portugal quando a Coreia do Norte fez explodir uma bomba de hidrogénio. O abalo sísmico (6.3 na escala de Richter) decorrente da explosão subterrânea fez-se sentir nos países vizinhos e numa larga área do Pacífico. Esta bomba pode ser acoplada a um míssil intercontinental. Washington ainda não reagiu, o que pode prenunciar o pior. A Rússia, a China, o Japão e a Austrália já condenaram o acto. Seul garantiu esta manhã que os Estados Unidos vão fixar na Coreia do Sul os seus «activos tácticos mais poderosos». Enquanto isto, a Europa goza o domingo.

A imagem é do Guardian. Clique.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

AXIMAGE


Sondagem Aximage para o Correio da Manhã e o Negócios. Maioria de Esquerda = 59,9%. A diferença entre o PS e o PSD é superior a vinte pontos (20,1%). Sozinho, o PS ultrapassa a PAF, que continua a descer e soma agora 28,1%. Clique na imagem para ler melhor.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

BANVILLE & REIS


Hoje na Sábado escrevo sobre Retalhos do Tempo, do irlandês John Banville (n. 1945). Infelizmente tenho de me repetir: cada novo livro seu coloca o leitor no patamar do virtuosismo. Acabado de traduzir, não se esgota na categoria de livro de viagens, como aquele que em 2003 dedicou a Praga. Este volume de memórias de Dublin é um longo e fascinante ensaio ilustrado com fotografias de Paul Joyce. Sabíamos que Banville é sempre exemplar na forma como recorta as personagens, ficcionais ou reais (exemplos ao acaso: Newton e Anthony Blunt), mas, doravante, sabemos que estamos mesmo nos lugares que evoca. Desde Luz Antiga (2012), o admirável romance sobre a erosão do tempo que, num hábil jogo de mnemónica, mete Paul de Man na intriga, não me recordo de páginas tão certeiras como estas em que revisita a Dublin dos anos 1950, uma cidade flagelada «pela pobreza, um lugar cinzento e feio» que, mesmo assim, «não maculava os sonhos» do rapazito que o autor então era. Banville nasceu em Wexford e, como o próprio recorda, Dublin era para ele «o que Moscovo era para a Irina em Três Irmãs, de Tchékhov, um lugar mágico…» Apesar da aventura que a viagem representava (ia lá no dia de aniversário, coincidente com um feriado católico), as anotações são o exacto contrário da primeira vez que viu Paris, aos dezoito anos: passeando no Jardim do Luxemburgo, sentiu «que penetrara numa tela de Renoir ou de Raoul Dufy, ou até numa das fêtes galantes de Watteau.» As evocações têm enfoque em locais e pessoas concretas, como ruas, jardins (muitos), bibliotecas, lojas, bares, edifícios, monumentos e, sem surpresa, Yeats. Não são bilhetes postais. Banville envolve tudo num fio condutor, onde História, experiências pessoais, envios literários, tradição e anedotário compõem um quadro vivo. A história de Phoenix Park dá azo a um impressivo retrato de James Butler (1610-1688), 1.º duque de Ormonde e criador daquele que é o maior parque público da Irlanda. Não falta sequer o furto do volume da poesia completa de Dylan Thomas: «enfiei-o debaixo do casaco e saí à socapa, com as mãos a tremer…» Em suma, leitura obrigatória. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Poemas Quotidianos, de António Reis (1927-1991). Quando passam 50 anos da sua publicação, eis que o livro volta às livrarias, resgatando o autor do silêncio injusto a que estava votado. Salvo para as gerações nascidas antes de 1940, a que se juntam alguns happy few mais jovens, o nome de António Reis era sobretudo associado ao cinema: assistente de Manoel de Oliveira, guionista, realizador de, entre outros, Jaime (1974) e Trás-os-Montes (1976), filmes míticos. Malgrado ter colaborado na imprensa cultural, foi assim que as coisas se passaram: a poesia ficou para coevos. Estamos portanto perante uma edição histórica. Poeta oriundo da segunda fase do neo-realismo, António Reis escolheu a elipse, lá onde outros ecoavam o derrame operático, para dizer a condição dos desapossados: «Também eu trago a saudade / nos sentidos // se dissesse que não / era mentira // também eu perdi um cão / casas / rios // Mas hoje / tenho mulher / amigos / e uma saudade mais real / é que me inspira.» Por último mas não em último, sublinhar a pertinência do esclarecedor prefácio de J.B. Martinho e do posfácio de Joaquim Sapinho. Cinco estrelas. Publicou a Tinta da China.

