quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

ADOPÇÂO GAY & IVG


PS, BE, PCP, PEV, PAN e 19 deputados do PSD reconfirmaram as leis vetadas por Cavaco. Foi há poucos minutos. Os vidros de Belém ainda tremem. Clique na imagem da SICN para ver melhor.

O MILHO DOS PARDAIS

A América de 2016 não é a América de 1966. Nem sequer a de 1976. Portanto, não faz sentido olhar para o Iowa e New Hampshire como se estivéssemos nos sixties. O Iowa e New Hampshire têm tanta diversidade cultural como a Quinta da Marinha. São Estados de perfil WASP, com minorias étnicas residuais, que há 50 anos serviam de bitola. Hoje, o Iowa e New Hampshire estão para os Estados Unidos como a Aula Magna para Portugal. E depois há o Vermont, o segundo menos populoso do país e o mais rural de todos. Nos três, Trump ganhou do lado republicano. Não estou com isto a retirar mérito à vitória que Bernie Sanders obteve ontem no New Hampshire: 60% contra 38% de Hillary Clinton. Apenas faço notar que as Primárias se decidem nos grandes Estados. A ver vamos quando lá chegarmos. O primeiro milho é sempre dos pardais. Isto vale para os candidados democratas de que falo aqui, como para os republicanos.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

AINDA NÃO ACABÁMOS


Gosto de memórias, com os seus lapsos, um buraco aqui, outro ali, zonas de sombra, o foco de luz onde queremos que esteja. Memória é olhar para fora, para os outros, para as coisas. Jorge Silva Melo já escreveu as suas, Século Passado, livro magnífico que a Cotovia publicou em 2007. Agora, nos 20 anos dos Artistas Unidos, fez um filme como se fosse uma carta, monólogo belíssimo sob o olhar vivo de João Pedro Mamede. São Luiz a rebentar pelas costuras para seguir uma vida. Os Verdes Anos, Manuel Wiborg, António, Um Rapaz de Lisboa, Glicínia Quartin, cinemas de bairro, cinemas de estreia (sim, eram coisas diferentes), Walsh, Minnelli, o snack-bar Pic-Nic, Lia Gama, Mário Dionísio, desenhos de Jorge Martins, a Papelaria Progresso transformada por Conceição Silva, Luís Miguel Cintra adolescente, Andreia Bento, o Bloco das Águas Livres de Teotónio Pereira, Ivo Canelas, Álvaro Lapa lembrando a humilhação, a Fronda dos estudantes nos idos de 60, Rúben Gomes, a carta aberta que Medeiros Ferreira escreveu ao povo português na véspera de partir para o exílio (não sei se os detractores do AO90 deram pelo regimen, pelo sòmente, etc., que pontuam o texto de 1968), Américo Silva, A Capital, E Depois (Bal-Trap), Roma, Spiro Scimone, Maria João Luís, poetas amados nas capas do Escada, work in progress de Sofia Areal, João Perry, tantos que lá estão. Deixo a Luiza para o fim, Luiza Neto Jorge, maior entre as maiores, franzina, outsider da resistência de salão, tão injustamente esquecida. Foi ela que nos disse que «o poema ensina a cair». Esqueço gente. Esquecemos sempre. Vai haver DVD? Devia.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

MEDIA PAF

Tornou-se praticamente impossível ler jornais. A televisão dispensa o advérbio. Isto faz lembrar o PREC mas no PREC houve resposta. Entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, a Direita dava pinotes com a imprensa de Esquerda, que eram todos os títulos de referência vindos do antigamente. Mas como a Direita não dorme em serviço, a CIP financiou um vespertino alternativo, o Jornal Novo. Dirigido por Artur Portela Filho, o Jornal Novo começou a publicar-se em 17 de Abril de 1975. Nesse tempo, a Direita fazia manifs em frente ao Diário de Notícias, então dirigido por Luís de Barros e Saramago, gritando horas a fio: O diário é do Povo, não é de Moscovo!

