sexta-feira, abril 17, 2015

POR MINUTO


Vinte e sete mil euros por minuto foi quanto perdeu o Grupo Espírito Santo entre Abril e Junho de 2014. Por minuto. É uma das revelações do relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito ao colapso do império de Ricardo Salgado. O documento, que tem 380 páginas, teve como relator Pedro Saraiva, deputado do PSD. Lembrar: no momento em que, a cada minuto, 27 mil euros iam pelo cano, o Presidente da República, o primeiro-ministro e o governador do Banco de Portugal exortavam o bom povo a investir no BES. Pode ler aqui o relatório da Assembleia da República.

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quinta-feira, abril 16, 2015

JUDITH TEIXEIRA


Hoje na Sábado escrevo sobre Poesia e Prosa, de Judith Teixeira (1880-1959). Relativamente à edição que Maria Jorge e Luis Manuel Gaspar fizeram em 1996, para a &etc, este novo volume organizado por Cláudia Pazos Alonso, professora na Universidade de Oxford, e Fabio Mario da Silva, acrescenta «cerca de vinte poemas inéditos [e] uma conferência», não datada, na qual a autora reitera o seu desacerto com a moral burguesa, como fizera em 1926 ao proferir a conferência De Mim. Vítima, com António Botto e Raul Leal, do auto-de-fé promovido em 1923 pela Liga de Acção dos Estudantes de Lisboa, com caução de Pedro Teotónio Pereira e Marcello Caetano («uma desavergonhada»), Judith Teixeira, figura proeminente do Modernismo português, tornou-se o «bode expiatório para a desordem social» no momento em que ousou verbalizar o amor lésbico. Aceites hoje como parte do cânone literário, livros como Decadência, Castelo de Sombras, ambos de 1923, Nua. Poemas de Bizâncio (1926) ou as novelas de Satânia (1927), continuam largamente desconhecidos. Daí a importância de os reeditar. A fechar: é lamentável que 1888 seja indicado como ano de nascimento da autora. A data correcta é 1880.

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quarta-feira, abril 15, 2015

PERCY SLEDGE 1940-2015


Percy Sledge morreu ontem, com 74 anos. Pensar que When a Man Loves a Woman fez parte do património da minha adolescência laurentina.

[Imagem: foto de Mark Peterson. Clique.] 

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segunda-feira, abril 13, 2015

GÜNTER GRASS 1927-2015


Morreu hoje Günter Grass, escritor e artista plástico alemão, Nobel da Literatura em 1999. No Verão de 2006, a publicação da sua autobiografia, Descascando a Cebola, provocou enorme celeuma: o autor revelava a sua colaboração, durante a Segunda Guerra Mundial, com as Waffen-SS, a tropa de elite nazi. Tinha 17 anos quando tal aconteceu, e teria sido alistado contra-vontade, mas grande parte da opinião pública considerou a revelação tardia, tanto mais que Grass nunca se coibiu de questionar o comportamento de terceiros durante o III Reich. Por que motivo levou tanto tempo a contar a sua história? Evidentemente, nada disto retira grandeza à obra literária. Die Blechtrommel / O Tambor (1959), primeiro volume da Trilogia de Danzig, provavelmente o seu romance mais conhecido, ganhou dimensão planetária a partir do filme que Volker Schlöndorff fez em 1979.

No Algarve, onde tinha uma casa e passava largas temporadas, escreveu parte do diário Em Viagem, relato dos seus pontos de vista sobre a reunificação alemã. Além de romances, escreveu poesia (uma dezena de colectâneas), ensaio e peças de teatro. Tinha 87 anos quando a morte o surpreendeu em Lübeck.

[Imagem: foto de Bernardo Pérez. Clique.]

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HILLARY 2016


Acabou o tabu  —  «Everyday Americans need a champion. And I want to be that champion. So I’m hitting the road to earn your vote — because it’s your time. And I hope you’ll join me on this journey

[Imagem: foto de Mike Segar. Clique.]