DIANA


Diana, princesa de Gales, morreu faz hoje 20 anos. Tudo aconteceu em Paris, na companhia de Dodi al-Fayed, seu amante. Estando grávida, é de supor que Dodi fosse o pai. Depois do jantarem no Ritz, propriedade dos al-Fayed, os dois abandonaram o hotel e foram vítimas de um acidente no viaduto subterrâneo Pont de l’Alma. Eram 04:44 da madrugada quando a BBC confirmou o óbito de Diana. Dodi e o motorista também morreram. Apenas sobreviveu Trevor Rees-Jones, guarda-costas do casal. Ainda há muita coisa por explicar, desde logo por que razão o dossier da polícia francesa, relativo ao caso, desapareceu num ápice. Lembrar que Diana foi casada com Carlos, o herdeiro do trono britânico, entre Julho de 1981 e Agosto de 1996, embora a separação de facto fosse anterior. A opinião pública reteve a frase famosa: Éramos três no nosso casamento. Diana referia-se a Camilla (ex-Parker Bowles), actual duquesa da Cornualha.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

UM HOMEM SENSATO


O escritor britânico Terry Pratchett (1948-2015), que terá uma dúzia de livros publicados em Portugal, dos mais de cem que escreveu, viu agora satisfeito um desejo testamentário: o disco rígido do seu computador deveria se destruído num rolo compressor, para evitar a divulgação de obras inacabadas, rascunhos, notas pessoais, etc. O desejo foi agora cumprido. Pratchett está publicado em 70 países e 40 línguas, tendo vendido, enquanto vivo, mais de 85 milhões de exemplares dos seus livros. Nos anos 1990 foi mesmo o autor mais vendido no Reino Unido. O canibalismo post mortem tem feito muitos estragos na história literária.

sábado, 26 de agosto de 2017

MACAU


Imagens do rescaldo do tufão Hato, anteontem. Nove mortos e cerca de duzentos feridos, centenas de desalojados e de lojas destruídas, prejuízos no valor de milhões de milhões. Até ontem, só havia água e electricidade nos organismos do Governo e da polícia, hospitais, embaixadas, casinos e hotéis de luxo. O aeroporto cancelou mais de 500 voos. As pessoas comuns, que vivem em prédios de 40 e mais andares, tiveram de safar-se sem elevadores. Mas tudo isto passou entre os pingos da chuva da imprensa portuguesa. Amanhã vai haver outro, quando forem 5 da madrugada em Portugal.

Mas até do ponto de vista sensacionalista, que faz vender jornais, o tufão Hato tem pontas por onde vale a pena pegar. Uma delas diz respeito à demissão do director dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos de Macau. O homem foi obrigado a demitir-se por ter mandado hastear o sinal de tempestade às 9 da manhã de quarta-feira (duas da madrugada em Lisboa), quando devia tê-lo feito duas horas mais cedo. E porquê só às 9? Porque às 8 da manhã ocorre a mudança de turno nos casinos, que funcionam ininterruptamente durante 24 horas. Macau tem mais casinos que Las Vegas, sabia? Com o sinal de tempestade hasteado antes das 8, ou mesmo às 8, ninguém poderia sair nem entrar. Às 9 permitiu isso tudo, e pior: centenas de milhares de pessoas vieram para a rua fazer a sua vida e caiu-lhes o inferno em cima.

Entretanto, já sabemos quase tudo sobre o tufão Harvey que ontem começou a fustigar o Texas.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A ESTUPIDEZ NÃO TEM IDEOLOGIA


Face ao destrambelho homofóbico, só me apetece citar o manifesto de 1971 do Front Homosexuel d’Action Révolutionnaire, publicado no jornal Tout!, então dirigido por Sartre.

