sábado, Agosto 30, 2014

QUAL É O ESPANTO?


Na sua edição de hoje, o magazine du Monde dedica sete páginas ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, em França, país onde a lei vigora há quinze meses: Le mariage gay épouse les traditions. Raphaëlle Bacqué, 50 anos, repórter do jornal e autora do artigo, deplora: Conformiste, bourgeois, romantique. A senhora queria o quê? Bacanais romanas?

Recorde-se que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal na África do Sul, Argentina, Bélgica, Brasil, Canadá, Cidade do México, Dinamarca, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Islândia, Luxemburgo, Noruega, Nova Zelândia, País de Gales, Portugal, Suécia, Uruguai, bem como em vinte Estados norte-americanos: Califórnia, Connecticut, Delaware, District of Columbia, Hawaii, Illinois, Iowa, Maine, Maryland, Massachusetts, Minnesota, New Hampshire, New Jersey, New Mexico, Nova Iorque, Oregon, Pennsylvania, Rhode Island, Vermont, Washington (não confundir com Washington DC) e ainda em dez tribos índias.

Etiquetas: , ,

quinta-feira, Agosto 28, 2014

CITAÇÃO, 496


Ana Luísa Amaral, Banco bom, banco mau, ou parábola..., hoje no Público. Excertos. Sublinhados meus:

«Espelho meu, espelho meu, haverá banco de espírito mais santo do que o meu? Isto perguntava o rei, enquanto se mirava e remirava em frente do seu espelho luzidio, agora rasgado ao meio, uma brecha em ziguezague, muito bem concebida pelos seus ministros e depois executada pelos lacaios que ronronavam, felizes, passeando pelo palácio, de barriguinha cheia, porque eram autorizados a comer os restos do faisão e das perdizes assadas que sobravam da mesa real.

Mas o espelho, cindido que estava, respondia a duas vozes. Ora dizia, do seu lado mais aforístico, e até razoavelmente culto: “O teu banco tem o espírito mais santo de todos, o teu banco é rico, logo, tu também o és”, ora afirmava, em tom cortante e incisivo: “O teu banco é mau.” [...]

Porém, para qualquer camponês (ou camponesa, bem entendido, mas a partir de agora tudo surgirá no masculino, até porque esta é uma história politicamente incorrecta), saber que havia um “banco mau” e um “banco bom” era motivo de desassossego [...] O que mais desassossegava os camponeses era precisamente a resposta a duas vozes. Como podia um banco onde se reflectiam espíritos e santos partir-se ao meio, como o espelho do palácio real, e tornar-se “banco bom” e “banco “mau”? Isto se perguntavam, sem resposta. É que eles sabiam pouco de sacos de moedas trocados de mão em mão, debaixo de mesas e de tronos, ou de favores a convidar a mais favores, ou de como era possível fazer guerras para encher ainda mais os sacos de moedas. Bom e mau, na língua dos camponeses, que eram a esmagadora maioria das criaturas que viviam naquele reino, eram palavras muito simples, que queriam dizer exactamente isso: ou seja, bom queria dizer bondoso, ou quase perfeito, e mau queria dizer maldoso, ou condenável. [...]

Esta história não tem muito fim, nem é politicamente correcta, para desassossego de quem a possa um dia ouvir. Porque, à semelhança da imagem que aparece a meio, a do círculo vicioso, que em linguagem popular se diz pescadinha de rabo na boca, o fim é quase sempre igual e repetido. O rei continuou a olhar-se ao espelho, mais ou menos cindido, e a perguntar do seu espírito e do seu banco. Noutros reinos, outros reis iriam perguntar-se o mesmo. E, depois de um pouco de inquietação, todos descansariam com as respostas ouvidas, que diriam os seus bancos santos e de espírito promissor, mesmo podendo ser maus. E nada disto seria incongruente para eles, nem para os ministros, que haviam de descansar também, como os lacaios, espreitando atrás de portas, esperando colher as migalhas das mesas reais.

Nada mudaria. Só os camponeses  —  e a mudança neles era mais uma questão de intensidade. Ou seja, ficariam cada vez menos instruídos, mais rudes e mais pobres, uns já sem Cruzadas para onde partir, porque os reinos eram todos mais ou menos parecidos, e isto aconteceria de uma forma global, os outros presos para sempre à gleba, até ao fim das suas vidas.