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domingo, abril 12, 2015

DOM QUIXOTE


Os muito novos não sabem, alguns dos menos novos não se lembram, mas a Dom Quixote foi fundada na Primavera de 1965 por Snu Abecassis, a dinamarquesa que desafiou a Pide ao trazer a Portugal o poeta russo Yevgeny Yevtushenko. Muita coisa aconteceu entretanto. Agora que completa 50 anos, a editora reeditou Dom Quixote de la Mancha, de Cervantes, mantendo a tradução de Miguel Serras Pereira. Sobre o Quixote... passo a citar Harold Bloom: «obra de tamanha originalidade que, quatro séculos após ter sido escrita, continua sendo o trabalho de ficção em prosa mais avançado que existe. Tal asserção, porém, é reducionista; o livro é, também, o mais fluente e, em última instância, o mais complexo dos relatos romanescos.» Quem nunca leu, pode agora ver se está de acordo.

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sábado, abril 11, 2015

QUEM MUDOU O VOTO?


A história é conhecida. Em Junho de 2007, Sampaio da Nóvoa presidiu ao júri que chumbou José Luís Saldanha Sanches [1944-2010] na prova para professor agregado da Faculdade de Direito de Lisboa. Além do presidente, o júri era constituído por dez catedráticos, mas um deles, Paulo Pitta e Cunha, faltou. Estiveram presentes António Menezes Cordeiro, Diogo Leite Campos, Eduardo Paz Ferreira, Fausto de Quadros, Jorge Braga de Macedo, Jorge Miranda, Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Teixeira de Sousa, que era então o director da FDL, e Paulo Otero. Quanto se sabe, deste grupo apenas três terão dado nota positiva: Jorge Miranda, Miguel Teixeira de Sousa e Paulo Otero. Sampaio da Nóvoa lavou as mãos como Pilatos. Entretanto, Marcelo já veio a público dizer que não chumbou. Em artigo publicado anteontem no DN, João Taborda da Gama lembrou que Sampaio da Nóvoa não teve «espinha dorsal» para impedir o escândalo. O pior soube-se hoje. Revela o Diário de Notícias que houve duas votações no mesmo dia, tendo um catedrático mudado o seu sentido de voto. Quem foi?

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sexta-feira, abril 10, 2015

CITAÇÃO, 523


Vasco Pulido Valente, O homem que não existe, hoje no Público. Sublinhados meus:

«Marcelo Rebelo de Sousa, que vive desde bebé na intriga política portuguesa, deu a única explicação compreensível da presuntiva candidatura de um cavalheiro desconhecido, António Sampaio da Nóvoa, à Presidência da República. Segundo Marcelo, o sr. Sampaio da Nóvoa é bem-visto pelo PC (porque participou numa homenagem a Cunhal), é bem-visto pelo Bloco (a quem várias vezes passou a mão pelo pêlo) e é bem-visto pelo PS (sobretudo da facção radical, que Soares continua a influenciar, agora com a ajuda de Manuel Alegre). Estas privilegiadas cabeças da política indígena acham que o sr. Sampaio da Nóvoa ajudaria Costa na campanha para as legislativas trazendo ao aprisco do PS algum voto da franja da esquerda lunática; e que a seguir conseguiria ser eleito por uma nova espécie de “frente popular”.

Há um pequeno problema nisto: a maioria dos portugueses não sabe quem seja o sr. Sampaio da Nóvoa. Uma dúzia de patetas mais fervorosos até pensam que esse pequeno facto seria favorável ao regime periclitante que nos pastoreia. Vindo do nada, o sr. Sampaio da Nóvoa nada deve aos partidos e, por isso mesmo, representaria a pureza do povo contra a imunda partidocracia que roubou Portugal aos seus legítimos proprietários. Claro que ninguém ainda observou que para se alçar a Belém qualquer candidato precisa do apoio dos partidos e, portanto, de se comprometer com eles de corpo e alma. O sonho de independência total, além da sua intrínseca má-fé, costuma anunciar uma ditadura populista ou nacionalista e não a boa cozinha democrática. O dr. Salazar, outro exemplar do género, chegou de Coimbra numa manhã de nevoeiro e ficou quase meio século.

De resto, o sr. Sampaio da Nóvoa, à sua maneira, anuncia o fim da ordem democrática que nasceu em 25 de Novembro de 1975. Nunca antes uma personagem do regime (e muito menos uma dúzia de “senadores”) nos tinha sugerido que votássemos numa criatura que não existe. O sr. Sampaio da Nóvoa, aos 60 anos, não pode apresentar um único acto político de consequência. Teoricamente, é igual votar nele ou votar num boneco fabricado pelos partidos, excepto que o boneco talvez fosse mais modesto e mais consciente do seu embaraçoso estatuto. Só um país sem espécie de vergonha levaria esta fantochada a sério

[Imagem: H. Armstrong Roberts, 1968. Clique.]