«Nesta questão do puritanismo repressivo no interior da força revolucionária, é um teste capital a atitude frente à homossexualidade

Foi isto há 48 anos! O manifesto da FHAR foi publicado em Portugal pela Assírio & Alvim (quem diria), em 1974, e eu comprei-o ainda em Lourenço Marques. Além do manifesto, o volume inclui testemunhos de vária ordem, glossário de jargão homossexual, um breve historial dos movimentos gay europeus e americanos, iconografia de Tom of Finland e caricaturas de recorte Charlie.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

SAUNDERS & ZADIE


Hoje na Sábado escrevo sobre Lincoln no Bardo, o primeiro romance de George Saunders (n. 1958), contista laureado praticamente desconhecido no nosso país, embora duas das suas colectâneas de contos, entre elas a incontornável Pastoralia, estejam traduzidas. Lincoln no Bardo é a sua obra mais recente. Saunders pegou num episódio delicado, a depressão que tomou conta de Abraham Lincoln após a morte do seu terceiro filho, Willie, vítima de tifóide aos onze anos. Eram comentadas as visitas nocturnas do Presidente à cripta da criança, em Oak Hill, facto peculiar na medida em que não fora caso único: três dos seus quatro filhos morreram antes de atingirem a idade adulta (sobreviveu apenas o primeiro). Curiosidade adicional: o livro levou quatro anos a escrever mas o plot decorre todo ao longo de uma única noite. Saunders terá tido acesso a detalhes da reacção post mortem, e do excruciante sofrimento de Lincoln, servindo-se deles para pôr de pé o romance. Como sempre, o discurso não é linear. Dito de outro modo, Lincoln no Bardo não é um romance que siga o padrão canónico. O leitor comum talvez seja surpreendido por alguns tiques de escrita: nomes próprios grafados em letra minúscula, monólogos desconexos por via de certa filiação à literatura do absurdo, excertos de jornais da época (estava-se no auge da Guerra de Secessão), trechos de mnemónica, vozes fantasmáticas, citações e outro material avulso com que compõe um patchwork tendo como denominador comum a morte. Em suma, não é um livro fácil. No Tibete chama-se bardo ao “trânsito” entre morte e reencarnação. Isso explica o sentido do título do livro, ou seja, o karma que Saunders atribui a Lincoln. Não admira portanto que a sociedade americana seja vista pela intermediação mediúnica de fantasmas: caçadores, soldados, funcionários, assassinos, etc. Quem quiser encaixar Saunders numa genealogia, pode socorrer-se de Edgar Lee Masters e, em particular, na famosa Spoon River Anthology (1915) e as suas vozes do Além. Na realidade, Saunders pretendeu fazer a biografia de uma fase dolorosa da vida de Lincoln. E faz isso muito bem, ressalvado o excesso de pirotecnia semântica. Mas não é fácil escrever sobre os efeitos da depressão. Quatro estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Swing Time, de Zadie Smith (n. 1975). Os idiossincráticos códigos de classe e as regras sociais atinentes continuam a ser o território de eleição da autora, que escreve a partir de um ponto de vista étnico, ou seja, sem ignorar a sua origem jamaicana: Sonho com a Jamaica, sonho com a minha avó. Recuo no tempo… Tal como em NW, uma história de Londres, Swing Time ilustra o lugar dos deserdados da sociedade de consumo. Escrito na primeira pessoa, pode ser lido como um compósito de memórias. A narrativa começa em 1982, ano em que tanto a narradora como a autora têm sete anos de idade. Como em obras anteriores, o tempo da acção é longo. Durante vinte e tal anos acompanhamos as vidas de duas amigas, ambas mestiças. Dois destinos, duas formas de encarar o mundo. A escrita de Smith é vertiginosa, rica de subtilezas, atenta aos detalhes mais prosaicos. Há quem veja na figura de Aimee, a estrela planetária com ambições filantrópicas, um ‘retrato’ de Madona. África não surge por acaso. Temas como a ajuda ocidental, a moda da adopção de crianças por estrangeiros ricos, mas também o turismo sexual, são desmontados pela autora. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

COMING OUT

Quando leio intelectuais (sim, intelectuais) a gozarem com o coming out de forma leviana, penso sempre nos filhos que têm e naquilo que o futuro lhes pode reservar. Cuspir para o tecto dá sempre mau resultado.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A VIDA COMO ELA É

Não sei se as pessoas deram por isso (os media nacionais não ajudam), mas a administração Trump de Agosto não tem nada a ver com a de Janeiro. Quem deu atenção ao discurso à Nação proferido anteontem, confirmou os sinais em crescendo nas últimas semanas. Quem não deu pelo discurso, é natural que não perceba do que falo. Resumindo: o Poder militar tomou conta da Casa Branca a partir do momento em que o general John F. Kelly assumiu o cargo de Chief of Staff, o que aconteceu no passado 31 de Julho. A razia operada desde então transformou a West Wing trumpiana numa West Wing praticamente institucional. Continuam por limar algumas arestas, mas a coisa mudou. A “América primeiro” foi pelo cano, como ficou claro no discurso: o Afeganistão volta a ser uma prioridade absoluta. Ao fim de sete meses de mandato, Trump é obrigado a cair na realidade. Continuará a dizer disparates no Twitter, claro que sim, mas as chancelarias internacionais já mudaram as linhas com que andaram a coser-se desde 20 de Janeiro.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

