sexta-feira, janeiro 30, 2015

ROLETA RUSSA


Yanis Varoufakis, o homem que deixou a docência na Universidade do Texas para ser ministro das Finanças, começa este fim-de-semana um tour para explicar o que pretende a Grécia fazer para sair do buraco onde a meteram. Começa por Londres, embora o Reino Unido não faça parte da Zona Euro, seguindo da capital britânica para Paris e Roma. Não vai a Berlim. Jeroen Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo, está hoje em Atenas. Entretanto, Putin fez saber que a Rússia está disposta a ajudar a Grécia. Obama telefonou. E Pequim quer saber com o que conta (empresas chinesas estão envolvidas nas privatizações que o novo governo bloqueou). Entretanto, Tsipras, que anteontem não deixou a Grécia subscrever o novo pacote de sanções à Rússia, joga um jogo arriscado. No ponto a que as coisas chegaram, parece o caminho óbvio. Não preciso de explicar o simbolismo da imagem, presumo.

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quinta-feira, janeiro 29, 2015

MARIA TERESA HORTA


Hoje na Sábado escrevo sobre três livros. Resumos:

Meninas, colectânea de trinta e dois contos e um poema de Maria Teresa Horta (n. 1937). Um universo feminino que a autora molda com plasticidade e desassombro: «Estrela desobedecendo à voz enrouquecida, rolava para a beira do colchão, sabendo como ele a magoava, a rasgava, a sujava de esperma...» Estrela, a menina abusada pelo pai, ufano do crime: «Olha como sou grande e te encho toda! Confessa! Diz que gostas!» Até ao dia em que os salgueiros e os chorões vêem passar o seu corpo à deriva, «cabeça virada a esconder-se da vida». Crueza e lirismo. Mas nem sempre é assim. Por vezes, a brutalidade factual, a crua realidade, dá lugar à pura efabulação, como em Desobediência, a história de uma menina apostada em desobedecer. Noutro registo, Azul-Cobalto é um exercício de perversidade: a outra não dava por ela. Talvez por isso a devesse ter matado: «Devia tê-la afogado no banho.» Ao invés do que sucede noutros textos, a carga sexual dilui-se na descrição preciosista do corpo desejado: «No púbis punha uma gota de essência almiscarada...» Ecos dos anos 1920? O penúltimo conto, Sem Culpa, recria uma personagem de Clarice Lispector. O texto intercala citações da própria Lispector e da monja beneditina Hildegarda de Bingen, poetisa e teóloga alemã. Hildegarda surge como comparsa da história de Rute: «A criança que nela se anula talvez hesite, mas a mulher que já cresce no seu corpo vence-a...» Uma ousadia e tanto. Mas a autora nunca foi mulher de meias-tintas.

Poesia Presente, de António Ramos Rosa (1924-2013), antologia organizada por Maria Filipe Ramos Rosa. O volume acolhe poemas de cinquenta e três livros, publicados entre 1958 e 2013. Tarefa ingrata, sabendo-se que a obra poética ronda os oitenta títulos. Uma certeza: o rigor é a melhor homenagem ao autor. No prefácio, a partir do binómio anti-Pessoa versus anti-Herberto, José Tolentino Mendonça sublinha que Ramos Rosa «emerge como figura disruptiva na paisagem portuguesa entre séculos.» Por último mas não em último, Poesia Presente permite a leitores jovens (a quem Ramos Rosa surge tão remoto como Gomes Leal ou Guerra Junqueiro) ler poemas emblemáticos do século XX: O Boi da Paciência, de 1958, e A Mulher, de 1986, são dois bons exemplos. Publicou a Assírio & Alvim.

70% acrílico 30% lã da italiana Viola Di Grado (n. 1987), livro que recebeu em 2011 o Prémio Campiello na categoria Primeira Obra. A narrativa segue o padrão da linha de montagem transnacional, a jeito para a tradução em língua inglesa. Dito de outro modo, fraca ambição e oficina medíocre.  A autora centra a acção no West Yorkshire, tornando plausível o imaginário multicultural: «Leeds era o nó purulento de um corpo imenso e ofuscante...» Faz frio, a mãe está velha e os ideogramas chineses dão para tudo. Na Campânia não seria a mesma coisa. São muitas as frases que não fazem sentido: «E alto risco de efeito colateral amor eterno correspondido». A escrita automática (anos 1910) foi chão que deu uvas. Por outro lado, com o serem um empecilho, os adjectivos roçam o kisch: «luz porno do anoitecer [...] nuvens carnosas...» Nem o sexo escapa. Jimmy ejacula para o «quadrado ideal do azulejo azul», depois de, «com a sua língua lenta», comer «as pernas e as coxas» da narradora. Quem diz sexo, diz gourmandise: «um restaurante de Pequim que só serve pénis [...] o prato forte deles é o suco de pénis de veado.» E assim sucessivamene. É pena, porque o primeiro parágrafo do livro promete. Publicou a Sextante.