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PORQUE SIM


A funcionária em questão, subdirectora-geral (em regime de substituição) de um gabinete do ministério do Emprego e Segurança Social, e sócia de uma empresa de turismo rural, teve nota negativa em sete dos doze parâmetros que a CRESAP analisa. Mas vai gerir os fundos comunitários. A imagem é do Público. Clique.

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quinta-feira, abril 09, 2015

ALMEIDA FARIA


Hoje na Sábado escrevo sobre Cavaleiro Andante, romance com que Almeida Faria (n. 1943) deu por concluída a Tetralogia Lusitana, saga de uma família alentejana que assiste contrafeita à transformação da sua propriedade de Cantares em Unidade Colectiva de Produção. Aos primitivos sessenta capítulos deste quarto volume foram agora acrescentados dois pós-escritos: uma carta publicada na imprensa em Abril de 1985, e um email de Marta, confessando-se «condenada ao passado que não acaba de acabar», escrito no primeiro dia de 2015. O registo diarístico-epistolar contribui para potenciar a catarse. Lá onde leitores desatentos tendem a perder-se no intricado monólogo interior que o formato das cartas dilui, seguimos a par e passo um tempo histórico concreto: «o congresso de escritores decorreu [...] um prosador de péssima qualidade ameaçou de fuzilamento uma poetisa socialista infinitamente melhor que ele mas menos dogmática.» A correspondência, em especial a que João Carlos mantém com Marta, a namorada que ficou em Veneza, faz o retrato dos meses de brasa que antecederam a Novembrada, ou seja, o contragolpe militar de 25 de Novembro de 1975: «Nesta terra de choramingas, quando os comandos dominaram os páras, alguns destes desataram a chorar, o que já sucedera no também confuso onze de março do ano passado.» Ter presente o que representou a publicação do livro no Portugal de 1983. Sem surpresa, Almeida Faria levou anos a pagar o ónus da heterodoxia. A linguagem nem sempre é amável. Sirva de exemplo o capítulo dezassete. João Carlos deambula na rua e ouve: «até tenho nódoas negras dos colhões do vizinho, aquele é machão a sério [...] e se te armas em esperto com ameaças chamo o Copcão, a tropa do Otelo que te limpa o unto do bestunto...» Certo de que «a imaginação sempre se deixa ultrapassar pela realidade», Almeida Faria manipula o telling com domínio perfeito da narrativa. Razão acrescida para, em próxima edição, ser considerada a inserção de notas ao texto. Não seria o primeiro romance onde tal acontece, e os leitores agradeciam.

Escrevo ainda sobre Cidades Invisíveis, de Italo Calvino (1923-1985), autor que se pode dar ao luxo de, sem cair no maneirismo historicista, escrever um romance situado no século XIII que tem como personagens centrais Marco Polo, mercador e diplomata, e Kublai Khan, fundador da dinastia Yuan. Cidades Invisíveis, publicado pela primeira vez em 1972, sucessivamente reeditado, é um modelo de virtuose narrativa que José Colaço Barreiros acrescenta à língua de chegada. Verdadeira revisitação das Mil e Uma Noites por antecipação da pós-modernidade, a sucessão de relatos arranca Kublai ao torpor da doença. Porém, desconfiado, pergunta: «Porque mentes ao imperador dos tártaros, estrangeiro?» Seria pleonástico sublinhar quanto a prosa de Calvino fixa a noção de Literatura. Com maiúscula.

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terça-feira, abril 07, 2015

O ESTADO DA SAÚDE


A quantidade de hospitais privados não me incomoda. O que me incomoda é o desaparecimento de 3700 camas do SNS. E também não me incomoda que, em 2013 (os números de 2014 ainda não são públicos), os hospitais privados tenham assegurado 29% do total de consultas externas. O que sobretudo me incomoda é saber que, entre 2004 e 2013, os Centros de Saúde com serviço de urgências tenham passado de 276 para 94. Os dados são do INE. A imagem é do Diário de Notícias.