A não ser que, um belo dia, mas isso só acontece nas histórias de fim imoral, pegassem nas enxadas e nas foices e nos ancinhos, e em tudo aquilo que estivesse à mão, e despedaçassem de vez todos os espelhos. Isto, claro, se conseguissem entrar nos palácios, o que era muito, muito difícil, e quase inverosímil. Mas não impossível

Etiquetas: , ,

CHRISTIAN CARYL

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Estranhos Rebeldes, de Christian Caryl. O autor não é um historiador no sentido clássico do termo. É senior fellow para assuntos internacionais no MIT e no Legatum de Londres. O livro defende uma tese curiosa: o século XXI começou em 1979. Ele explica porquê. Bem documentada, e com assinalável fluência, a obra estabelece um patchwork de acontecimentos em torno de quatro figuras-chave que moldaram o mundo actual: Khomeini, Thatcher, Karol Wojtyla (o Papa João Paulo II) e Mao Tsé-Tung. É a primeira vez que os vemos como parte do mesmo processo. A arquitectura dos factos é conhecida, mas Caryl acrescenta informação extremamente detalhada, permitindo uma visão de conjunto que filtra e matiza os clichês da vulgata historicista. Os leitores portugueses dispõem agora de uma obra que ajuda a perceber o triunfo do regime teocrático de Teerão, a real influência de Wojtyla no colapso do império soviético, a forma como Thatcher partiu a espinha ao movimento sindical e enterrou as certezas do pós-guerra, e as consequências da “desconstrução” póstuma de Mao, num país onde, em nome da Revolução Cultural, dezassete milhões de estudantes tinham sido enviados para campos de reeducação (o ensino superior esteve suspenso durante dez anos). Entre outros, os perfis de Ahmad Shah Massoud, o líder afegão que expulsou o exército da URSS; e de Deng Xiaoping, inventor do “socialismo de mercado” que transformou a China numa potência económica, tornam a leitura aliciante. Imprescindível para quem queira perceber a realidade.

Etiquetas: ,

terça-feira, Agosto 26, 2014

OBESIDADE MÓRBIDA

 
Gorduras do Estado. Eram para cortar, lembram-se? Foi trave-mestra da campanha eleitoral do PSD/CDS em 2011. Mas ainda anteontem soubemos que o Governo vai renovar a frota automóvel de 56 chefes de gabinete e secretários de Estado. Um milhão de euros. O que é isso?, perguntará um céptico. Afinal, um T4 nas Avenidas Novas custa mais do que isso. A imagem fala por si. Foi retirada de um conjunto mais vasto, do Público. Clique para ler melhor.

Etiquetas: ,

domingo, Agosto 24, 2014

EDUARDO COSTLEY-WHITE 1963-2014

 
De doença, morreu hoje em Maputo o poeta moçambicano Eduardo Costley-White. Tinha 50 anos. Várias vezes premiado, White, que passou a assinar Costley-White, era natural de Quelimane. Estreou-se em 1984, com Amar sobre o Índico, início de uma obra que se prolongaria por mais quinze títulos. Escrevi sobre Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (1990), na Colóquio-Letras, e sobre Os Materiais do Amor seguido de O Desafio à Tristeza (1997), na LER. Com prefácio de Inez Andrade Paes, o livro mais recente  —  Bom dia, Dia  —  foi lançado há poucas semanas.

Etiquetas: ,

sexta-feira, Agosto 22, 2014

A JÓIA DA COROA

 
A seguradora Tranquilidade, do Grupo Espírito Santo, valia 700 milhões de euros no princípio de Agosto. Ontem, o Novo Banco vendeu-a à norte-americana Apollo Global Management LLC por 50 milhões. A exposição ao GES terá determinado o valor da operação. Quando eu era pequenino, chamava-se a isto um negócio da China. 

Etiquetas: , ,

quinta-feira, Agosto 21, 2014

PM DO LUXEMBURGO PRETENDE CASAR COM DESTENAY

 
Xavier Bettel, primeiro-ministro do Luxemburgo, anunciou para breve o seu casamento com o arquitecto Gauthier Destenay, seu companheiro há muitos anos. Em 2011, quando foi eleito burgomestre da cidade do Luxemburgo, já Bettel havia assumido publicamente a sua homossexualidade.

Recorde-se que o Luxemburgo legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em Junho. Neste momento, na Europa, estão em funções dois primeiros-ministros declaradamente homossexuais: Bettel e Elio Di Rupo, o PM da Bélgica.