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terça-feira, janeiro 27, 2015

JOSÉ FREIRE ANTUNES 1954-2015


Morreu ontem em Versalhes o historiador José Freire Antunes. Tinha feito 61 anos na véspera. Fez o tradicional percurso do MRPP para o PSD: adjunto de Cavaco Silva entre 1988-1993 e deputado entre 2005-2009. Durante alguns anos foi bolseiro da Gulbenkian em Columbia (NYC). Investigador de História Contemporânea, deixa uma obra de mais de vinte títulos sobre temas tão diversos como Sidónio Pais e a Primeira República, a posição de Portugal no contexto da Segunda Guerra Mundial, a luta dos Aliados pelos Açores, as divergências de Kennedy e Salazar, o marcelismo, a correspondência de Salazar e Caetano, a Guerra Colonial, Jorge Jardim e a descolonização de Moçambique, o 25 de Novembro, Sá-Carneiro e a AD, a política externa com Espanha e os Estados Unidos, a presença dos judeus no nosso país, a Opus Dei em Portugal, uma biografia de Champalimaud, etc. É altura de reeditar alguns destes livros. Freire Antunes vivia em França desde 2010. Não foi revelada a causa da morte.

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PARA NÃO ESQUECERMOS


A RTP passa hoje (23:30) Night Will Fall, o documentário que Andre Singer fez no ano passado a partir das imagens que Alfred Hitchcock e Sidney Bernstein obtiveram em 1945 quando o exército russo entrou em Auschwitz, na Polónia. Night Will Fall, traduzido por A Noite Cairá, é narrado por Helena Bonham Carter e tem a duração de 75 minutos. Produção HBO. Impróprio para espíritos sensíveis.

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segunda-feira, janeiro 26, 2015

SEM A IGREJA


Antes de ser nomeado primeiro-ministro pelo presidente Papoulias, acto que a imagem ilustra, Tsipras encontrou-se com o Arcebispo Ortodoxo de Atenas a quem comunicou que não prestaria juramento religioso, o que acontece pela primeira vez na Grécia. O governo toma posse amanhã.

[Imagem: Papoulias e Tsipras fotografados por Simela Pantzartzi. Clique.]

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PRIMEIRO MANHATTAN, DEPOIS BERLIM


Tsipras tenciona prestar juramento ainda hoje e anunciar amanhã a constituição do Governo, que poderá incluir ministros indicados por Panos Kammenos, líder dos Gregos Independentes. Juntos, os dois partidos ocupam 162 lugares no Parlamento. O primeiro grande teste será a eleição do novo Presidente da República.

[Imagem: Tsipras fotografado ontem por Konstantinos Tsakalidis. Clique.]

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DESATAR O NÓ


Ao eleger 99 deputados, mais 28 do que em 2012, o Syriza, como partido mais votado, obteve o bónus constitucional de 50 deputados. Chegamos assim aos 149 deputados. Depois de mergulhar a Grécia num inferno, a Nova Democracia perdeu apenas 3 deputados. O KKE, comunista de linha dura, elegeu 15, mais três do que em 2012. O PASOK, que obteve maioria absoluta nas eleições de 1981, 1985, 1993, 1996, 2000 e 2007 (sendo o partido mais votado nas eleições intermédias), ficou reduzido a 13 deputados, menos 20 do que em 2012. Parece óbvia a transferência de votos do PASOK para o Syriza. Os Gregos Independentes, que defendem a saída da UE, perderam 7 deputados, enquanto os neo-nazis do Aurora Dourada apenas perderam um. O liberal To Potami, partido pró-UE fundado no ano passado, sem representação parlamentar em Atenas (mas com eurodeputados), conseguiu eleger 17. Por seu turno, a Esquerda Democrática, que tinha 17 deputados, agora não elegeu nenhum. O PASOK declarou ir apoiar no Parlamento um governo chefiado por Tsipras. O primeiro teste vai ser a eleição do Presidente da República.