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segunda-feira, abril 06, 2015

GUERRA SÍRIA


Com o ISIS às portas de Damasco, tem sido gritante o descaso (e a futilidade) com que a generalidade da imprensa portuguesa trata a Guerra Síria, palco privilegiado do jihadismo internacional. Quatro anos de um conflito que deu origem a «oito milhões de deslocados, quatro milhões de refugiados, mais de 220 mil mortos...», cidades que desapareceram do mapa, 60% de redução do PIB, o território minado por terroristas de todo o mundo, células no Iraque, na Líbia, no Egipto, no Líbano, a maior calamidade desde a Segunda Guerra Mundial, provocam um bocejo na troupe Charlie. Convinha por isso ler A Síria em Pedaços, de Bernardo Pires de Lima. Numa linguagem clara, isenta de proselitismo e derrames retóricos, bem informado, o autor expõe a situação em grande angular. Um glossário de siglas, organizações, e dramatis personae, ajuda a situar o leitor menos apetrechado. 

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domingo, abril 05, 2015

CITAÇÃO, 522


Sérgio Sousa Pinto, deputado e membro do Secretariado Nacional do PS, acerca de Sampaio da Nóvoa, presuntivo candidato à Presidência da República. Ontem no Facebook, transcrito pelo Diário de Notícias, hoje:

«Não lhe basta a sublime virgindade de, em 60 anos, nunca se ter metido com partidos, de que fugiu como do tifo. Também parece que agradece a Deus a graça de ser pobre. Antes do partido dos mujiques que do movimento do Mujica. Assistimos com horror à demagogia venezuelana do PODEMOS e o fenómeno político latino-americano apareceu-nos pela porta traseira. Esta não é a minha esquerda.»

[Imagem: DN. Clique.]

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sexta-feira, abril 03, 2015

A VER VAMOS


Pode ser que me engane, mas a Esquerda prepara-se com afinco para perder as Presidenciais de 2016. Não está em causa o currículo académico de Sampaio da Nóvoa. Mas uma eleição não se ganha com currículos académicos. Nem com oratórias no 10 de Junho (a convite de Cavaco) e na Aula Magna. Nem com entrevistas heterodoxas a Anabela Mota Ribeiro. Uma eleição presidencial ganha-se se houver empatia entre o eleitorado e o candidato. Para já, isso não acontece. Trezentos intelectuais ou para-intelectuais não chegam para derrotar os demagogos que estão na fila. O país profundo não faz a mínima ideia de quem é Sampaio da Nóvoa, 61 anos, doutor em Ciências da Educação, doutor em História, professor catedrático, duas vezes reitor da Universidade de Lisboa: 2006-08 e 2009-13. Sampaio da Nóvoa viveu grande parte da sua vida no estrangeiro (Genebra, Paris, Nova Iorque, São Paulo) antes de regressar a Portugal em 1986. Qualidades não lhe devem faltar, é com certeza melhor que os outros, e estou a incluir Marcelo nos outros, mas não chega. Oxalá me engane. A imagem é do Expresso de hoje. Clique.

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quinta-feira, abril 02, 2015

MANOEL DE OLIVEIRA 1908-2015


A morte de Manoel de Oliveira, ocorrida hoje, vítima de paragem cardíaca aos 106 anos de idade, interrompe uma obra iniciada em 1931 com o documentário Douro, Faina Fluvial. A primeira longa-metragem, Aniki-Bobó (1942), tornou-se um clássico. Poucos se lembram hoje que começou como actor, ao lado de Beatriz Costa, no filme mudo Fátima Milagrosa (1928), de Rino Lupo. Salvo a controvérsia de 1979, por causa de Amor de Perdição, que passou na RTP em seis episódios a preto-e-branco, antes de estrear (a cores) nas salas, o unanimismo foi de regra.

Cito o que a seu respeiro escrevi no meu livro de memórias:

[...] Oliveira estava na primeira página do Monde. Dizia-se à boca cheia que tal repercussão era obra do longo braço da Gulbenkian. A intelligentsia entrou em roda livre. [...] Francisca (1981) selou as hostilidades, mas seria preciso esperar por Non ou A Vã Glória de Mandar (1990) para que público e crítica o reverenciassem como o Eisenstein do Douro. Então, a lenda fez o seu caminho. Por causa dele, dizia-se, Catherine  Deneuve passou a comer tripas e arroz de couve-penca. Inspirado em Camilo, Amor de Perdição dura mais de quatro horas. E entre os seus detractores não havia só camilianos ortodoxos. Vinha longe o tempo em que Oliveira faria o pleno. Em Fevereiro de 1972, na antestreia de O Passado e o Presente, os próceres do Estado Novo e a intelectualidade de esquerda juntaram-se na Gulbenkian para o aplaudir. Mas as opiniões dividiram-se. Para o bem e para o mal, Oliveira tornou-se o cineasta do regime. [...]