HONRA A GRAÇA FONSECA


Nem sempre leio o DN e hoje só o fiz agora, alertado por terceiros. Numa longa e excelente entrevista concedida a Fernanda Câncio, a secretária de Estado da Modernização Administrativa, Graça Fonseca, assumiu publicamente ser homossexual:

«Como é óbvio isto foi uma questão muito pensada. E na verdade não é uma questão da privacidade, é uma questão de identidade. [...] E acho que se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o meu caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia

O statement de Graça Fonseca enche-me de orgulho. Enquanto não houver mais pessoas como ela, Portugal não muda. Hoje é um dia muito importante para a comunidade LGBT. O jornal e a jornalista estão de parabéns. Mas Graça Fonseca tem o mérito a dobrar. Obrigado.

domingo, 20 de agosto de 2017

JERRY LEWIS 1926-2017


Com 91 anos, morreu hoje Jerry Lewis, um dos maiores comediantes de Hollywood. Celebrizou-se com a parceria que durante sete anos o ligou a Dean Martin: nada menos que dezassete filmes entre 1949 e 1956. A natureza da relação de ambos ainda hoje é motivo de controvérsia. Quando a dupla se desfez, impôs-se a solo como actor, realizador, guionista e produtor de cinema e televisão. Entre dezenas de outros, filmes como The Bellboy (1960) e The Nutty Professor (1963) ficaram na memória de todos. Kennedy, de quem era amigo, aconselhou-o a nunca tomar posições públicas sobre política. Distrofia muscular, diabetes e cancro da próstata foram algumas das suas doenças. Nos anos 1950 e 60 foi, de facto, o rei da comédia.

sábado, 19 de agosto de 2017

SILLY SEASON


A sério? Na ciência? Na política? (Concedo que as oligarquias autoritárias são muito criativas a gerir a fome e a mordaça das populações.) Confira no Diário de Notícias. Eu vou ali tomar escitalopram. Clique na imagem para ler melhor.

WEST WING

A demissão de Steve Bannon do influente cargo de Chief Strategist da Casa Branca, ocorrida ontem, é mais um sinal do poder efectivo do general John F. Kelly, o actual Chief of Staff. Logo no dia da posse, Kelly provocou a demissão de Anthony Scaramucci, o controverso director de comunicações. Ao fim de sete meses de mandato, Trump vê reduzida a ala populista da West Wing. A ver no que isto dá.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Um segundo atentado, desta vez na estância turística de Cambrils, a 120 quilómetros de Barcelona, provocou um morto e dez feridos. Tudo se passou no Paseo Marítimo, perto do Clube Náutico, cerca da uma hora da madrugada. A polícia abateu cinco terroristas. Os dois atentados, Barcelona e Cambrils, provocaram catorze mortos e mais de cem feridos, uma dúzia dos quais ainda em estado muito crítico. As vítimas são de 20 nacionalidades diferentes, incluindo uma mulher portuguesa de 74 anos.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

TERROR EM BARCELONA


Eram quatro da tarde em Lisboa quando uma carrinha atropelou deliberadamente, ao longo de cerca de 700 metros, várias pessoas que circulavam nas Ramblas de Barcelona. Estão confirmados, até ao momento, treze mortos e mais de 50 feridos, dez dos quais em estado muito grave. O terrorista é um indivíduo de origem marroquina. Noutro ponto da cidade, um provável cúmplice atropelou um polícia num auto-stop, mas foi prontamente abatido.

Clique na imagem de El País para ler melhor.