Chegou o 25 de Novembro e, com ele, um blackout imposto à imprensa. Entre 25 de Novembro e 10 de Dezembro não se publicaram jornais, com excepção do Expresso, que durante dois meses manteve duas edições por semana: quartas e sábados. Em 11 de Dezembro regressou às bancas o Diário Popular, com a direcção de Jacinto Baptista intocada. As direcções do Diário de Notícias, que só regressou a 22 de Dezembro, do Diário de Lisboa, de A Capital, etc., foram entregues a jornalistas da confiança do PS e do PSD. A Direita civilizada relaxou, mas a Direita radical fundou dois novos jornais: O Dia, matutino ultraconservador dirigido por Vitorino Nemésio, que começou a publicar-se a 11 de Dezembro (ou seja, no dia do regresso do Popular); e O Diabo, semanário faca-nos-dentes dirigido por Vera Lagoa, que começou a publicar-se a 10 de Fevereiro de 1976. Hoje não há alternativa. O pensamento único veio para ficar.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

TAP MA NON TROPPO


O Governo reverteu mesmo as condições de privatização da TAP. Pedro Marques, ministro do Planeamento e das Infraestruturas, assinou ontem com Humberto Pedrosa e David Neeleman, os accionistas privados da companhia, os novos termos. O Estado passa a deter 50% das acções e a Atlantic Gateway a outra metade (é da metade privada que saem os 5% destinados aos trabalhadores). Cada uma das partes nomeia seis membros do Conselho de Administração, cuja presidência passa a ser do Estado, com voto de qualidade. Desde 12 de Novembro, dois dias depois da queda do Governo PAF, e até ontem, a Atlantic Gateway deteve 61% do capital. Como disse António Costa, «com acordo ou sem acordo, isto não fica assim.» Não ficou.

A imagem é do Diário de Notícias.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A HISTERIA DO OE

Não houve cão nem gato que não se tivesse pronunciado já sobre medidas concretas do OE 2016, sendo certo que o documento só ontem foi aprovado em Conselho de Ministros, ao cabo de uma maratona de sete horas. A partir do momento em que for entregue no Parlamento, o que deverá acontecer hoje, poderemos confrontar a realidade com o agitprop das últimas semanas.

O comportamento indecoroso das televisões, repetindo imagens fora do tempo como se fossem “directos” (a guarda pretoriana de Subir Lall a percorrer os Passos Perdidos, as declarações do comissário Moscovici, outras), devia envergonhar os profissionais que lá trabalham. Sejamos claros: os últimos quatro anos abandalharam o país, mas ainda não somos o Haiti. Contudo, ouvindo Judite de Sousa, José Rodrigues dos Santos e outros que tais, parece que sim.

É um triste sinal dos tempos que tenha de ser Manuela Ferreira Leite a dizer, como disse ontem à noite na TVI: «Em termos formais e políticos o Governo português ganhou, não tendo abdicado daquelas medidas que lhe garantiam o apoio, e apresentando um orçamento que tem cuidado de que as contas estejam equilibradas. A crispação que existe no país relativamente à proposta do Orçamento é absolutamente injustificável.» Elementar.

DISCURSO DIRECTO, 36

Viriato Soromenho Marques, no Diário de Notícias. Excerto, sublinhado meu:

«Se em 2011 o BCE tivesse já em vigor o atual mecanismo de apoio condicional, mas “ilimitado”, à compra da dívida pública, Portugal não teria sido empurrado para o resgate. A nossa dívida não teria disparado dos 94% para os atuais 130%. Sem resgate, muito sofrimento e destruição material teriam sido evitados. Os erros do passado corrigem-se não os repetindo. Para onde quer que a Europa vá, seja renovando a UE ou reerguendo-se das suas ruínas, nem mesmo Berlim poderá prescindir de aliados