A sua morte representa o fim de uma certa ideia de cinema. Filmes como Le Soulier de Satin (1985), Os Canibais (1988), Vale Abraão (1993), Party (1996), O Princípio da Incerteza (2002) ou mesmo Singularidades de uma Rapariga Loura (2009), marcos de uma filmografia com cerca de sessenta títulos, dão prova da existência do cinema português.

A Cinemateca Portuguesa é depositária de um filme inédito, Visita ou Memórias e Confissões, realizado em 1982, com indicação explícita do autor para que fosse apresentado depois da sua morte, o que acontecerá em data a anunciar.

[Imagem: Oliveira e a mulher no festival de Cannes, em 2010. Foto do Guardian. Clique.]

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quarta-feira, abril 01, 2015

MEDINA À FRENTE DE LISBOA


Fernando Medina, 42 anos, economista, antigo deputado do PS, antigo secretário de Estado do Emprego e Formação Profissional (no XVII Governo) e da Indústria e Desenvolvimento (no XVIII Governo), substitui António Costa, tornando-se o novo Presidente da Câmara de Lisboa. A passagem de testemunho foi hoje de manhã.

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RESPIRE FUNDO


O relatório da Comissão Nacional de Protecção de Dados tem 42 páginas e confirma o que parecia óbvio: a LISTA VIP é ilegal. É ilegal com quatro nomes (Cavaco Silva, Passos Coelho, Paulo Portas e Paulo Núncio) e continuaria ilegal com quarenta mil.

Mas diz mais e pior: um total de 11.600 pessoas, onze mil e seiscentas, têm acesso aos dados de TODOS os contribuintes. Nesse grupo de 11.600 pessoas, existem funcionários, agentes e estagiários da Administração Tributária (9.298), mas também pessoas e empresas estranhas à AT «com os mesmos níveis de permissão». Entre as empresas privadas com acesso aos nossos dados fiscais, encontram-se a Accenture, a Novabase e a Opensoft.

O relatório seguiu para o Ministério Público e pode ser lido na íntegra na página online da CNPD.

[Imagem: sala do museu da Stasi, a polícia secreta da antiga RDA. Foto de Walter Bibikow. Clique.]

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TRUMAN CAPOTE


Por ser semana de Páscoa, a Sábado saiu um dia mais cedo. Na edição de hoje escrevo sobre três livros. Resumos críticos:

Música para Camaleões, de Truman Capote (1924-1984), último livro publicado em vida do autor. Vários contos aqui reunidos não constam dos Contos Completos (na realidade uma antologia) que a Sextante publicou em 2008. O actual volume inclui o famoso prefácio de 1979, no qual Capote discorre sobre «a escrita excelente e a arte genuína». A sua língua de prata transforma essas nove páginas num curso incisivo e heterodoxo sobre o acto de escrever. Percebemos como os seus contos, mais do que os romances, se tornaram um pilar sólido da literatura americana. Passando em revista os quarenta anos de vida literária, expõe os equívocos que rodearam a publicação, em 1975 e 1976, na revista Esquire, de quatro capítulos do romance Súplicas Atendidas, publicado depois da sua morte na versão inacabada. As pré-publicações foram fatais. Atingida no seu núcleo duro, a alta sociedade de Nova Iorque fechou-lhe as portas. Capote reagiu: «De que é que estavam à espera? Sou escritor. Utilizo tudo. Será que essa gente julgava que eu estava lá só para os divertir?» Entre muitos outros, “essa gente” inclui, citados pelos nomes, os Kennedy, os Vanderbilt, Sumner Welles (confidente de Roosevelt e homem forte da política externa de Washington), o rei Paulo da Grécia, o Xá da Pérsia, os duques de Windsor, artistas e escritores de renome, bem como colunáveis de vária espécie. Capote esteve mais de uma década sem escrever até concluir Música para Camaleões, onde fez questão de inserir Mojave, o primeiro capítulo do roman à clef.  Diz Capote que repetiu neste livro a fórmula de A Sangue Frio, relato factual que presume a ausência do autor. Verdade que são contos de não-ficção, mas Capote himself surge em todos os interstícios, e não apenas em Retratos Dialogados. Não é por acaso que um retrato de Marilyn a dançar com ele tem sido capa das edições de língua inglesa de Música para Camaleões.