[Imagem: foto de Pascal Le Segretain. Bettel, de gravata azul, e Gauthier Destenay, quando chegavam ao casamento do príncipe Guilherme, grão-duque herdeiro de Luxemburgo, com a condessa Stéphanie de Lannoy, da Bélgica, em Outubro de 2012. Clique.]

Etiquetas: ,

HERMANN HESSE

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Contos Maravilhosos, de Hermann Hesse (1877-1962). Clássico da literatura, não admira que os seus livros sejam sucessivamente reeditados. A partir da edição da Surhkamp Verlag de 2001-02, o tradutor Paulo Rêgo optou por alterar, relativamente à tradução feita em 1990 por Isabel de Almeida e Sousa, a seriação dos textos, bem como os títulos de doze dos vinte contos coligidos. O leitor comum tende a dar pouca importância a estes detalhes, mas daqui resulta que estamos em presença de livros diferentes. Escritor de ideias, romancista, contista, poeta e ensaísta, além de aguarelista profícuo, Hesse trocou o país natal (a Alemanha) pela Suíça, onde viveu a partir de 1912 e obteve a respectiva nacionalidade em 1923. Siddhartha, romance sobre a filosofia budista publicado após uma temporada passada na Índia, fez dele o autor alemão mais lido em todo o mundo. Em 1946, quando recebeu o Nobel da Literatura, era já um nome inquestionável. Os contos seleccionados, uma pequena amostra dos que publicou, dão a medida da grandeza do autor. A antologia fecha com Os Dois Irmãos, escrito quando tinha apenas dez anos. Uma adenda final dilucida vários aspectos da tradução.

Etiquetas: ,

sábado, Agosto 16, 2014

GENTE BEM INFORMADA

 
O seu telefone não tocou três vezes? Azar. A operação foi efectuada a 26 de Maio, mas Xavier Musca só a comunicou ao regulador a 15 de Julho. A cacha é do jornal i. Clique.

Etiquetas: , ,

quinta-feira, Agosto 14, 2014

TRUQUES DE MERCEEIRO

 
E porquê? A imagem é do Público.

Etiquetas: ,

quarta-feira, Agosto 13, 2014

TRAPALHADA

 
Mas então não foi o Fundo de Resolução a contrair um empréstimo junto do Estado português? Afinal foi o Banco de Portugal? A que título? Com que fundos? Por que razão isso não foi revelado no domingo do fio da navalha? A ministra das Finanças foi à SIC explicar os detalhes das maturidades e dos juros para entreter pategos? O governo e o BdP deixaram de ser entidades distintas? Isto contraria tudo o que foi dito no dia 3 à noite pelo governador Costa. Que trapalhada.

Etiquetas: , , , ,

segunda-feira, Agosto 11, 2014

O ÚLTIMO VERÃO

 
Na enxurrada de obras que o centenário da Primeira Guerra Mundial fez sair dos prelos, The Burning of the World: A Memoir of 1914, do húngaro Béla Zombory-Moldován (1885-1967), é uma obra peculiar, uma admirável memória, em escassas 155 páginas, do último Verão, aquele em que, e são palavras de Churchill, “vimos descer uma estranha luz sobre a Europa.” Béla Zombory-Moldován, que vemos em primeiro plano, vestido de linho branco  —  a foto foi tirada no dia 25 de Julho de 1914, três dias antes de eclodir o conflito  —, não foi historiador. Era pintor, retratista e artista gráfico, tendo dirigido a Escola de Artes Aplicadas de Budapeste entre 1935 e 1946, ano da sua expulsão do Partido Comunista. As suas memórias permanecem inéditas. Peter Zombory-Moldovan, um neto seu radicado em Londres, traduziu o livro directamente do húngaro. O livro foi editado na colecção de clássicos da New York Review Books.

Etiquetas:

sexta-feira, Agosto 08, 2014

AKRASIA


Carlos Costa, o governador do Banco de Portugal, aproveitou a ida ao Parlamento, onde foi ontem ouvido na Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública, para construir a sua narrativa da implosão do Grupo Espírito Santo. A prelecção incluiu um longo arrazoado sobre carninomas e outras frioleiras.