NAIPAUL & DONOGHUE


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição, com nova tradução, de Para Além da Crença, de V. S. Naipaul (n. 1932). Uma reedição deveras oportuna. Em 1998, quando o livro foi publicado, ainda o tema do Islamismo não fazia manchetes. Oriundo de uma família indiana radicada em Trindade, Naipaul, autor britânico, tornou-se célebre por uma obra consistente que faz da denúncia da corrupção política o item central. Quando em 2001 recebeu o Nobel da Literatura, foi isso mesmo que a Academia Sueca sublinhou. Em Para Além da Crença, o foco é a religião. O livro resulta de uma viagem de Naipaul a quatro países muçulmanos não-árabes (a Indonésia, o Irão, o Paquistão e a Malásia), prolongando o relato, sobre os mesmos países, iniciado com Entre os Crentes, publicado em 1981, no auge dos excessos da teocracia iraniana. Naipaul é peremptório em várias das suas conclusões, embora faça questão de exarar que este «não é um livro de opiniões». Por exemplo, o Islamismo seria uma forma de imperialismo, uma forma de reagir à globalização: «O Islão e a Europa, dois imperialismos em competição, tinham chegado à Indonésia quase ao mesmo tempo, e, juntos, haviam destruído o longo passado budista-hinduísta.» A estratégia narrativa faz lembrar a de Svetlana Alexievich, ou seja, a de deixar os outros falar. A diferença reside no facto de Svetlana não largar a pele de repórter, enquanto Naipaul não abdica do estatuto de autor. Ela compõe reportagens, ele conta histórias: «Este é um livro sobre pessoas.» E de facto assim acontece, porque são os seus retratos que nos transmitem a natureza desses países. Como entender a Indonésia de Suharto, o homem dos brutais massacres dos anos 1960, sem conhecer a história de Imaduddin? O mesmo se diga de Mehrdad e da Teerão dos aiatolas. Ou da realidade malaia vista pelos olhos de Syed Alwi. O capítulo dedicado ao Paquistão (e o pecado original da secessão com a Índia) é muito interessante: «Ao fim de quarenta anos de cinismo e preguiça intelectual, o Estado, que, de início, era para alguns idêntico a Deus, tornara-se uma empresa criminosa.» Está na altura de um terceiro périplo. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre O Prodígio, de Emma Donoghue (n. 1969), romancista, contista, dramaturga, argumentista e historiadora do lesbianismo na literatura. A autora nasceu na Irlanda mas vive no Canadá, país que adoptou como seu e onde escreveu quase toda a obra. Com uma bibliografia extensa e abarcando vários géneros, O Prodígio é o segundo dos seus livros a ser traduzido em Portugal. Enquanto não chega Room, romance de 2010 inspirado no caso Josef Fritzl (o homem que encarcerou e abusou da filha durante mais de vinte anos), O Prodígio é um bom exemplo do à-vontade da autora a ficcionar temas perturbantes dos nossos dias. Com uma escrita fluente que transmite a natureza sinistra dos factos, tais como o jejum forçado de uma jovem rapariga, Donoghue construiu a sua história apoiada em relatos históricos. Aqui vemos como Lib Wright, uma enfermeira contratada por membros influentes da aldeia de Athlone, vai interagir com Anna O’Donnell. Estamos na segunda metade do século XIX, na Irlanda profunda que mal sobreviveu à Grande Fome dos anos 1840. Se Anna resistisse poderia até ser canonizada, o que não acontecia há muito tempo com nenhum irlandês. É neste quadro fantasmagórico que Donoghue nos força a conhecer uma realidade abominável. Quatro estrelas. Porto Editora.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

RUI KNOPFLI 1932-1997


Se fosse vivo, Rui Knopfli faria hoje 85 anos. No ano em que se assinala o 20.º aniversário da sua morte, um pequeno alinhavo sobre aquele que é um dos grandes poetas de língua portuguesa, em qualquer época. Nascido em Inhambane, Moçambique, a 10 de Agosto de 1932, foi com a família para Lourenço Marques ainda criança. Estudou em Moçambique e na África do Sul, tendo sido, sucessivamente, delegado de propaganda médica (1954-74), director do jornal A Tribuna (1974-75), adido de imprensa da delegação portuguesa na assembleia-geral das Nações Unidas (1975) e, nos últimos 22 anos de vida, conselheiro de imprensa na embaixada de Portugal em Londres (1975-97). Expulso de Moçambique em Março de 1975, pelo alto-comissário Vítor Crespo (o almirante tomou a decisão com base no editorial em que Knopfli denunciava o conúbio da Frelimo com a polícia política de Ian Smith), passou quatro meses em Lisboa antes de partir para a capital britânica.