Jorge de Sena: uma ideia de teatro, de Eugénia Vasques. Nunca será de mais estudar Jorge de Sena (1919-1978), o autor mais importante da literatura portuguesa do século XX. A obra inclui poesia, ficção, ensaio, teatro, história da literatura inglesa, diários, tradução e correspondência, por vezes com subdivisões, como sucede no ensaio, onde estão os estudos especializados que dedicou a Camões, Pessoa, teoria e crítica literária, bem como os verbetes de dicionários. De tudo isto, a faceta menos conhecida é a do teatro. Daí a importância da obra de Eugénia Vasques. Numa linguagem clara, apoiando o texto em notas imprescindíveis que abrem a narrativa ao contexto literário, sociológico, repressivo e político da época, em especial ao período a que reporta a análise da dramaturgia seniana, Eugénia Vasques faz um tour d’horizon de leitura aliciante, sem ignorar «dados biográficos concretos» do autor de O Indesejado (António, Rei), tragédia em verso que esperou mais de trinta anos para subir ao palco. A situação do teatro português em contexto de censura prévia é um dos pontos fortes da exegese. Uma detalhada cronologia do teatro português entre 1938 e 1971 (e correlativo contexto histórico) ocupa quinze páginas do volume.

A Nossa Casa é Onde Está o Coração, de Toni Morrison (n. 1931), mulher, negra, feminista e Prémio Nobel da Literatura em 1993. O livro confirma uma das vozes mais portentosas da literatura contemporânea. Não estamos no patamar da Trilogia da Condição Negra (1987-99), que abre com essa obra-prima que é Beloved, mas Morrison nunca desilude. Autora de romances, contos, peças de teatro, ensaios, libretos de ópera e literatura para a infância, a voz é inconfundível. Para alguém que escreveu como ela fez sobre a Guerra da Secessão, esta novela breve, a história de um homem que regressa da Guerra da Coreia sem ter tido tempo de lamber as feridas, é uma elegia contida, verdadeira peça de música de câmara sobre conflitos interiores: «Como podia ele mudar tão depressa? A rir num segundo e aterrorizado no seguinte? Haveria nele uma violência capaz de ser dirigida contra ela?» Desta vez, o tom visionário, tão presente na ficção de Morrison, dá lugar a uma melopeia que não abdica de inscrição política. Veja-se a alusão ao Green Book, o guia de viagem para negros (sítios a evitar, etc.) que Frank Money consulta antes de partir de regresso ao passado.

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terça-feira, março 31, 2015

LÍDER DA OPOSIÇÃO A TEMPO INTEIRO


António Costa anunciou esta tarde na Assembleia Municipal de Lisboa que amanhã de manhã renuncia ao cargo de Presidente da Câmara. Está marcado para o meio-dia um encontro com os media. Fernando Medina será o novo Presidente.

[Imagem: foto de Julien Warnand. Clique.]

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segunda-feira, março 30, 2015

REGIONAIS DA MADEIRA


O PS pagou o preço (e foi bem feito) de ter feito uma coligação, dita MUDANÇA, com o PTP, o MPT e o PAN. Más companhias nunca dão bom resultado. Miguel Albuquerque, o novo senhor da ilha, é um homem culto, tem charme, sabe vestir e é dono do maior jardim privado de rosas da Europa. A infografia é do Público. Clique.

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quinta-feira, março 26, 2015

ANA CÁSSIA REBELO


Contra a corrente da guerrilha partidária, Ana Cássia Rebelo (n. 1972) impôs à blogosfera uma persona desprovida de cautelas, Ana de Amsterdam. O blogue ressurge em forma de livro, prefaciado por João Pedro George, responsável pela selecção dos textos. Fica exarado: «uma grande escritora, uma radiação nova na literatura portuguesa.» Parece exagero, mas não é. Fala ainda de autoflagelação, sublinhando a ausência de literatice. Toda a escatologia será castigada. Ana Cássia Rebelo tem contra ela o atavismo do País e o conservadorismo do Meio. Estamos a falar de um diário avesso ao decoro, e de alguém que, à revelia do guisado normativo, põe em pauta a vagina: «Com esse cabelo preto deves ter um bom grelo. Lambia-to todo!». Gente sensível vai com certeza torcer o nariz: violência doméstica, disfunção sexual feminina, depressão, homens de pila mole, quotidiano em queda livre pelo travão engasgado do Escitalopram, suicídio abortado. Meia dúzia de escritores: Adília Lopes, aliás Maria José, entra na categoria dos afectos; Isabela Figueiredo no desencontro das memórias moçambicanas. O romance da empregada do minimercado é um tropo? Em suma, Ana Cássia Rebelo dinamita o código não escrito dos limites à emancipação de género. Não é pequeno mérito.