Houve porém um momento desconcertante. Foi quando o governador do BdP afirmou, com ênfase, que o país passou o domingo em cima do fio da navalha. A fazer fé nas palavras de Carlos Costa, o sector financeiro esteve sob risco sistémico durante três dias consecutivos. Ninguém diria. Acaso o primeiro-ministro interrompeu as suas férias? Portanto, uma de duas: ou Carlos Costa exagerou; ou está a dizer em língua de pau que o PM não esteve à altura da situação. As duas hipóteses são confrangedoras.

Se a isto juntarmos as inanidades proferidas por Vítor Bento na entrevista que deu ontem à noite à SIC (antes não a tivesse dado, porque as reticências e o tom do discurso suscitaram dúvidas em quem não as tinha), temos o quadro completo da akrasia.

[Imagem: detalhe de foto de Miguel Manso. Público. Clique.]

Etiquetas: , , , ,

quinta-feira, Agosto 07, 2014

ISABEL VALADÃO


Hoje na Sábado escrevo sobre Angola. As Ricas-Donas, a obra mais recente de Isabel Valadão (n. 1945), que há dois anos publicou um interessante livro de memórias sobre os cerca de 25 anos que viveu em Angola. Quem eram as Ricas-Donas? Eram mulheres de origem crioula, que o espírito empreendedor e o casamento com europeus colocavam no centro da vida económica da Colónia, numa altura em que o epicentro dos negócios interatlânticos tinha a sua mais importante fonte de rendimento no comércio e tráfico de escravos para o Brasil. Figuras dominantes desde o século XVII, o seu apogeu coincide com a permanência da Corte Portuguesa no Rio de Janeiro (1808-21), período em que as frotas de navegação do Atlântico Sul eram propriedade de “Donas” como Anna Joaquina dos Santos e Silva e Anna Francisca Ferreira Ubertaly, mulheres «detentoras de vastas propriedades e de imensas fortunas». Apoiada em factos históricos concretos, a autora ficcionou a intriga de forma a dar o quadro dramático dos acontecimentos. Muito interessante para perceber o carácter específico (assente na miscigenação) da colonização de Angola.

[Uma gralha atribui a autoria do texto a um jornalista da revista.]

Etiquetas: ,

quarta-feira, Agosto 06, 2014

CITAÇÃO, 495


José Pacheco Pereira, hoje no Abrupto, série O Navio Fantasma. Na íntegra:

«Com o entusiasmo do propagandista, Poiares Maduro referia-se à “solução” encontrada para o BES como um exemplo da “nova política” que o governo PSD-CDS tinha trazido à vida pública portuguesa. Ora, eu pensava que a “solução” tinha tido origem em decisões do Banco de Portugal, dotado de autonomia face ao governo, quando muito contando com o suporte do Ministério das Finanças para disponibilizar o tal dinheiro “que não é dos contribuintes” e que não é público, nem privado.

Bem sei que considerações institucionais  não estão na moda, mas o facto do Banco de Portugal funcionar como um instrumento directo do governo, actuando como uma espécie de Ministério das Finanças para a banca, executando uma “política” governamental, põe em causa a autonomia da instituição. E a verdade é que esta crise só veio confirmar aquilo que se tinha visto nos últimos anos sob responsabilidade do Governador Carlos Costa, a proximidade excessiva e a colagem da actuação do Banco em relação ao governo, com sérias consequências para a autonomia pressuposta do banco central

[Imagem: o governador do BdP fotografado por Luís Barra, Expresso. Clique.]

Etiquetas: , ,

terça-feira, Agosto 05, 2014

RATO NO RADAR DO WSJ

 
João Moreira Rato no WSJ  —  «[...] Eurofin also has an indirect connection to Banco Espírito Santo, whose ultimate parent is Espírito Santo International, through the bank’s new chief financial officer, João Moreira Rato. Mr. Rato is part of a management team brought in last month to try to stabilize the lender. Mr. Rato, a former Lehman Brothers trader, previously helped run a small London hedge fund called Nau Capital LLP, according to regulatory records. Nau originally was seeded with a roughly €200 million investment from Banco Espírito Santo, according to public statements at the time. Mr. Rato’s partner at Nau Capital was João Poppe. Mr. Poppe is the nephew of Ricardo Espírito Santo Salgado, who last month resigned as Banco Espírito Santo’s chief executive and then was detained in a Portuguese money-laundering investigation. In a statement last month, Mr. Salgado said he would cooperate with the investigation and that he “believes truth and justice will prevail.” Mr. Rato left Nau Capital in 2010, according to U.K. records. The next year, Eurofin bought Nau Capital. Mr. Poppe is now a managing director at Eurofin. A Banco Espírito Santo spokeswoman said Mr. Rato wasn’t available for comment. Mr. Poppe didn’t respond to requests for comment. [...]»