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

GOETHE


Hoje na Sábado escrevo sobre Viagem a Itália, de Goethe, obra que João Barrento traduziu, prefaciou e anotou. Trata-se do diário da viagem que o autor fez a Itália, em segredo e incógnito, entre Setembro de 1786 e Maio de 1788. Originalmente publicada em duas partes, em 1816 e 1817, foi a partir da edição de 1829, Italienische Reise, em três partes, que foi traduzida a presente edição. Deve ser lida como relato autobiográfico daquele período da vida do homem que estabeleceu as bases do drama romântico alemão, escreveu poemas, romances, contos, peças de teatro, memórias, ensaios, obras científicas, etc., tendo em simultâneo ocupado cargos de relevo na Administração Pública de Weimar. Nascido em Frankfurt em 1749, no seio de uma família patrícia, Johann W. Goethe estudou Direito em Leipzig e, aos 25 anos, era famoso. Seria depois do regresso de Itália e da publicação de algumas das suas obras mais conhecidas (como por exemplo o romance epistolar A Paixão do Jovem Werther, de 1774) que tomaria parte nas campanhas contra a França. Amigo de Schiller, com quem participou no movimento Sturm und Drang, tornar-se-ia o mais destacado autor da moderna literatura alemã, evidência tonitruante à data da sua morte (1832), por força, sobretudo, do Fausto. Viagem a Itália regista o percurso entre as termas de Karlsbad e Nápoles, com regresso a Weimar ao fim de vinte meses de estadia em Trento, Verona, Pádua, Veneza, Ferrara, Florença, Assis, Roma, Palermo e outras cidades. Levada a cabo de forma quase clandestina, a viagem inscreve-se num imperativo (da aristocracia e da burguesia culta) do Século das Luzes: conhecer o solo de Horácio, Petrarca e Leonardo. Lido o diário, podemos intuir o peso dessa experiência nas preocupações de Goethe. João Barrento cita Emil Staiger para sublinhar a «metamorfose que quase põe em perigo a unidade da pessoa do autor na nossa imaginação…» Será por excesso de clareza na prosa? Além das indispensáveis notas, o volume inclui em apêndice um estudo sobre o Carnaval Romano, ilustrado com vinte gravuras coloridas a partir de desenhos de Johann Georg Schütz. Cinco estrelas.

Escrevo ainda sobre O Coro dos Defuntos, de António Tavares (n. 1960), dramaturgo, romancista e ensaísta, o mais recente laureado com o Prémio LeYa. A partir de uma aldeia remota, lugar simbólico, António Tavares faz o retrato cinzento dos últimos anos do Estado Novo: «Durante os jogos olímpicos, numa cidade alemã, foram mortos vários atletas israelitas. A caixa mágica relatava as coisas sem emoção e permitia que se abatesse um gélido silêncio sobre quem ouvia.» Isenta de proselitismo anti-fascista, a narrativa é clara no propósito de denúncia da ditadura e do atavismo cultural. Certo didactismo, como por exemplo na explicação das palavras “novas” (novas naquele meio e naquele tempo), desacelera a fluência do plot mas não belisca o resultado final de um romance que se lê com satisfação. Em clave de homenagem a Aquilino Ribeiro, o uso de vocábulos caídos em desuso justifica as nove páginas do glossário que fecha o volume. Três estrelas. Publicou a LeYa.

CÂNONE POSSÍVEL


No âmbito do Projecto Adamastor, participei, com outros escritores, críticos, editores e professores de literatura, num inquérito destinado a escolher os Melhores Romances Escritos em Língua Portuguesa.

O resultado foi como segue. Obras com igual votação estão alinhadas de acordo com a posição obtida nas listas individuais: um título classificado em primeiro lugar tem pontuação superior aos restantes.

1.º — Os Maias, Eça de Queirós
2.º — Memorial do Convento, José Saramago
3.º — Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa
4.º — três obras ex aequo
Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio
Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett
A Sibila, Agustina Bessa-Luís
5.º — duas obras ex aequo
Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
Sinais de Fogo, Jorge de Sena
6.º — três obras ex aequo
O Delfim, José Cardoso Pires
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
A Casa Grande de Romarigães, Aquilino Ribeiro
7.º — Dom Casmurro, Machado de Assis
8.º — duas obras ex aequo
Gabriela, Cravo e Canela, Jorge Amado
Finisterra, Carlos de Oliveira
9.º — sete obras ex aequo
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago
Lillias Fraser, Hélia Correia
Eurico, o Presbítero, Alexandre Herculano
A Noite e o Riso, Nuno Bragança
A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago
Húmus, Raul Brandão
10.º — oito obras ex aequo
Para Sempre, Vergílio Ferreira
Os Cus de Judas, António Lobo Antunes
O Primo Basílio, Eça de Queirós
Casas Pardas, Maria Velho da Costa
A Relíquia, Eça de Queirós
A Jangada de Pedra, José Saramago
Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, Mário de Carvalho
A Cidade e as Serras, Eça de Queirós

Em paralelo, realizou-se um inquérito público, de leitores estranhos ao meio literário. O resultado foi como segue.