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terça-feira, março 24, 2015

HERBERTO HELDER 1930-2015


Herberto Helder, por muitos considerado o maior poeta português vivo, morreu ontem em Cascais. Tinha 84 anos. Nascido no Funchal, Herberto veio adolescente para Lisboa. Publicou os primeiros poemas em 1952, e o primeiro livro, O Amor em Visita, em 1958. Em 1973, com oito livros publicados, entre eles Os Passos em Volta, obra-prima da prosa em língua portuguesa, ainda a crítica dominante não alinhava no unanimismo dos últimos vinte anos. Os Poemas Completos foram publicados em Outubro de 2014 pela Porto Editora. Herberto recusou todos os prémios que lhe atribuíram, incluindo o Prémio Pessoa.

Avesso à exposição pública, Herberto teve na vida várias profissões e ocupações. Foi empregado da Caixa Geral de Depósitos, angariador de publicidade para o Anuário Comercial português, funcionário do Serviço Meteorológico Nacional (na Madeira), delegado de propaganda médica entre 1955-58, guia de marinheiros em Amesterdão, encarregado no serviço de Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, redactor da Emissora Nacional, publicista, director literário da Estampa, colaborador da revista angolana Notícia, revisor tipográfico da Arcádia, redactor de notícias na RDP em 1974, tradutor, etc. Nos anos 1950 fez parte das tertúlias surrealistas do Café Gelo, nos anos 1960 viajou por vários países europeus e no início dos anos 1970 passou uma temporada em Angola.

Como digo num ensaio sobre A Faca não Corta o Fogo, que publiquei em 2009, e está compilado em Aula de Poesia — Não é fácil falar de Herberto, porque Herberto queima pontes, dando a ler uma suma com um pé no romantismo alemão, outro no imagismo russo, fora tradições inesperadas como a dos ameríndios. [...] Afinal, se Herberto fosse um poeta igual a tantos que vicejam nos departamentos de literatura, Novalis refulgiria intacto nos interstícios da voz. [...] Lembrar, muito a propósito, o verso famoso: «Não posso escrever mais alto». A minha geração cresceu com Herberto, repetindo versos irrepetíveis...

Agora vou reler Photomaton & Vox (1979), prosa de primeiríssima água.

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O ARMÁRIO


Desde que no ano passado Douglas Gotterba revelou publicamente ter mantido uma relação amorosa com John Travolta, a qual teria durado de 1981 a 1987, a imprensa tablóide americana não mais largou as canelas do actor. Os jornais de referência já abordaram o tema (o pretexto foi o anúncio da publicação de um livro em que Gotterba conta tudo com detalhes e muitas fotografias) e, pelo meio, surgiram três massagistas acusando Travolta de comportamento “impróprio”. Agora a coisa mudou de patamar. Travolta seria amante de Tom Cruise desde que rompeu com Gotterba, ou seja, desde 1987. Os dois são membros da Igreja da Cientologia, nasceram com oito anos de intervalo (Travolta em 1954, Cruise em 1962) e casaram com mulheres. A revista Star ocupa a capa com a revelação e vendem-se t-shirts com a frase Top Gun, Bottom Gun, um prodígio de subtileza. Quem leu as biografias de alguns grandes actores dos anos 1930-60, não tem de admirar-se. Mas hoje o Armário não fez sentido.