Etiquetas: , , ,

segunda-feira, Agosto 04, 2014

NOVO BANCO

 
Ainda sou do tempo em que o BES se chamava Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa. O BES implodiu no passado 10 de Julho, dia em que o Banque Privée Espírito Santo entrou em default, Wall Street deu um coice, o Financial Times fez uma manchete corrosiva, e o Banco de Portugal retirou poderes à administração presidida por Ricardo Salgado. Mas como Ricardo Salgado não tem por hábito receber ordens de subalternos, o aviso do governador do BdP não foi tido nem achado. Carlos Costa terá confundido o gabinete do BdP com as salas do White’s (o mais exclusivo clube masculino de Londres, aberto desde 1693, feudo do old money), fazendo fé no gentleman’s agreement, em lugar de cumprir o Regulamento Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras. Dizem as más-línguas que Salgado bocejou. Entretanto, à cautela, a família pediu protecção contra credores.

O episódio de 24 de Julho, quando Salgado foi ao Tribunal de Instrução Criminal, não merece comentários. Outro galo cantará quando as autoridades judiciárias e monetárias do Luxemburgo, Suíça, Panamá e até de Nova Iorque, área de jurisdição do processo de fusão da Oi com a PT, exigirem o que é seu. Luís Máximo dos Santos, o homem que geriu a massa falida do BPP, e vai fazer o mesmo no Bad BES, terá muito com que se entreter.

No comunicado de ontem à noite, o governador do BdP acusou a anterior administração do BES de ter efectuado operações “não autorizadas” depois de 10 de Julho, razão do salto verificado nas imparidades. Mas dizer que «houve esquema de financiamento fraudulento no GES...» não explica se um caixa mais afoito se abotoou com umas centenas de milhões ou se, considerado o grau de sofisticação do trambique, hipótese para a qual o BdP e outras entidades reguladoras não estão preparadas, ainda podemos vir a ter surpresas.

Para já, uma certeza: o Fundo de Resolução, que dispõe apenas de 180 milhões de euros, contraiu junto do Estado português um empréstimo de 4,7 mil milhões de euros, dotando o NOVO BANCO de capital limpo. Não sabemos, porque o governador do BdP omitiu esse detalhe, a que juro foi negociada a operação.

Etiquetas: , , , ,

quinta-feira, Julho 31, 2014

AO QUE ISTO CHEGOU

 
O medo de que Sócrates concorra às presidenciais é tanto que justifica todos os absurdos. Mas a PGR foi rápida a desmentir. Clique na imagem para ler melhor.

Etiquetas: , ,

CARLOS RUIZ ZAFÓN

 
Hoje na Sábado escrevo sobre As Luzes de Setembro, de Carlos Ruiz Zafón (n. 1964), romance que encerra a Trilogia da Névoa. Estamos na Normandia, no Verão de 1937. Simone e os filhos reaprendem a viver o resto das suas vidas. Uma aura de mistério nimba a chegada da família Sauvelle a Cravenmoore. Quem é quem naquele universo de autómatos? Zafón é muito hábil na forma como descreve o lastro de magia que envolve a intriga. Que “sombra” era aquela que levou Hannah à morte? Seria o holograma do corpo nunca encontrado da mulher afogada na ilhota do farol? Seria esse o terrível segredo (e o móbil de vida) de Lazarus Jann, o velho inventor e fabricante de brinquedos? Que estranho pacto unia Daniel Hoffmann a Lazarus e Alexandra Alma Maltisse? Pode-se pensar numa versão alegórica do mito de Fausto. A hipótese não invalida outra: a personalidade escorregadia de Lazarus faz dele uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Parece confuso, mas estamos no domínio da mais absoluta fantasia. Toda a hipérbole será perdoada.

Autor de policiais e guiões para cinema e televisão, o francês Pierre Lemaitre, nascido em 1951 (e não em 1956 como diz a badana do livro), surpreendeu toda a gente ao vencer o Goncourt 2013 com Até nos vermos lá em cima, obra que fez parte dos finalistas do Fémina e do Grande Prémio da Academia Francesa. Mantendo a estrutura do roman policier que fez dele um autor popular, este seu mais recente romance tem como pano de fundo as sequelas da Primeira Guerra Mundial, cujo centenário tem monopolizado a edição europeia. Provavelmente, sem a coincidência histórica, os eminentes jurados do Goncourt teriam feito vista grossa a uma obra de certo modo pouco francesa, bem documentada, sem o halo de uma qualquer idée iniciática. Ideal para ler nas férias. Miguel Serras Pereira traduziu. Editou o Clube do Autor.