1.º — Os Maias, Eça de Queirós
2.º — Memorial do Convento, José Saramago
3.º — Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago
4.º — A Sibila, Agustina Bessa-Luís
5.º — Capitães de Areia, Jorge Amado
6.º — três obras ex aequo
A Cidade e as Serras, Eça de Queirós
Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis
7.º — O Crime do Padre Amaro, Eça de Queirós
8.º — Aparição, Vergílio Ferreira
9.º — Equador, Miguel Sousa Tavares
10.º — duas obras ex aequo
Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa
Sinais de Fogo, Jorge de Sena
11.º — quatro obras ex aequo
Dom Casmurro, Machado de Assis
Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio
O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago
12.º — quatro obras ex aequo
A Queda dum Anjo, Camilo Castelo Branco
A Selva, Ferreira de Castro
Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, Afonso Cruz
Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett
13.º — O Primo Basílio, Eça de Queirós
14.º — cinco obras ex aequo
A Casa Grande de Romarigães, Aquilino Ribeiro
A Hora da Estrela, Clarice Lispector
Esteiros, Soeiro Pereira Gomes
Gabriela, Cravo e Canela, Jorge Amado
Para Sempre, Vergílio Ferreira
15.º — três obras ex aequo
As Intermitências da Morte, José Saramago
Manhã Submersa, Vergílio Ferreira
O Delfim, José Cardoso Pires

É interessante verificar que os dois primeiros lugares coincidem nos dois inquéritos: o do Meio e o do público.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

FEITO

Contrariando as manchetes corrosivas dos jornais da manhã, Bruxelas deu luz verde ao draft do OE 2016. Contudo, as edições online da imprensa ainda não deram um pio.

Facto: as negociações técnicas terminaram com acordo entre as partes. Aumentam os impostos sobre a Banca, o tabaco, os carros e os produtos petrolíferos. Também aumenta o imposto de selo sobre o crédito ao consumo. Os fundos imobiliários, até agora isentos, passam a pagar IMI.

Paulo Rangel, o eurodeputado do PSD que em Bruxelas e Estrasburgo tem desenvolvido uma campanha vergonhosa contra o Governo português, vai ter de enfiar a viola no saco.

DISCURSO DIRECTO, 35

Jorge Silva Melo, em entrevista ao jornal i conduzida por Nuno Ramos de Almeida.

«A minha autobiografia é aquilo que eu vejo. Eu sou aquilo que vejo, aquilo que oiço, aquilo que me disseram e que eu cumpri ou não cumpri

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

SEGUNDA CIRCULAR

Na sessão pública ontem realizada (não confundir com a «consulta pública» que encerrou no passado dia 29 de Janeiro e contou com 400 contributos) sobre a requalificação da Segunda Circular, foram desmentidas informações erradas difundidas pelos media e nas redes sociais. Dois exemplos: a redução de três para duas vias de circulação — falso; plantação de centenas de árvores junto ao aeroporto — falso. A maioria dos participantes alegou não ter visto o projecto com atenção, baseando-se apenas no que leu nos jornais e ouviu na televisão. O costume: as pessoas histerizam de ouvido. Estiveram presentes representantes da Quercus, ACP, ANA, ANTRAL, Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas (statement: «Uma oportunidade muito importante para se reforçar a estrutura ecológica de Lisboa»), Navegação Aérea de Portugal, Federação Portuguesa dos Táxis, etc. A todos Manuel Salgado explicou como vai ser. Sentimento geral: todos de acordo, excepto que a Quercus quer ciclovias, e os taxistas não. No próximo dia 10 haverá nova sessão.

DISCURSO DIRECTO, 34

José Vítor Malheiros, O reino da Dinamarca está podre. O resto da Europa também, hoje no Público. Excerto:

«Independentemente do número de bibliotecas, de universidades e de orquestras que possa possuir, uma Europa indiferente ao sofrimento não é o lugar da cultura mas o lugar da barbárie. Uma Europa egoísta e classista, uma Europa de castas e de privilégios não é a Europa das Luzes nem da democracia. É uma Europa de mercadores e de mercenários que deve ser recusada e combatida

COMEÇOU

Ontem, no Jornal da Noite da SIC, Clara de Sousa conseguiu dizer, sem se rir, que Donald Trump tem apresentado propostas sensatas que respondem aos anseios da maioria do povo americano. 