[Infografia: Público. Clique.]

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sábado, janeiro 24, 2015

SINTOMÁTICO


Havia duas vagas no Conselho de Estado. A de Vítor Bento, que foi fazer uma perninha ao Novo Banco, e a de António José Seguro, que deixou de ser secretário-geral do PS em Setembro do ano passado. Ontem, Bento regressou. Mas Seguro vai ser substituído por Alfredo Bruto da Costa. Não tenho nada contra o antigo ministro de Pintasilgo, mas o facto de Seguro não ter sido substituído por António Costa, secretário-geral do PS e líder da Oposição, ilustra bem o Estado a que isto chegou.

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CHAMAR OS NOMES AOS BOIS


O meu país está em guerra  —  Quem o diz é Rena Dourou, número dois do Syriza e governadora de Ática (a área metropolitana que inclui Atenas), cargo para o qual foi eleita no ano passado com 51% dos votos. Para quem não sabe, Ática é maior que Malta e o Liechtenstein. Amanhã saberemos se a Grécia impõe o armistício a Berlim.

[Imagem: Rena Dourou fotografada por Robert Geiss em Maio de 2014. Clique.]

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sexta-feira, janeiro 23, 2015

A VIDA COMO ELA É


O Governo já tirou as consequências?
A imagem foi roubada à Shynogud. Clique.

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quinta-feira, janeiro 22, 2015

KARL OVE KNAUSGARD


Hoje na Sábado escrevo sobre A Morte do Pai, do norueguês Karl Ove Knausgard (n. 1968). Trata-se do primeiro tomo da saga autobiográfica A Minha Luta, dividida em seis volumes. O livro provocou ondas de choque na imprensa norueguesa e na família do autor, dando azo a processos judiciais, o que não deixa de espantar, atenta a tradição nórdica de racionalismo. Mas a família não gostou de ver as feridas expostas a céu aberto e o sucesso de vendas reflectiu o estupor provocado pelo escândalo. O mais extraordinário é que nada disto é novo na literatura europeia. Basta pensar em Elena Ferrante para avaliar quão moderada é a catarse de Knausgard. Lá onde a contenção daria ênfase à secura das revelações, o estilo palavroso é um sério óbice. Sabotando aqui e ali as regras particulares do romance de formação, o autor-narrador transforma A Morte do Pai num exercício intertextual. Knausgard não esconde o fascínio por Proust, mas a fasquia é demasiado alta: o artifício de encher dezenas de páginas para descrever o que cabe num parágrafo, não colhe. Os saltos cronológicos são irrelevantes, e o patchwork genológico (memórias, ensaio e ficção) tem fôlego curto. Por outro lado, invocar a ética para questionar um autor que achou chegado o momento de escrever sobre a forma como o carácter tirânico e o alcoolismo do pai marcaram a sua adolescência, releva de um puritanismo fora do tempo. O que haveria então a dizer sobre Edward St Aubyn, que utiliza um grau de corrosão muitíssimo mais acentuado nos cinco volumes da série Melrose, na qual expõe todos os interditos de uma família das classes altas (a sua), incluindo o facto ter sido repetidamente violado pelo próprio pai entre os 5 e os 8 anos de idade. Em confronto com a série de St Aubyn, este primeiro volume da “luta” de Knausgard soa deveras paroquial. Deixo de lado os envios literários, saco sem fundo onde cabem Adorno, Benjamin, Derrida, Lacan e mais uns quantos: «A literatura modernista, com todo o seu vasto aparato, era um instrumento, uma forma de conhecimento [que me tornou] mais rico em intuições e sentimentos.» Não chega para que A Morte do Pai ultrapasse a mera competência narrativa.

Escrevo ainda sobre Não se encontra o que se procura, de Miguel Sousa Tavares (n. 1950), volume de textos avulsos: diário, relato de viagens, crónica, reflexões pessoais, gastronomia e um perfil de Churchill que destoa do conjunto. Editou o Clube do Autor.