Fotógrafo amador, colaborador assíduo da imprensa, tradutor exigente (cito apenas dois, T. S. Eliot e Edward Albee, pois de ambos foram publicadas em Portugal traduções suas), fundador, com João Pedro Grabato Dias, dos cadernos de poesia Caliban (1972-73), polemista, deixou uma obra ímpar: O País dos Outros, 1959, Reino Submarino, 1962, Máquina de Areia, 1964, Mangas Verdes com Sal, 1969, que teve uma segunda edição aumentada em 1972, A Ilha de Próspero, 1972, reeditado em Portugal em 1989 (com as fotografias originais, a preto e branco, impressas a cores), O Escriba Acocorado, 1978, O Corpo de Atena, 1984, prémio de poesia do PEN, e O Monhé das Cobras, 1997. Por duas vezes a sua obra foi reunida em volumes de poesia completa: Memória Consentida, 1982, e Obra Poética, 2003. Para Setembro está prevista a publicação, pela Tinta da China, de uma antologia organizada por Pedro Mexia.

Um dos episódios mais caricatos à volta da sua obra relaciona-se com a antologia Rosa do Mundo (2001), da Assírio & Alvim. Knopfli surge no cartapácio como tradutor do polaco Zbigniew Herbert e do chinês Tao Li. Sucede que O Livro Melancólico de Tao Li é puro gozo do autor. Dito de outro modo, Tao Li é Knopfli himself, um detalhe que escapou ao especialista (Gil de Carvalho) em poesia chinesa. Fui seu amigo a partir de 1971, conheci Mécia e Jorge de Sena na sua casa de LM, era seu hóspede regular quando ia a Londres. Quando regressou a Portugal, em Agosto de 1997, vinha já muito doente. O dia de Natal daquele ano foi muito triste: o Rui morreu depois do almoço. A 27 fui a Vila Viçosa para a despedida final.

A foto foi tirada por Jorge Neves (meu marido), em 1981, na casa de Eugénio Lisboa em Londres.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

DUNQUERQUE


Se ainda não viu, vá ver Dunkirk, de Christopher Nolan, com um elenco de actores pouco conhecidos, mas Jack Lowden não me escapou. Kenneth Branagh, única estrela, não adianta nada ao filme. O protagonista, se assim lhe podemos chamar, é Fionn Whitehead, que vêem na imagem. Receio que os espectadores com menos de 50 anos não percebam o que estão a ver. O filme atém-se ao essencial: a retirada anglo-francesa de Dunquerque, entre 25 de Maio e 4 de Junho de 1940. Onze dias decisivos em que foram resgatados trezentos mil homens por mar. O escritor inglês P. G. Wodehouse, que vivia em Le Touquet, na região de Pas-de-Calais, não só não ficou incomodado com a carnificina (cerca de cem mil mortos, dois terços dos quais britânicos), como se tornou colaboracionista nazi. Mas isso o filme não conta. Foi a seguir a Dunquerque que Churchill fez o discurso famoso: «Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança e força crescente no ar, defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas. Nunca nos renderemos.» Só não percebo por que razão o título não foi traduzido. Porquê Dunkirk em vez de Dunquerque?

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES


Com Mediterrâneo, João Luís Barreto Guimarães acaba de vencer o prémio de poesia António Ramos Rosa, da Câmara de Faro. O júri era constituído por Nuno Júdice, José Tolentino Mendonça e Adriana Nogueira.

sábado, 5 de agosto de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 56,8%. A diferença entre o PS e o PSD passou para quase treze pontos (12,7%). Sozinho, o PS ultrapassa a PAF, que continua a descer e soma agora 35%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