Etiquetas: ,

quarta-feira, Julho 30, 2014

IMBRÓGLIO CATALÃO

 
Artur Mas, presidente da Generalitat, reúne-se hoje com Rajoy para discutir o referendo da Catalunha marcado para 9 de Novembro. A reunião ocorre no pior momento. O balde água fria de Jordi Pujol, presidente da Generalitat entre Maio de 1980 e Dezembro de 2003, se não foi combinado com a Moncloa, parece. Precisamente agora é que o homem se lembra de revelar que praticou tráfico de influências e evasão fiscal durante 34 anos consecutivos? E não foram trocados. O PSOE vai propor a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito. Ao pé disto, o affaire Urdangarín é um trambique de merceeiro. Pujol não é um qualquer. Era, para os espanhois em geral e os catalães em particular, uma referência ética. Tudo isso ruiu há cinco dias. Agora até se soube (a notícia vem na primeira página dos jornais de referência de Espanha) que o filho recebeu uma comissão de 9,7 milhões de dólares, depositados no México, por serviços inexistentes que teriam sido prestados a empresas públicas da Generalitat.

Mas não é só o comportamento de Pujol e família que abalam as pretensões de Artur Mas. Uma sondagem divulgada ontem revela que 62% dos espanhois é favorável a uma alteração constitucional que proíba o referendo. E Pedro Sánchez, o líder do PSOE, foi claro: «Coincidí con Rajoy en que la consulta de Mas es ilegal. Pero a mi juicio, la manera de defender la Constitución es renovarla, no petrificarla.» Artur Mas arrica-se a ficar a falar sozinho.

[Imagem: Artur Mas fotografado por Massimiliano Minocri, El País. Clique.]

Etiquetas: ,

terça-feira, Julho 29, 2014

A CASA DOS ANIMAIS DE LISBOA

 
Foi inaugurada ontem a Casa dos Animais de Lisboa, que substitui o tenebroso Canil-Gatil da Câmara. A nova provedora dos animais é a jurista Inês Real. A Casa dos Animais de Lisboa fica localizada na Estrada da Pimenteira, em Monsanto. As adopções fazem-se de segunda a sexta-feira das 09:30 às 16:30 (intervalo para almoço das 12:00 às 14:30), e aos sábados e domingos das 10:00 às 20:00, sem interrupção. A Casa dos Animais de Lisboa presta, gratuitamente, serviços e actos médicos, tais como esterilização, desparasitação, identificação electrónica e, sendo necessário, fornece medicação. A recolha domiciliária de animais com doença terminal é efectuada por solicitação do dono, o qual terá de apresentar atestado passado pelo médico veterinário que acompanhou o animal, solicitando e justificando o abate (este serviço é pago). O telefone da Casa é o 218 172 300. A aceitação de donativos é proibida. Clique nas imagens. Pode ler aqui o Manual de Procedimentos.

Etiquetas: , ,

sexta-feira, Julho 25, 2014

AMUSE-BOUCHE


No dia em que a Espírito Santo Financial Group pediu protecção de credores, Ricardo Salgado foi detido na sua casa de Cascais e levado para o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa onde esteve a ser ouvido durante oito horas. Saiu ao fim da tarde, com uma caução de três milhões de euros, indiciado por quatro crimes: burla, abuso de confiança, falsificação de documentos e branqueamento de capitais. (O caso Monte Branco, no qual foi ouvido como testemunha em Dezembro de 2012.) A venda a empresários angolanos de 67% do capital da ESCOM faz parte do pacote.

O que quer que Ricardo Salgado tenha feito para implodir o império da família, que representa 20% do PIB nacional, não fez sozinho. Os administradores das várias empresas do grupo, em Portugal, no Luxemburgo, na Suíça, no Panamá, em Angola, etc., bem como dezenas de altos quadros do BES, do Banque Privée (Lausanne), do BESA, da Rioforte, da cadeia de hotéis Tivoli, da Espírito Santo Saúde (Hospital da Luz, etc.), da Espírito Santo Viagens, da Comporta, etc., não devem poder alegar desconhecimento dos factos. Para já não falar de Granadeiro, que quinze dias antes da débâcle emprestou 900 milhões de euros à Rioforte, sabendo que o dinheiro ia pelo cano, como foi, virando do avesso o processo de fusão da PT com a brasileira Oi.