Miguel Sousa Tavares, que estava com ela em estúdio, chamou-lhe estúpida sem perder a compostura, e explicou porquê. Como nenhum dos dois se exaltou, nem levantou a voz, a coisa passou. Mas quem quiser conferir só tem de procurar o vídeo. Já agora: Ted Cruz, o senador republicano que disputa as Primárias com Trump, venceu o Caucus do Iowa por 27,7% (contra 24,3% do milionário). Ted Cruz, 45 anos, filho de pai cubano, pertence à ala mais conservadora do partido.

Do lado democrata, Hillary Clinton e Bernie Sanders ficaram praticamente empatados, com 49,9% e 49,5% respectivamente. Hillary, 68 anos, dispensa apresentações. Bernie Sanders, 74 anos, também senador, apresenta-se às Primárias com um programa socialista. Isso mesmo: socialista. É excitante, mas levanta um problema: se, lá mais para o Verão, ganhar a nomeação democrata, a Casa Branca cai no colo dos republicanos.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CIDADES VIOLENTAS


Quem viaja ou viajou para a África do Sul após a queda do apartheid (1994), descreve a Joanesburgo actual como a Nova Iorque do filme de Carpenter, e a Cidade do Cabo como o paraíso na terra. Em Joanesburgo, os sul-africanos das classes altas, os executivos estrangeiros das multinacionais, e o segmento da comunidade branca com elevado poder de compra, tiveram de mudar-se para cidades-satélite, na realidade cidades-bunker, que não existiam há trinta anos. O bairro de Hillbrow, que no meu tempo de rapaz era um oásis de cosmopolitismo (restaurantes e cafés franceses, galerias de arte, cinemas, clubes gay, livrarias abertas 24 horas, comércio de luxo), o epicentro da boémia, o sítio onde os intelectuais faziam questão de morar, tornou-se um filme de terror. Em contrapartida, a fazer fé no relato de viajantes actuais, o tempo parou na Cidade do Cabo, onde, reza a lenda, os brancos que subsistem, e são muitos, continuam a viver pelo padrão pré-1994. A cidade é deslumbrante, e são raros os turistas que procuram visitar as Cape Flats, ou seja, as favelas (sendo Khayelitsha a mais conhecida) que, todas juntas, formam o anel de zinco que rodeia a cidade. Todos os dias, a partir do fim da madrugada, dezenas de comboios despejam milhões de favelados na cidade elegante. Ao fim da tarde dá-se o movimento inverso.

Facto: segundo o relatório de 2015 da ONG mexicana Segurança, Justiça e Paz, a Cidade do Cabo ocupa o 9.º lugar entre as dez mais violentas do mundo: 65,5 homicídios por cada cem mil habitantes. É de resto a única cidade fora da América Latina a integrar o ranking. Quem diria, embora seja fácil perceber porquê.

Clique na imagem.

IR AO POTE

Em Outubro, dias depois das eleições, o Governo PSD-CDS aumentou os salários de três membros da Autoridade Nacional de Aviação Civil em mais de 150%. Com efeitos retroactivos a Julho, o presidente da ANAC passou a auferir 16.075 euros por mês (em vez de 6.030), o vice-presidente 14.468 (em vez de 5.499) e uma senhora vogal 12.860 (em vez de 5.141). Por que será que este tipo de informação não abre telejornais?

QUID PRO QUO

Em vez de nos massacrarem com o mantra de que Bruxelas não aceita o draft do OE 2016, os media, em vez de salivar, deviam explicar a quem os lê e ouve que na origem do quid pro quo está o facto de o Governo PSD-CDS ter dito uma coisa à Comissão Europeia e outra aos portugueses. Para garantir o Protectorado, Passos & Gaspar garantiram em Bruxelas que os cortes no Estado (salários, pensões, apoios sociais) e a sobretaxa de IRS eram medidas definitivas. Ora, basta ler os acórdãos do Tribunal Constitucional para verificar que são transitórias. Como aliás entre nós se fartou de repetir o anterior primeiro-ministro. Os arquivos de jornais e televisões estão cheios dessas profissões de fé. É natural que os funcionários da Comissão estejam baralhados. Os papers de 2011 não batem certo com os de 2016.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