CRISTINA CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Rebeldia, o romance mais recente de Cristina Carvalho (n. 1949), no qual a autora recria o universo de um certo Portugal, nos anos 1950. O detonador da intriga é o desejo de emancipação da protagonista e narradora, alguém que tem um olhar muito crítico sobre o atavismo da sociedade à sua volta. Da modesta pensão de Coimbra, gerida pelos pais, à casa da madrinha, em Lisboa, persiste o desdém por gentes e costumes: «Cavalheiros e mastronças que a única coisa que desejavam era casar as filhas de véu e grinalda, tudo branco e, claro, verdadeiramente virgens.» Ao contrário da vontade da narradora, adepta confessa de «uma valente foda». Em obras anteriores, a autora tem dissecado todo o tipo de comportamentos, dos mais convencionais aos de índole esotérica, mas tem-no feito quase sempre sem recurso ao jargão rude da coloquialidade. Nesse aspecto, Rebeldia marca um ponto de viragem. São recorrentes frases como, «O miúdo masturbava-se e nós fodíamos à noite…» A violência verbal manifesta-se mesmo nas mais prosaicas reflexões sobre a vida portuguesa durante os anos ominosos do Estado Novo. O fio da história é linear. A narradora descreve um casamento frustrado com a tinta forte do realismo sem filtro. O desprendimento familiar é de rigueur. Em compensação, sobreleva um peculiar ‘apego’ aos porcos chafurdando nas pocilgas. Os odores do chiqueiro, tão apreciados pela narradora, arrastam consigo uma forte carga sexual. Leninha tem 24 anos quando desembarca em Santa Apolónia. «Vou ser médica. Está resolvido!», dissera aos pais atónitos. Em Lisboa vai morar para a Ajuda, zona da cidade que não seria o nirvana, mas uma ida à Baixa não altera o estado de espírito: «Umas ruas atrás das outras, prédios escuros, lojas de panos, alfaiates e pastelarias.» A heterodoxia não conhecia limites. Chegou a pensar que invejava «a sorte e o destino das putas da Calçada da Memória.» Mal por mal… Os anos passam, Leninha casa com um homem que desaparece de vez em quando, a vida conjugal roça a abjecção, o filho é um estorvo. A linguagem crua é um dos traços distintivos do romance. Veja-se, logo no primeiro capítulo, o relato da urinação de pé, colada aos arbustos de um muro. Quatro estrelas. Publicou a Planeta.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

AVIÃO ATROPELA BANHISTAS


Já nem na praia se pode estar descansado.
Clique na imagem.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

SCARAMUCCI OUT

Anthony Scaramucci aguentou-se dez dias como director de comunicação da Casa Branca. A sua demissão terá sido exigida pelo general John Kelly, o novo Chief of Staff (ocupa o cargo desde ontem). Era um ou outro. Kelly recusava trabalhar com alguém que chamou “maldito”, “esquizofrénico” e “paranoico” a Reince Priebus, o seu antecessor como Chief of Staff. De caminho, Scaramucci terá de ir teorizar sobre fellatios para outras bandas.

SAM SHEPARD 1943-2017


Aconteceu no dia 27 de Julho, mas só ontem a família divulgou. Vítima de esclerose lateral amiotrófica, Sam Shepard morreu. Tinha 73 anos. Mais conhecido como actor de teatro e cinema, Shepard foi um escritor e dramaturgo laureado, tendo recebido o Pulitzer em 1979. Como eu gostava de ver os Artistas Unidos fazerem Buried Child, que ainda o ano passado foi novamente encenada em Londres, com Ed Harris no protagonista. Também escreveu argumentos para cinema, como por exemplo os de Zabriskie Point (1970, Antonioni), Paris, Texas (1984, Wenders) e, a partir de uma peça sua, Fool for Love (1985, Altman). Durante vários anos, a Village Voice atribuiu-lhe o Obie, o mais importante prémio do teatro Off-Broadway. Foi casado durante trinta anos com Jessica Lange, mãe dos seus filhos mais novos. A ligação amorosa com Patti Smith provocou turbulência no casamento com a primeira mulher, mas o casal mudou-se para Londres. Em 2009 e 2015, Shepard foi preso por conduzir embriagado. Além de teatro, escreveu contos e livros de memórias.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

JEANNE MOREAU 1928-2017


O dia começa mal. A governanta de Jeanne Moreau encontrou-a morta esta manhã. A Moreau foi uma das poucas actrizes que não precisou de Hollywood para nada: trabalhou com todos os realizadores que importam (Orson Welles foi um deles) e foi sempre magnífica. A minha geração, que cresceu com ela, mais as Magnani e as Signoret, contraponto europeu aos ícones americanos, vê morrer todos os dias um mundo que deixou de existir. O primeiro filme de que me lembro é Jules e Jim (1962), de Truffaut. Mas é impossível ter visto tudo, numa carreira com cerca de 130 filmes, sem contar com as séries e documentários para televisão, mais as 60 peças de teatro. Agora acabou. Tinha 89 anos.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