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SEM COMPLEXOS


Isto não é uma fotomontagem. Felipe VI, rei de Espanha, ocupa a capa do número mais recente da revista gay espanhola Ragap. A Casa Real não levantou qualquer obstáculo. Clique na imagem.

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O MILAGRE DAS ROSAS


É hoje que Draghi explica o milagre das rosas. A emissão de moeda no montante de 50 mil milhões de euros por mês, durante 24 meses, pode significar (mas nada garante que seja) um estímulo à economia. Quanto se sabe, o BCE tenciona comprar tranches de dívida dos bancos dos países da zona euro. Em tese, livres de parte significativa dos seus passivos, esses bancos ficariam em condições de conceder maior volume de crédito às economias nacionais. Mas também podem por optar por refinar a doutrina BES. Os mercados dirão. Uma coisa parece certa: não se trata de melhorar a vida das pessoas, mas de facilitar a vida aos banqueiros.

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terça-feira, janeiro 20, 2015

ANDREI VYSHINSKY NÃO FARIA MELHOR


O que se passou ontem no Jornal da Noite da SIC foi um absurdo. Vamos ficar por absurdo para não lhe chamar outra coisa. A estação convidou João Araújo, advogado de Sócrates, para falar em directo. E Rodrigo Guedes de Carvalho, pivô do Jornal da Noite, visivelmente irritado, sem disfarçar o desdém pelo advogado do antigo primeiro-ministro, acusou João Araújo de emitir opiniões pessoais. É suposto um jornalista ter interesse em conhecer (e divulgar) a opinião pessoal do entrevistado. O que estava em pauta naquele momento era o ponto de vista de João Araújo. A opinião da Elvira Mangalho ou do José dos Anzóis não tinham lugar ali.

Mas aconteceu pior. João Araújo afirmou: É a primeira vez que um jornalista põe o nome às fugas, fazendo notar que aquilo a que se convencionou chamar “fugas” mais não é do que transmissão de dados a partir do Ministério Público. Referia-se ao editorial de Afonso Camões, director do Jornal de Notícias, ontem publicado, sobre uma reunião havida na Procuradoria-Geral da República, entre ele (Camões), Joana Marques Vidal e o director-coordenador do DCIAP. Dispondo-se João Araújo a sublinhar a gravidade do que estava em causa, Rodrigo Guedes de Carvalho despachou o item com displicência: Isso é lá entre eles.

Num país a sério, o editorial de Afonso Camões não teria deixado pedra sobre pedra. Um brevíssimo excerto:

«[...] É verdade: disse-me um jornalista do grupo empresarial da Coisa que a prisão de Sócrates estava iminente. [...] Ele deveria ter publicado a informação, que lhe veio, disse-me depois, por um seu camarada, diretamente da investigação, liderada pelo juiz Carlos Alexandre e pelo procurador Rosário Teixeira. Erro maior, criminoso, é ser verdade essa possibilidade: que a fuga de informação veio dos agentes da justiça, ou seja, de onde menos podemos admitir que se cometam crimes de violação do segredo de justiça. [...]»

Todavia, a prioridade da SIC era o cachecol do Benfica.

Sobra uma curiosidade. Sentado à mesma mesa, Miguel Sousa Tavares ignorou a entrevista de João Araújo. Por que seria? Não se compreende que, em assunto de tal melindre, um jornalista com o perfil de Sousa Tavares tenha feito o seu comentário semanal como se João Araújo não tivesse dito o que disse à sua frente.

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sexta-feira, janeiro 16, 2015

ESQUIZOFRENIA?


Foi ontem aprovado em Conselho de Ministros o caderno de encargos da privatização de 66% do capital da TAP. Os media citam medidas avulsas do referido caderno mas, aparentemente, ninguém parece interessado na divulgação integral do seu conteúdo. O PCP já requereu o envio do documento ao Parlamento.

Segundo um despacho da Lusa, o vencedor do concurso ficaria impedido, durante cinco anos, de efectuar despedimentos na TAP. Mas essa discriminação positiva apenas abrange os cerca de três mil associados dos nove sindicatos que chegaram a acordo com o Governo. Por junto, a empresa terá dez mil trabalhadores, das quais 40% não fazem parte de nenhum sindicato.