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quinta-feira, março 19, 2015

LEONARDO PADURA


Hoje na Sábado escrevo sobre Hereges, do cubano Leonardo Padura (n. 1955), conhecido pelos romances centrados na personagem do detective Mario Conde. O oitavo da série acaba de chegar à edição portuguesa. Hereges confirma a propensão do autor para a ficção historicista, de que é exemplo O Homem que Gostava de Cães (2009), sobre a execução de Trotsky por Ramón Mercader, agente da NKVD. Não obstante o lastro histórico, Hereges não dispensa Mario Conde, ausente do romance sobre Trotsky. O título aproveita o sentido coloquial que os cubanos dão ao termo “hereje”. As quatro partes em que está dividido têm ressonâncias bíblicas: Livro de Daniel, Livro de Elias, Livro de Judith e, a fechar, Génesis. Faz sentido, pois a trama incide sobre um incidente ocorrido em 1939, quando o comandante do transatlântico S. S. Saint Louis, oriundo de Hamburgo, com «novecentos e trinta e sete judeus autorizados a emigrar» pelo governo alemão, foi impedido de os desembarcar. Hereges é um thriller com a diáspora judaica em pano de fundo. Aqui e ali, surgem referências a situações e personagens de obras anteriores de Padura. Como fio condutor, um relato de N. N. Hannover sobre o genocídio dos judeus na Polónia entre 1648 e 1653. Partes desse relato estão inseridas no romance, «com os cortes e retoques necessários» e, naturalmente, personagens de ficção. Contudo, é nas “entradas” de Mario Conde que a plasticidade narrativa de Padura atinge maior conseguimento, ilustrando, com desembaraço e em tom pícaro, os traços de carácter do antigo polícia, bem como a algazarra do quotidiano de Havana (em 1939 como agora), espécie de «compêndio do desastre». O livro recebeu o Prémio Ciudad de Zaragoza para romance histórico. Publicou a Porto Editora.

Escrevo ainda sobre Má Luz, do espanhol Carlos Castán (n. 1960). O livro é um exercício literário que decerto agradará a quem se impressione por literatice. A título de exemplo, o autor consegue meter na mesma sequência Marguerite Duras, Robert Antelme, Yann Andréa, os filmes Hiroshima mon Amour e India Song, o baloiço de Emmanuelle, as Éditions de Minuit, a fotógrafa Hélene Bamberger, Rudyard Kipling, Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad e Malcolm Lowry, mais os livros de autores mexicanos «acompanhados nas estantes por garrafas de tequila...» Podia citar outras sequências análogas. Também temos disto por cá, mas não serve de desculpa. Ficção é outra coisa, e um romance deve abster-se de prosaísmo aliteratado. Os franceses são exímios num género próprio, o récit, saco sem fundo onde cabe quase tudo, mas nem com esse álibi o “romance” de Carlos Castán chega lá. Publicou a Teorema.

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E VÃO DOIS


José Maria Pires, subdirector-geral da Justiça Tributária e Aduaneira, demitiu-se. A ideia de criar a Lista VIP de contribuintes terá sido sua. Quem será o próximo? A imagem é do Expresso.

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CITAÇÃO, 521


JORNAL DE NOTÍCIAS — «A lista VIP de contribuintes terá sido criada por José Maria Pires, actual subdirector-geral para a Justiça Tributária. Fontes ligadas ao Governo e à máquina fiscal garantem que a medida foi aprovada por Paulo Núncio.

Tudo começou quando o anterior director-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, Azevedo Pereira, exercia interinamente funções

Comentários para quê? A imagem é do JN. Clique.

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quarta-feira, março 18, 2015

A LISTA


Não vale a pena tapar o sol com a peneira. Enquanto foi o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos a corroborar a existência de uma bolsa de contribuintes VIP, o primeiro-ministro, a ministra das Finanças e o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais desmentiram à vez. Mas o deslize de um dirigente da Autoridade Tributária, perante quinhentos inspectores tributários estagiários, deitou tudo a perder. Hoje de manhã, a demissão de António Brigas Afonso, director-geral da Autoridade Tributária, deu ênfase à trapalhada. Um alegado porta-voz (?) do PSD terá dito que o primeiro-ministro acreditou nas informações da Autoridade Tributária. Verdade? Desde quando um primeiro-ministro despacha com directores-gerais? Adiante que o assunto fede.

Vem a talhe de foice lembrar a síntese de Júlio de Magalhães: «Vasculhando a história da República, desde a sua proclamação em 1910, afigura-se que, apesar de todas as vicissitudes ocorridas, nunca um Governo mentiu tanto e com tanto descaramento aos portugueses como o Executivo chefiado por Pedro Passos Coelho. Aqui se regista para memória futura

Amanhã, como demonstrado pela imagem, a Visão disseca o tema.

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