Sucede que o grosso dos factos continua envolto numa nebulosa. E Carlos Tavares, o presidente da CMVM, disse ontem no Parlamento, perante a Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública, ter apurado «abuso de informação privilegiada e eventual crime de infidelidade e abuso de confiança» no âmbito do Grupo, factos que comunicou ao Ministério Público. Porém, a cereja em cima do bolo foi a revelação de que a apresentação de contas do BES, marcada para o próximo dia 30, trará surpresas desagradáveis. As famosas imparidades vão provocar ondas de choque de consequências imprevisíveis. Ou seja: ainda vamos no amuse-bouche.

[Imagem: detalhe de foto de Giorgio Bordino, Expresso Diário. Clique.]

Etiquetas: , , ,

quinta-feira, Julho 24, 2014

PARA INGLÊS VER?


O banqueiro Ricardo Salgado foi detido hoje de manhã em sua casa, em Cascais, tendo chegado ao Tribunal de Instrução Criminal por volta das 10 horas. Está a ser ouvido no âmbito do processo Monte Branco, relacionado com branqueamento de capitais, e sobre a venda (em 2010) da ESCOM a empresários angolanos. Foi preciso esperar pela derrocada do Grupo Espírito Santo para que isto fosse possível. Vamos ter um caso Vale e Azevedo II?

[Imagem: foto de Nuno Fox, Expresso. Clique.]

Etiquetas: , , ,

MÁRIO DE CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Contos Vagabundos, de Mário de Carvalho (n. 1944). A presente edição inclui uma sequência de Fabulário. Por junto, vinte e oito textos que abarcam o largo espectro de harmónicas do autor. A verosimilhança das personagens faz deles um bestiário cruel da nossa contemporaneidade. Na melhor tradição da oralidade, um conto como “Uma vida toda empatada...” é um prodígio de acção, crónica de costumes e riqueza lexical. Tomando como pretexto o target popular adoptado pela televisão a partir do surgimento dos canais privados, temos, em dezassete páginas, o Portugal dos anos 1990. Está lá tudo: concorrência selvagem num mercado escasso, primeiros sinais de deslaçamento dos direitos sociais, o fim das ilusões e a deriva mimética como boia de salvação: «Os anos passaram, Lurdes regressou, superou a mágoa d’A Lota e aperfeiçoou entretanto uma pronúncia nasalada, própria dum sociolecto de ricaços festivos, que se pratica nos arredores de Lisboa. Tinha-lhe sobrado tempo para treinar.» A nitidez do retrato só surpreenderá quem andou distraído. Num efeito de duplo reconhecimento, muitos profissionais dos media podem dizer, hoje, “Lurdes Barbosa sou eu”. Ao contrário do romance, o conto não se detém em grandes pausas descritivas. E, para um autor, nem sempre é fácil encontrar o ponto de equilíbrio entre cadência prosódica e fôlego curto. Reside aí a sedução e dificuldade do formato. Não é forçoso que um grande romancista seja um contista de mérito (creio que o contrário se aproxima mais da realidade). Mário de Carvalho tem a crédito o à-vontade com que domina os dois géneros. Tenderia mesmo a dizer que encontra no conto o seu lugar por excelência.

Escrevo ainda sobre O Reino das Casuarinas, de José Luís Mendonça (n. 1955), autor que não faz parte do clube de autores angolanos com lugar cativo na edição portuguesa. Mendonça acompanhou a “construção” de Angola como país independente. Dito de outro modo: não ficcionou a partir da zona de conforto da cena literária internacional. O autor faz um tour d’horizon à luta emancipalista, ao regime de partido único, à presença dos militares cubanos no país, à dissensão no MPLA que provocou o golpe Nitista e às sequelas da guerra civil. O esboço cronológico orientará leitores menos versados no tema. A crueza dos factos (mulheres acusadas de feitiçaria que a UNITA queimou vivas, etc.) é servida por uma escrita limpa, sem floreados, capaz de prender o leitor da primeira à última página. Publicou a Caminho.

Etiquetas: ,