Se isto (a intenção de salvaguarda dos interesses de alguns trabalhadores em detrimento de outros) for verdade, estaremos perante uma de três situações:

1. Violação flagrante de vários artigos da Constituição, em particular o 13.º, o 26.º e o 55.º;
2. Um deslize processual de intenção abstrusa;
3. O descaso com que o Governo actua face à Constituição.

Convinha portanto tornar público o caderno de encargos em apreço. Se o arbítrio vier exarado em letra de forma, os tribunais têm uma palavra a dizer.

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quinta-feira, janeiro 15, 2015

ANTÓNIO DE SOUZA-CARDOSO


Hoje na Sábado escrevo sobre Por Amor de Deus, de António de Souza-Cardoso. Como sublinha Rui Zink no prefácio, trata-se da «cartografia de uma visão do mundo». Parte da acção decorre em Moçambique, cuja independência ocorreu em Junho de 1975, e não «em Setembro desse ano», como vem escrito. O erro não é despiciendo, porque o narrador disserta sobre a história da Frelimo, a descolonização, a distribuição das etnias, o tribalismo, as sequelas da guerra, etc. Dirão alguns que Por Amor de Deus não é um livro de História, é apenas um romance. Mas a história de Mateus, o protagonista, é contada de forma realista, exacta na enumeração de factos. Que Sartre, Cesariny e O’Neill surjam como tema de conserva de um ágape, lá onde Maurras faria sentido, é uma vénia à ironia. O epílogo salta para 2018, com o colapso da União Europeia, a Catalunha independente e a China em guerra civil.

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quarta-feira, janeiro 14, 2015

A NOVA RTP


Muita gente esqueceu, mas uma das grandes bandeiras do PSD era a privatização da RTP. Relvas foi o rosto dessa tranquibérnia. A entrada em cena de Miguel Poiares Maduro alterou o status quo no momento em que conseguiu fazer aprovar um Conselho Geral Independente para tutelar a estação pública à revelia de interferências do Governo. Mero pro forma, dizia-se à boca cheia.

Porém, há um mês, ao chumbar o projecto estratégico de Alberto da Ponte, o CGI fez cair a administração nomeada por Relvas. De início, o PSD aguentou o choque. Em tempo de vacas magras, os milhões gastos na aquisição dos direitos da Liga dos Campeões eram um excelente álibi para tirar de lá o homem das cervejas.

Eis senão quando o CGI decide escolher Gonçalo Reis para presidir à nova administração e Nuno Artur Silva para ‘mandar’ nos conteúdos. As ondas de choque ameaçam estilhaçar os vidros do edifício da Marechal Gomes da Costa, a nomenklatura do PSD entrou em estado catatónico e, sem surpresa, a imprensa tablóide começou o trabalho de sapa. A Firma não dorme.

[Imagem: Nuno Artur Silva fotografado por Nuno Ferreira Santos, para o Público. Clique.]

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segunda-feira, janeiro 12, 2015

LA FRANCE DANS LA RUE

 
Em Paris, um milhão e meio de pessoas foi da Repúblique à Nation: Terroriste, t’es foutu, la France est dans la rue. No resto da França, mais dois milhões disseram não à barbárie. Netanyahu, Abbas e a rainha da Jordânia estiveram na primeira fila. Curioso alinhamento: Samaras, Rajoy, Cameron, a senhora Thorning-Schmidt, Hidalgo, Juncker, o primeiro-ministro de Israel, o Presidente do Mali, Hollande, Merkel, Tusk, Abbas, Rania al-Abdullah. A Rússia ainda mandou Lavrov, mas os Estados Unidos fizeram-se representar por um funcionário de segunda linha.

Contudo, será em Washington (e não em Paris ou Berlim) que a Europa irá decidir, no próximo dia 18, como controlar as suas fronteiras. Dito de outro modo, como acabar de vez com o espaço Schengen. A reunião dos ministros do Interior da UE, marcada para a próxima sexta-feira, é para inglês ver. Hollande, com a propensão que tem para a gaffe, acabou o dia na Sinagoga de Paris ao lado de Netanyahu. Como se os reféns assassinados (François-Michel Saada, Philippe Braham, Yoav Hattab e Yohan Choen) no supermercado kosher da Porte de Vincennes fossem uma adenda da Marcha. A foto é do El País. Clique.