EUROPA 2016

Lamento desapontar o Calvinismo bem-pensante, mas o que está a passar-se na Escandinávia é repugnante. Estou a falar de refugiados. A Dinamarca e a Suécia, reinos soberanos, têm todo o direito às suas idiossincrasias. A Hungria e a Polónia, que são hoje Estados proto-fascistas, idem. Mas ao menos os húngaros foram coerentes: fizeram um muro. Isto de receber, para UE ver, e depois confiscar ou repatriar, ultrapassa todos os limites. Em 1938, na conferência de Munique, muita gente elogiou a complacência de Chamberlain. Até darem pelo equívoco foi um tirinho. Receio que 2016 seja um ano tenebroso.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

DYLAN THOMAS


Hoje na Sábado escrevo sobre Retrato do Artista Quando Jovem Cão, de Dylan Thomas (1914-1953), obra que, mais de meio século passado sobre a tradução de Alfredo Margarido, regressa às livrarias pela mão de José Lima, que juntou no mesmo volume toda a ficção do autor, incluindo o romance inacabado Aventuras no Comércio de Peles, os contos dispersos por jornais e revistas, bem como os da fase final (reunidos entre as páginas 381 e 448), antecedendo os da juvenília. Em texto preambular, o tradutor justifica a ausência de notas de rodapé que apoiariam o leitor menos versado em mitologia clássica, cultura bíblica, lendas celtas, expressões populares, usos e costumes galeses. Uma cronologia fecha o volume. O título paródico remete para Joyce, mas apenas como homenagem remota. Além de poesia, contos e textos para a rádio, Thomas escreveu guiões para cinema. O carácter experimental e fragmentário dos primeiros contos explica a alegada filiação surrealista, mito que o autor alimentou a partir da publicação (em 1936) de alguns contos e poemas na revista vanguardista Contemporary Poetry and Prose. O traço distintivo foi esquecido em 1940, ano de publicação de Retrato do Artista Quando Jovem Cão, colecção de contos autobiográficos que iluminam os anos anteriores a 1939, vividos entre Swansea e Londres. A escrita elegíaca e o imaginário panteísta vêm em linha recta do ofício de poeta. Um conto emblemático, e um dos mais conhecidos, Uma visita ao avô, faz parte do livro. Precocemente consagrado, Thomas era conhecido na rua onde morava como “o Rimbaud de Cwmdonkin Drive”. Alheado da política, a sua vaguíssima adesão ao marxismo foi uma forma de identificar-se com os autores ingleses mais influentes do tempo. Na realidade, o seu companheiro de pubs era o poeta Roy Campbell, militante da extrema-direita. Quando Retrato do Artista… saiu, Thomas era o mais famoso poeta inglês vivo. O seu segundo livro vendeu em dois meses o mesmo número de exemplares que os de Auden vendiam em dez anos. Vítima de alcoolismo, a morte aos 39 anos impediu que escrevesse um romance à altura da obra de poeta. Cinco estrelas.

Escrevo ainda sobre A Mulher da Lama de Joyce Carol Oates (n. 1938), de novo a contracorrente da ficção dominante. A história traumática de Meredith Ruth Neukirchen, ou M.R., a mulher que no romance é escolhida para dirigir uma universidade da Ivy League, subsume várias das obsessões da autora: abuso, poder, identidade, questões de género, psique feminina. Meredith veio do outro lado do espelho: resgatada da lama (em sentido literal: a mãe, louca, queria esconder a filha de Satã) por um caçador, cresce em casa dos Skedd, uma família de acolhimento. Mas quem é ela, afinal? Jewell Kraeck, a rapariguinha salva pelo Rei dos Corvos? Jedina, aquela que não escapou? (Os nomes estão trocados porque Jewell assumiu a identidade da irmã mais nova.) Ou Meredith Ruth, a jovem adoptada pelos Neukirchen que se tornaria uma académica de créditos firmados? Foram eles, os Neukirchen, quem lhe mudou o nome. O plot intercala passado e presente: lama e luz. Meredith Ruth vive em permanente mnemónica. O presente impõe o seu cortejo de horrores quotidianos, tais como doenças e guerra. O passado é é muito longe. Quatro estrelas. Publicou a Sextante.

DISCURSO DIRECTO, 33


Jorge Sampaio ao Expresso. Excerto:

«Tenho uma boa esperança, sincera, em relação àquilo que o professor Rebelo de Sousa, como Presidente da República, pode fazer pelo país. Uma pessoa com tantas capacidades tem agora esta grande ocasião de demonstrar que pode ser estadista numa situação que é difícil e em que o revigoramento da função presidencial vai estar na ordem do dia

A imagem é do Expresso. Clique.