sexta-feira, dezembro 29, 2006

CRONISMO BRASILEIRO


Hoje no Público:


O Curso Breve de Literatura Brasileira, dirigido por Abel Barros Baptista, está praticamente concluído. Quanto sei, no momento em que escrevo, falta sair um dos dezasseis volumes que o compõem. Conversa de burros, banhos de mar, colecção de crónicas, dá a ler alguns dos mais notáveis autores da língua, como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector, aos quais acrescenta outros menos conhecidos entre nós: Olavo Bilac, João do Rio, Lima Barreto, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Stanislaw Ponte Preta. O editor deste 14.º volume do Curso é o inglês John Gledson, professor da Universidade de Liverpool. Brasilianista emérito, especializou-se em Machado de Assis e Drummond, tendo sido por causa de ambos que intuiu a importância da crónica no quadro mental do Brasil, face à evolução histórica e ao convívio com várias formas de censura. Pretende que sejam lidas inocentemente, «sem notas e aparato crítico», razão que o levou a excluir uma famosa crónica de Machado de Assis cujo subtexto político acentua a sua enorme complexidade. O título apropria-se de dois textos exemplares: Conversa de burros (1892), de Machado de Assis, e Banhos de mar (1969), de Clarice Lispector. O alinhamento dos cronistas não é feito por data de nascimento, mas por datação dos textos seleccionados, embora nem todos tenham indicação da sua. Abrindo a longa e minuciosa introdução, a que chama Apresentação, Gledson apõe a definição do género constante do Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira (1980), organizado por Massaud Moisés e José Paulo Paes: «Género menor, cujas fronteiras imprecisas confinam com as do ensaio de ideias, do memorialismo, do conto, e do poema em prosa, a crónica se caracteriza pela expressão limitada. Focaliza, via de regra, um tema restrito, em prosa amena, quase coloquial [...] E é na exacta medida de sua cota de originalidade nas ideias e no estilo que [...] alcança superar em parte a circunstância jornalística em que se origina.» Ou seja, tudo às avessas do que em Portugal passa por crónica. De facto, com raríssimas excepções, em Portugal não há cronismo. O que há é quota de representação parlamentar em naco de prosa. E no Brasil? Dependerá, presumo, do Brasil em pauta. Aqui, o Rio de Janeiro leva a palma, uma vez que o acervo antologiado reflecte, em grande medida, o tempo em que a antiga Corte, depois capital federal, concentrava «mudanças que afectavam todo o país.» Género eminentemente brasileiro, a canonicidade dos seus melhores cultores transforma-o num espaço singular, ainda quando releve da simples necessidade: «Num país (como muitos outros, aliás) onde é praticamente impossível ganhar o pão escrevendo romances e muito menos poesia, a tentação de escrever uma coluna semanal é muito grande.» Clarice Lispector nunca enjeitou essa relação de causa e efeito. Disse ela: «Talvez nem escrevesse em jornal se não tivesse necessidade.» O engenho faz o artista? Facto é que a crónica lê o mundo à nossa volta. Clássico entre os clássicos, Machado de Assis (1839-1908), mulato de origem humilde, viria a ser o fundador da Academia Brasileira de Letras. Autor de nove romances, mais de duzentos contos, três volumes de poesia, e mais uns quantos de teatro e crítica literária, escreveu cerca de seiscentas crónicas. As oito que foram seleccionadas reflectem os solavancos e o colapso do Império brasileiro, a questão dos escravos e outros itens relevantes. O Punhal de Martinha, de 1894, é a minha preferida: «Com tudo isso, arrojo de ação, defesa própria, simplicidade da palavra, Martinha não verá o seu punhal no mesmo feixe de armas que os tempos resguardam da ferrugem. O punhal de Carlota Corday, o de Ravaillac, o de Booth, todos esses e ainda outros farão cortejo ao punhal de Lucrécia [...] O de Martinha irá rio abaixo do esquecimento.» Contingência de patamar social, já se viu. Olavo Bilac (1865-1918), poeta parnasiano, foi um activo participante da política do seu tempo. Uma das crónicas aqui reunidas, Sonho Africano (1895), ilustra «um racismo talvez irónico», o que não é de admirar por parte de quem abominava o atraso civilizacional do Brasil e a sujeira da “pocilga”, que era como chamava às zonas pobres do Rio. Homossexual notório, e mulato, o jornalista João do