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sexta-feira, janeiro 09, 2015

PONTO DE NÃO RETORNO

 
Tropas de elite entraram na tipografia de Dammartin-en-Goële onde estavam barricados os irmãos Kouachi. Foram ambos abatidos (e o refém libertado). Entretanto, em Paris, na Porte de Vincennes, prossegue o cerco ao supermercado Kosher onde foram feitos cinco reféns. O principal suspeito é Amedy Coulibaly. Imagem do Libération. Clique.

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quinta-feira, janeiro 08, 2015

GEORGE STEINER

 
Hoje na Sábado escrevo sobre Extraterritorial, de George Steiner (n. 1929). Como quase toda a gente sabe, Steiner, para quem a literatura é parte de um todo mais vasto, criou um corpus de eleição e não cessa de o dissecar. Borges e Nabokov são exemplos fétiche. Nunca mais foram os mesmos desde que os lemos pelos seus olhos. Mas também Oscar Wilde, considerado sob vários ângulos «uma das autênticas fontes do espírito moderno.» Por outro lado, o carácter multilingue das obras de Pound, Beckett, etc., merece páginas decisivas, sendo curiosa a relação estabelecida com o facto de Nabokov passar de uma língua a outra «como um turista milionário», circunstância que explicaria o tema do incesto. Ler Steiner é ouvir o turbilhão de um pensamento ágil, articulado nas suas mais subtis harmónicas. Sempre admirável.

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quarta-feira, janeiro 07, 2015

CHARLIE HEBDO

 
Stéphane Charbonnier, ao alto na imagem, director do Charlie Hebdo, é uma das doze vítimas mortais do ataque ao jornal. Charbonnier também era cartunista, nessa qualidade assinando Charb. O economista Bernard Maris, que assinava as suas crónicas com o pseudónimo de Oncle Bernard, bem como os cartunistas Cabu, Wolinski e Tignous, também foram abatidos. Quinze minutos antes da matança, o jornal tinha publicado no twitter uma caricatura do «Estado Islâmico». A França entrou em estupor.

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CARNIFICINA

 
Esta manhã, em Paris. A imagem é do Libération. Clique.

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terça-feira, janeiro 06, 2015

E VAI MAIS UM

 
A lei estava aprovada desde o ano passado, mas só hoje entrou em vigor na Flórida, tendo-se realizado já os primeiros casamentos entre pessoas do mesmo sexo. A Flórida junta-se assim aos Estados americanos do Alaska, Arizona, Califórnia, Colorado, Connecticut, Delaware, Hawaii, Idaho, Illinois, Indiana, Iowa, Maine, Maryland, Massachusetts, Minnesota, Nevada, New Hampshire, New Jersey, New Mexico, Nova Iorque, North Carolina, Oklahoma, Oregon, Pennsylvania, Rhode Island, Utah, Vermont, Virginia, Washington (não confundir com Washington DC) e West Virginia, mais doze nações índias, dezanove cidades do Kansas, e a capital do Missouri. Na Carolina do Sul a lei também foi aprovada, mas ainda não entrou em vigor. A imagem mostra os dois primeiros casais a dar o nó. Clique.

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TWILIGHT ZONE

 
Com Santana, mesmo discordando, estamos no domínio da política. A cena do bebé na incubadora a quem «os irmãos mais velhos dão uns estalos e uns pontapés...» foi um acto falhado, mas continuo a achar que, malgré a pose (e o cherne), Durão Barroso governou muito pior. Com o doutor Nobre estamos no vórtice da twilight zone. As pessoas não aprendem? A imagem é do jornal i. Clique.

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segunda-feira, janeiro 05, 2015

O CISMA DE BELÉM

 
Santana avança em Março, com ou sem luz-verde da direcção do PSD. O busílis é estar com dificuldade em perceber o óbvio: o seu adversário não será Marcelo, mas Marinho Pinto. A imagem é do Diário de Notícias.

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domingo, janeiro 04, 2015

GUTS


Thomas Piketty, 43 anos, normalien, economista, director da École des Hautes Études en Sciences Sociales, autor de O Capital no século XXI, recusa receber a Légion d’Honneur, argumentando que não cabe ao Estado decidir quem é honorável. Não gostou de ver o seu nome na lista do Jornal Oficial e reagiu em conformidade, em declarações ao Le Monde:

«C’est un peu dommage qu’ils ne m’aient pas contacté avant, ça aurait évité tout ce pataquès. Ils ont l’air de ne pas être contents que je réagisse le 1er janvier. En même temps, c’est eux qui publient mon nom dans le Journal officiel sans m’en dire un mot avant. Le plus simple aurait été un mail, un SMS, un coup de fil… Je leur aurais tout de suite dit que je n’en voulais pas. Et, franchement, ça n’a rien à voir avec l’opinion que je peux avoir de ce gouvernement. Cette façon de décider qui est le petit groupe de citoyens honorables, dont les mérites éclatants doivent être reconnus, c’est une conception du rôle de l’Etat, du gouvernement, qui me semble totalement surannée. J’assume totalement ce que je pense de ce gouvernement, dont l’action ces deux dernières années a été catastrophique, et je n’ai pas besoin d’une Légion d’honneur pour le dire ou pour l’écrire

[Imagem: foto de Pablo Garrigós, 2014. Clique.]

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sábado, janeiro 03, 2015

CITAÇÃO, 510


Sócrates respondeu ontem à noite a seis perguntas da TVI. Fica aqui o texto introdutório, assinado pelo antigo primeiro-ministro. Sublinhados meus:

«Dou esta entrevista em legítima defesa. Em legítima defesa contra a sistemática e criminosa violação do segredo de justiça; e contra a divulgação de “informações” manipuladas, falsas e difamatórias. Em legítima defesa contra a transferência do julgamento para uma praça pública onde só pode fazer-se ouvir uma voz e onde só pode circular livremente uma versão deturpada das coisas. Em legítima defesa contra uma agressão feita cobardemente, a coberto do anonimato, como é típico dos aparelhos burocráticos onde reina o “governo de ninguém”  —   “ninguém” o exerce, “ninguém” presta contas.

Esse poder obscuro é puro arbítrio e despotismo: impunidade absoluta, limitação infundada e desproporcionada de direitos fundamentais, segredo imposto apenas à defesa, proibição de entrevistas, impossibilidade de contraditório, condenação antes de qualquer julgamento, sanção antes de qualquer sentença. Este poder, quero crer, não durará. É precário como todos os poderes assentes no medo e sobreviverá apenas até à plena tomada de consciência do perigo que representa para o processo penal justo, fundamento primeiro do Estado de Direito.

No que me diz respeito, responsabilizo directamente os que, tendo o processo à sua guarda, não o guardaram como deviam. Como está à vista de todos, não estiveram à altura das suas responsabilidades e não fizeram bem o seu trabalho. O que não me deixa outra alternativa senão fazer tudo o que estiver ao meu alcance para defender a minha honra e o meu bom nome.

Faço-o aqui, respondendo às perguntas que me foram entregues através do meu advogado, porque foram as primeiras a chegar. Lamento que o jornal Expresso, com o qual combinei uma entrevista, tenha decidido publicar as suas perguntas (antes mesmo de eu as conhecer) desacompanhadas das respectivas respostas. Mas que fique claro: não deixarei nenhuma pergunta assim, a pairar no ar acrescentando dúvidas sem obter a devida resposta

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quarta-feira, dezembro 31, 2014

LUISE RAINER 1910-2014


A dez dias de completar 105 anos, morreu ontem Luise Rainer, a alemã que ganhou dois óscares consecutivos de melhor actriz: em 1936 e 1937, com 26 e 27 anos, respectivamente. De origem judaica, nascida em Düsseldorf mas educada em Viena, actuou sob direcção de Max Reinhardt e participou dos círculos intelectuais da República de Weimar antes de emigrar para os Estados Unidos. Entre 1932 e 1943 protagonizou doze filmes, reaparecendo em The Gambler (1997) depois de uma ausência de 54 anos. No auge da fama, bateu com a porta de Hollywood após ter sido substituída, sem explicações, por Greta Garbo em Camille (1936), Vivien Leigh em E Tudo o Vento Levou (1939) e Ingrid Bergman em Por Quem os Sinos Dobram (1943). Os três filmes estavam-lhe destinados. Mulher de esquerda, apoiante declarada da causa anti-franquista, retirou-se para Inglaterra (onde fez teatro) depois de uma temporada em Nova Iorque. Vivia em Londres, onde aos 104 anos não resistiu a uma pneumonia.

[Imagem: foto de John Springer, 1935. Clique.]

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