OBAMACARE, SIM

Por 51 votos contra 49, o Senado americano impediu a revogação do Obamacare. Quem fez a diferença foram três senadores Republicanos, que se juntaram aos 48 Democratas e chumbaram a Lei. O povo americano pode (e deve) agradecer a Susan Collins e a Lisa Murkowski, cujas posições anti-Trump são públicas, mas sobretudo a John McCain, que depositou o voto decisivo. Trump ainda não parou de espernear.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

A MITÓMANA

O perfil de Isabel Monteiro, a conta-mortos, vai ganhando contornos. Ontem à noite, a edição online da revista Sábado dá conta de uma novidade:

«Isabel Monteiro foi hoje [ontem] ouvida na sede da Polícia Judiciária em Lisboa para mostrar a sua lista. Segundo informou às redacções o Ministério Público, da análise dos elementos recolhidos apurou-se a existência de diversas imprecisões quanto à identificação das pessoas indicadas na referida lista, bem como repetição de nomes em, pelo menos, seis situações

Nada que não fosse previsível. Segundo a Lusa, a Dialectus é a quarta empresa de Isabel Monteiro nesta área (conteúdos para televisão) que abre falência, havendo processos judiciais referentes a empresas antigas pendentes há pelo menos dez anos.

O que terá levado a SIC a dar tempo de antena a esta fulana?

terça-feira, 25 de julho de 2017

CATA MORTOS


Li agora um resumo o CV da empresária que anda à cata de mortos em Pedrógão Grande. Isabel Monteiro gere uma empresa de conteúdos para televisão, a Dialectus, facto que explica o rápido acesso a tempo de antena. Enfim, a Dialectus é conhecida no meio artístico pelos salários e subsídios em atraso, sobretudo desde a denúncia pública do CENA, o Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual, que fez uma acção de protesto em frente à sede da empresa. Se mal pergunto: a criatura interrompeu os banhos no Ancão (ou seria na Trafaria?) para vir contar mortos em Pedrógão Grande?

segunda-feira, 24 de julho de 2017

É DO VINHO?

Anteontem, o Expresso descobriu que afinal as vítimas mortais do incêndio de Pedrógão Grande são 65 e não 64: uma mulher terá sido atropelada quando fugia. Mas, hoje, o i, diz que uma empresária fala em mais de 80 nomes e explica como já confirmou 73. E, acrescenta o tablóide, um habitante de Nodeirinho diz que o número é de três dígitos, enquanto o funcionário de uma funerária afirma: «Só eu vi mais de 95 corpos.» É do vinho? A Judiciária já chamou esta gente para provar o que diz, identificando os mortos supostamente não contabilizados? As famílias não vêm à televisão protestar? Se o que certa imprensa diz for verdade, é muito fácil demonstrar que fulano, beltrano e sicrano não constam do inventário oficial.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

VAMOS FALAR DE DISCRIMINAÇÃO?


Desde 2002, os primeiros-ministros britânicos recebem em Downing Street uma delegação de activistas LGBT. Representantes de várias áreas da sociedade (artistas, professores, cientistas, escritores, sociólogos, políticos, etc.) reúnem-se no n.º 10 para tomar o pulso aos direitos e deveres de cada campo. Foi assim com Tony Blair, Gordon Brown, David Cameron e continua com Theresa May. Porém, um homem, e não é um homem qualquer, tem sido sistematicamente banido do comité de notáveis. Estou a falar de Peter Tatchell, 65 anos, activista de direitos humanos desde 1969, membro do Green Party e do grupo OutRage.

Tatchell nasceu em Melbourne, na Austrália, mas radicou-se no Reino Unido em 1971 e tornou-se cidadão britânico em 1989. Como activista LGBT participou em campanhas em vários países, designadamente na Rússia, Iraque, Síria, Palestina, Irão e no Zimbabwe, onde a polícia pessoal de Mugabe o brutalizou, sofrendo ainda hoje de sequelas da tortura. Tendo participado na luta anti-apartheid na África do Sul, criou um lobby no ANC que levou o partido de Mandela a aceitar os direitos dos homossexuais: a África do Sul é o único país africano que permite e reconhece legalmente o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 1983, quando ainda era membro do Labour, foi difamado e ameaçado de morte (a coisa meteu tiros) durante a campanha eleitoral no círculo de Bermondsey. A Fundação que criou é uma referência mundial nos direitos LGBT. 

Resumindo: não estamos a falar de alguém que vai às recepções de Buckingham preencher quota. Não obstante, Theresa May, tal como os seus antecessores, acha-o inconveniente.