Rio (1881-1921), tradutor de Oscar Wilde, foi uma figura muito popular e influente da sociedade carioca. Uma das crónicas que Gledson colige, O Charuto das Filipinas (1909), respeita à profissionalização da classe: «Um pequeno estudante, naturalmente poeta, tem uma crise monetária. [...] Que fazer? O pequeno estudante arranja um empenho político e amanhece repórter, redactor, jornalista.» Era isto há quase cem anos. De índole anarquista, Lima Barreto (1881-1922), funcionário público e jornalista, autor de quatro romances, vários contos e mais de quatrocentas crónicas, não tinha ilusões: «Eu, mulato ou negro, como queiram, estou condenado a ser sempre tomado como contínuo.» Saudosista do Império, foi um crítico mordaz da cultura do seu tempo. A Lei, crónica de 1915, gira à volta das consequências legais do aborto. Sobre Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) seria pleonástico tecer loas. Deixando de lado a obra de poeta, universalmente reconhecida, lembrar que foi o mais respeitado cronista brasileiro durante três décadas consecutivas: de 1954 a 1987, hoje coligidas em dez volumes. Em Drummond, a dificuldade reside na escolha, mas Personagem, texto não datado, faz o pleno. Rubem Braga (1913-1990), homem de esquerda, jornalista e diplomata bissexto, tinha uma máxima: «Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte.» Muitas das crónicas que escreveu foram consideradas epifanias e, nessa medida, afins às de Joyce. A Traição dos Elegantes (1967) não ilude, nem elide as convicções do autor. Comentando uma reportagem sobre dondocas (mulheres da alta sociedade), «seus sorrisos parados, seus olhos fixos a fitar o nada, estupidamente o nada», conclui: «É duro confessar isto, mas é preciso forrar o coração de dureza, porque não sabemos se tudo isso é o fim de uma era ou o começo de uma nova era mais desolada e difícil de suportar.» É diferente o registo de Fernando Sabino (1923-2004), que passou largas temporadas em Nova Iorque e Londres ao serviço do governo brasileiro. Essencialmente contista e cronista, entre os romances que escreveu conta-se um sobre o envolvimento amoroso de dois ministros. Em A falta que ela me faz, discreteia sobre os inconvenientes de dar férias à mulher-a-dias... Paulo Mendes Campos (1922-1991), poeta e cronista, tradutor de Neruda, Yeats e T. S. Eliot, da geração mineira de Sabino, é oriundo de uma família culta, com interesses literários. Uma das crónicas ora reunidas tem Lisboa como cenário: «ela pertencia à família das pessoas muito inteligentes que nos julgam tão inteligentes quanto elas, jamais nos fornecendo dados suficientes à compreensão do que pensam.» Stanislaw Ponte Preta (1923-1968), cronista, humorista, contista, etc., assim como inventou o pseudónimo a partir de um personagem de Oswald de Andrade, também inventou personagens para as crónicas. A tia Zulmira de Teresinha e os Três é um desses casos. Crítico da degradação intelectual que em sua opinião afectou o Brasil dos anos 1960, gizou o conceito de Febeapá, que quer dizer “Festival de besteira que assola o país”. Clarice Lispector (1920-1977), toda a gente sabe, nasceu na Ucrânia, tendo chegado ao Brasil com poucos meses de idade. Autora de romances de culto — como Perto do Coração Selvagem, de 1943, A Paixão Segundo G. H., de 1964, e A Hora da Estrela, publicado em 1977, ano da sua morte — que fixaram a lenda, foram porém as colectâneas de contos que a tornaram popular. Uma delas, Laços de Família, de 1960, tem edição autónoma (vol. 11.º) no Curso que vimos tratando. Clarice escreveu crónicas durante pouco tempo: de 1968 a 1973. As oito que Gledson seleccionou são «literalmente fora de série.» Por exemplo, Banhos de mar, que recupera a meninice passada no Recife, é um conto acabado: «Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. [...] Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária.» O mesmo se pode dizer de outras. Ela mesma afirmava que não fazia crónica: «Conto histórias.» Metacrónicas, lhes chama Gledson. É fácil de ver que o género é o que menos importa. Se o leitor as quiser ler como contos não sai defraudado. O português é de lei, a ironia fina, os envios recorrentes, a mordacidade bem calibrada, o enfoque certeiro, e por aí fora. Falo de todos, sem excepção.

Cronismo de primeira água, in MIL FOLHAS, 29-12-2006, pp. 12-13.

Etiquetas: