sexta-feira, março 06, 2015

CITAÇÃO, 517


Joaquim Vieira, ontem na Antena 1. Sublinhados meus:

«Portugal conheceu nos últimos dias um Pedro Passos Coelho diferente daquele a que se habituara nos últimos quatro anos. Já não é o Passos Coelho do rigor, da intransigência, dos princípios inflexíveis, da disciplina sem exceção, da execução de um programa custe o que custar, da ultrapassagem da troika, do imperioso empobrecimento da população, do abandono da zona de conforto, da exigência fiscal, da cobrança coerciva de impostos, do agravamento das multas aos prevaricadores, da perseguição aos incumpridores e aos distraídos.

Agora temos o Passos Coelho que não é perfeito, que foge à observância das suas obrigações para com o Estado, que se esqueceu de pagar ou julgou que era facultativo, que nisso foi reincidente sem contrição, que vai a correr liquidar dívidas antigas só devido à ameaça da sua divulgação pública, que acha tudo isso normal e não censurável, o Passos Coelho um pouco videirinho, sem carreira profissional digna de nota fora da política, a gerir uma empresa para receber fundos europeus pagando uma formação inexistente, a viver de expedientes para compor um orçamento confortável, que recebeu um vencimento disfarçado em despesas de representação, ao mesmo tempo que se declarava deputado exclusivo para garantir o subsídio do erário público.

Por estranho que pareça, é o mesmo Pedro Passos Coelho, dr. Jeckyll e mr. Hyde, que ora é uma coisa, ora é outra, sem que os portugueses percebam onde está a sua verdadeira personalidade. Diz-se que a política não deve ser feita com base em julgamentos morais, mas que dizer quando o maior de todos os moralistas é afinal o mesmo que anos a fio fugiu aos deveres cujo cumprimento a todos exige?

Passos Coelho fez do acatamento das obrigações fiscais um dos pilares da sua política enquanto primeiro-ministro, mas agora vem explicar aos portugueses que não há mal nenhum em não pagar ao Estado e só o fazer quando, eventualmente, se for apanhado.

De um passado obscuro, emergiu o dr. Jeckyll que parece querer matar o Mr. Hyde. Nenhum deles merece governar, porque os Portugueses não merecem um governante assim

[Imagem: Spencer Tracy em Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1941. Clique.]

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quinta-feira, março 05, 2015

NÉLIDA PIÑON


Hoje na Sábado escrevo sobre A República dos Sonhos, de Nélida Piñon (n. 1937), brasileira de origem galega, traduzida em mais de vinte países, que não tem tido em Portugal a recepção crítica que merece. Autora de romances, contos, ensaios, crónicas e volumes de memórias, membro da Academia Brasileira de Letras desde 1989, Nélida recebeu no Brasil todos os prémios que havia para receber, e outros de âmbito internacional, entre eles o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras, que em 2005 “roubou” a Philip Roth (que só o recebeu em 2012). Nenhum outro autor de língua portuguesa obteve a distinção. O romance ilustra a saga da construção do Brasil moderno. Dito de outro modo, põe em pauta a geração que cresceu do outro lado do Atlântico durante e após a Segunda Guerra Mundial. Nélida fixa um período concreto da história brasileira, observado sob perspectiva feminina, ou seja, pondo o acento tónico no papel da mulher como sujeito da História. Nenhum resquício de complacência ou ambiguidade. Nélida dispensa etiqueta de género. O título remete para as esperanças desencadeadas pela revolução que pôs termo à República Velha (1889-1930). Não obstante o rigor factual da narrativa, incorporando responsáveis políticos como Getúlio, Médici, Geisel, Figueiredo, etc., A República dos Sonhos extravasa o protocolo do romance histórico. Em grande angular, o plot dá voz a vários segmentos da população, em particular as mulheres (o papel de Nélida na defesa dos seus direitos tem sido internacionalmente reconhecido), os imigrantes, as vítimas da ditadura militar, os intelectuais forçados ao exílio: «Quem vai no futuro responder pelos que morreram em nome deste suposto desenvolvimento?» Limpa de excrescências, a trama flui sem ênfase, mantendo a coerência interna lá onde a deriva existencial podia servir de álibi. Manipulando tempo e espaço, a acção ocorre tanto no Rio de Janeiro como em Santiago de Compostela. Um grande autor tem esse privilégio.

Escrevo ainda sobre Última semana, do poeta inglês Hugo Williams (n. 1942), em tradução de Pedro Mexia. A colectânea abrange o conjunto da poesia do autor: Collected Poems (2002), Dear Room (2006), West End Final (2009) e I Knew the Bride (2014). Diria que é nos poemas confessionais, em especial os publicados entre 1985 e 2006, que lemos o Williams vintage. Editou a Tinta da China.

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CITAÇÃO, 516


Sócrates em carta enviada ao Diário de Notícias. Excertos:

«Ao atacar um adversário político que está na prisão a defender-se de imputações injustas, o senhor primeiro-ministro não se limita a confirmar que não é um cidadão perfeito, antes revela o seu carácter e o quanto está próximo da miséria moral. Num momento desesperado face às acusações de incumprimento das suas obrigações contributivas [...] não resistiu a trazer para a campanha eleitoral o processo em que fui envolvido. Em vez de atirar lama para cima dos outros, faria melhor em explicar aos portugueses se ele próprio cumpriu ou não cumpriu a lei. É um cobarde ataque pessoal

Clique na imagem para ler melhor.

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quarta-feira, março 04, 2015

A PROCISSÃO VAI NO ADRO?


No dia em que o PSD e o CDS chumbaram as nove perguntas do PS sobre as contribuições de Passos Coelho à Segurança Social, entre 1999 e 2004, o Expresso Diário revela a existência de processos de execução fiscal instruídos entre 2003 e 2007, envolvendo o actual primeiro-ministro.

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TOP 15 DA MISÉRIA


Conjugando dois parâmetros (a taxa de desemprego com o índice da inflação), a Bloomberg analisou as economias de 51 países. À cabeça, os mais miseráveis são: Venezuela, Argentina, África do Sul, Ucrânia, Grécia, Espanha, Rússia, Croácia, Turquia, Portugal, Itália, Colômbia, Brasil, Eslováquia e Indonésia. Notar que o nosso país ocupa a 10.ª posição.

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sábado, fevereiro 28, 2015

CITAÇÃO, 515


Ferreira Fernandes, hoje no Diário de Notícias. Excerto:

«[...] Se calhar, António Costa devia fazer um discurso à Ano do Macaco. Astuto, manhoso: ‘Então, vocês investiram na EDP, num país que se tornou um beco escuro?!’ Seria respeitado cá fora. A plateia é que não percebia

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quinta-feira, fevereiro 26, 2015

MAAJID NAWAZ


Hoje na Sábado escrevo sobre Radical, de Maajid Nawaz (n. 1978), o britânico de origem paquistanesa que durante catorze anos foi militante activo do grupo terrorista Hizb al-Tahrir. Em suma, um «recrutador islamita global». Escrito em co-autoria com Tom Bromley, Radical explica como Nawaz foi recrutado (e como mais tarde recrutou outros e organizou a célula de Copenhaga), o que fez no Hizb al-Tahrir, como reagiu ao 11 de Setembro, a política do olho por olho, o que passou na prisão de Torah, a ingenuidade dos «liberais bem-intencionados», etc. Preso e torturado no Egipto, arrependeu-se, regressou a Inglaterra, acabou os estudos e divorciou-se da mulher muçulmana. Com dois antigos camaradas do Hizb al-Tahrir fundou em 2008 a Quiliam, um think tank anti-jihad com sede em Londres. Nick Clegg, líder dos Liberais Democratas, fez dele candidato do partido pelo círculo de Hampstead e Kilburn. Nawaz mantém-se muçulmano e tem uma namorada americana. Tudo visto, revelador e enfadonho.

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CITAÇÃO, 514


Freitas do Amaral a propósito do Caso Sócrates, ontem na Grande Entrevista da RTP, conduzida por Vítor Gonçalves. Excerto:

«O Ministério Público e o TIC estão a actuar como se estivessem em ditadura

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terça-feira, fevereiro 24, 2015

PODE LÁ SER..., 2


Olha que surpresa! Leia os detalhes no Público. Se clicar na imagem, fica com uma ideia.

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PODE LÁ SER...


Queriam o quê? Uma sala com acesso biométrico, reservada a magistrados e funcionários judiciários credenciados para manusear documentos em segredo de justiça? Isso é nas séries da HBO e, claro, nos países que se dão ao respeito. A imagem é do Diário de Notícias. Clique.

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domingo, fevereiro 22, 2015

LUCA RONCONI 1933-2015


Vítima de pneumonia, Luca Ronconi morreu ontem em Milão, ao princípio da noite, a poucos dias de completar 82 anos. Natural da Tunísia, onde viveu até ao fim da adolescência, Ronconi, actor e encenador, marcou a cena teatral (Shakespeare, Ariosto, Goldoni, Ibsen, Pasolini, O’Neill e outros) e operática italiana e europeia (Mozart, Wagner, Monteverdi, Bellini, Verdi, Britten e outros) desde a segunda metade dos anos 1950.

[Imagem: foto de Andrea Merola, 2012. Clique.]

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sexta-feira, fevereiro 20, 2015

TWILIGHT ZONE


Quem tiver memória, tem o assunto resolvido. Quem não tiver, pode consultar os jornais de 2011, em particular os de Março a Junho, entre o chumbo do PEC IV e a posse de Passos Coelho. A actual maioria tudo fez para precipitar o resgate, mote de campanha eleitoral. Em funções, o Governo repetiu várias vezes a necessidade de ir além da Troika, alargando por sua iniciativa o âmbito de aplicação do memorando original. Enquanto jornalistas embevecidos entrevistavam o dinamarquês Poul Thomsen como se ele fosse (na prática, era) o primeiro-ministro de Portugal, uma chusma de criaturas lambia com gosto o rabo dos funcionários da Comissão Europeia, do BCE e do FMI. Sem pudor, as televisões repetiram ad nauseam a imagem da delegação estrangeira a entrar no Parlamento. E vem agora Paulo Portas falar em vexame. A imagem é do Diário de Notícias. Clique.

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quinta-feira, fevereiro 19, 2015

CITAÇÃO, 513


Ferreira Fernandes, hoje no Diário de Notícias, a propósito das declarações de Schäuble sobre Portugal:

«Nada nos limpará da indignidade de nos terem passado a mão pelo pêlo e termos abanado o rabo

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A ESCOLHA DE TSIPRAS


A Grécia tem novo Presidente da República. Prokopis Pavlopoulos, 64 anos, militante da Nova Democracia, professor de Direito, antigo ministro do Interior (obrigado a demitir-se em 2008 quando um estudante de 18 anos foi morto pela polícia), foi a escolha de Tsipras. O Parlamento confirmou. Apoiado pelo Syriza, pela Nova Democracia e pelos Gregos Independentes, Pavlopoulos obteve a aprovação de 233 dos 300 deputados. A posse será no próximo 13 de Março.

[Imagem: Le Monde. Clique.]

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ELIF SHAFAK


Hoje na Sábado escrevo sobre A Bastarda de Istambul, de Elif Shafak, escritora turca nascida em 1971, em Estrasburgo. A identidade pode ser um empecilho. A autora é o caso-padrão dos filhos de diplomatas: cresceu em Madrid e Amã, depois em Istambul, viveu em Boston e outras cidades americanas, tem residência em Londres. Formada, nos Estados Unidos, em ciência política e estudos de género, nunca cortou os laços com a Turquia. Crítica do regime de Erdogan, tem-se distinguido na defesa dos direitos das minorias, em artigos que publica na imprensa anglo-americana e na turca. No livro mais recente, The Architect’s Apprentice (2014), recua ao século XVI para, através da figura de Mimar Sinan, o arquitecto cristão dos sultões otomanos, estabelecer um nexo de causalidade com equívocos que persistem na actualidade. É na área movediça das subculturas étnicas ou de género (em especial o feminismo) e, de modo mais lato, no multiculturalismo, que a obra assenta, saltando com à-vontade do sufismo para as “fracturas” da contemporaneidade. Elif Shafak acredita e defende que o Islão não é incompatível com os regimes democráticos. Ser muçulmano, diz ela, não colide com as liberdades individuais. A Primavera Árabe foi uma desilusão, mas não se pode desistir. Bestseller na Turquia, A Bastarda de Istambul levou a autora à barra do tribunal, acusada de «denegrir a identidade turca». Passou-se isto em 2006, tendo os juízes decretado que personagens do romance proferem heresias. Elif Shafak ousara tocar no ponto entre todos sensível do Genocídio Arménio. Escapou à prisão graças aos protestos internacionais. Nessa altura, ainda a Turquia sonhava entrar na UE. A narrativa apoia-se num patchwork de episódios por vezes desconexos. Se o retrato da família Kazanci está bem esgalhado, a Istambul de Elif Shafak não é a de Orhan Pamuk. O inesperado desfecho explica o passado.

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terça-feira, fevereiro 17, 2015

E AGORA?


No dia em que, por unanimidade, o Eurogrupo encostou a Grécia à parede, Varoufakis publicou um artigo no New York Times. Esta passagem é de meridiana clareza:

«I am often asked: What if the only way you can secure funding is to cross your red lines and accept measures that you consider to be part of the problem, rather than of its solution? Faithful to the principle that I have no right to bluff, my answer is: The lines that we have presented as red will not be crossed. Otherwise, they would not be truly red, but merely a bluff.»

Aqui chegados, resta esperar por sexta-feira. No próximo dia 20 saberemos se: a) O Governo Grego decide abandonar o euro, regressando ao dracma (a posição mais sensata, que podia ser decidida de forma unilateral ou mediante referendo prévio); b) O Syriza rasga o seu programa eleitoral, defraudando quem neles votou (mais os 10% que em Janeiro não votaram em Tsipras mas estão dispostos a fazê-lo em novas eleições); c) Os militares gregos provocam um golpe de Estado, como parecem pretender vários dirigentes da UE (as inqualificáveis declarações de Schäuble representam o tiro de partida). Fora destas hipóteses não encontro alternativas. Lembrar que, mesmo que a Grécia aceitasse o garrote da troika, a extensão do resgate teria de ser aprovada pelos Parlamentos de vários países.

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segunda-feira, fevereiro 16, 2015

FINN NORGAARD 1959-2015


A vítima mortal do atentado de sábado, em Copenhaga, durante o debate sobre arte & blasfémia organizado pelo cartoonista sueco Lars Vilks (o que desenhou Maomé como cão), debate em que participou François Zimeray, embaixador da França na capital dinamarquesa, não era um cidadão anónimo. Era o realizador dinamarquês Finn Nørgaard, de 55 anos.

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sexta-feira, fevereiro 13, 2015

DELGADO, 50 ANOS


Faz hoje 50 anos que Humberto Delgado foi assassinado pela PIDE em Villanueva del Fresno. Tinha então 58 anos. Salazar não esqueceu a frase proferida pelo general no café Chave d’Ouro — Obviamente, demito-o! Delgado, desde a primeira hora (1926) um homem do regime, ousara pôr em causa o Presidente do Conselho. Nada na biografia o apontava como hipotético opositor: autor de uma hagiografia do Estado Novo, Da Pulhice do Homo sapiens (1933); dirigente da Legião Portuguesa e da Mocidade Portuguesa; director-geral da Aviação Civil; procurador à Câmara Corporativa; adido militar em Washington, cidade onde viveu cinco anos; general desde 1952; chefe da Missão Militar portuguesa junto da NATO; detentor da Grã-Cruz da Ordem Militar de Avis, etc. Após as eleições de 1958, Delgado viu-se forçado a pedir asilo político na embaixada do Brasil em Lisboa. Demitido de todos os cargos oficiais, parte para o Brasil em 1959. No ano seguinte foi expulso das Forças Armadas. Mas nessa altura já ele era o rosto que a imprensa internacional reconhecia como chefe da oposição à ditadura. As dissensões de Argel (o general entrou em rota de colisão com os representantes do PCP no exterior) facilitaram o cerco montado pela PIDE. Assim chegamos ao 13 de Fevereiro de 1965, dia em que Delgado e a sua secretária pessoal Arajaryr Campos foram executados a poucos quilómetros de Badajoz. Quanto se sabe, o agente Casimiro Monteiro terá sido o autor material do crime. Em 1978, Silva Pais, o director da PIDE, disse em tribunal que Salazar e Santos Júnior, o ministro do Interior, haviam sido informados previamente da operação, embora a palavra “morte” nunca tenha sido pronunciada.

Logo à tarde há sessão evocativa no São Jorge. Clique na imagem.

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quinta-feira, fevereiro 12, 2015

LYDIA DAVIS


Hoje na Sábado escrevo sobre três livros. Resumos:

Não Posso nem Quero, de Lydia Davis (n. 1947), uma das vozes mais singulares da literatura americana contemporânea. Nesta colectânea de contos, Lydia parte de observações prosaicas para construir as suas histórias. A secura e brutalidade do quotidiano podem revestir a forma inesperada de um relatório, como acontece com Molly, Gata: Historial e Observações, cuja linearidade, sem resquício de emoção, enfatiza o sentido do trágico. Verdade que certos contos não os podemos considerar como tal. Aforismos, uma frase, duas linhas, apontamentos estenográficos de ficções a haver, não são contos, são aquilo a que alguma crítica complacente chama flash-stories. Flash anda lá perto. Um exemplo: «Ela sabe que está em Chicago. / Mas ainda não percebeu que está no Illinois.» No limite, um haiku de dois versos. Muitos são assumidos como relatos de sonhos, a dormir e acordada, próprios e de terceiros. Mas também há uma Carta... que ocupa 24 páginas, histórias a partir de Flaubert e, na página 104, um poema concretista. Um livro peculiar. Ciente dos equívocos da concisão, Lydia não se inibe de parodiar o tema: Não posso nem quero, texto de cinco linhas que dá o título à colectânea, ilustra a política dos prémios literários à luz da necessidade de enxúndia. Isto dito, verificamos que A Aterragem cabia perfeitamente em duas páginas, em vez de quatro. O pragmatismo redime: «Não quero ficar entediada com a imaginação de outra pessoa.» Isto a propósito de livros considerados bons, para os quais não tem paciência: «Parece tudo tão arbitrário.» Digamos que Não Posso nem Quero é o diário ficcionado de uma escritora e académica desobrigada do protocolo corporativo. Tal como o ex-marido, o escritor Paul Auster, também Lydia viveu e trabalhou em Paris durante alguns anos. Entre outras, são muito elogiadas as suas traduções de Proust, Flaubert e Blanchot. A influência do Modernismo é um traço distintivo da obra.

Dora Bruder, de Patrick Modiano (n. 1945), Prémio Nobel da Literatura em 2014. Num dos seus poemas mais conhecidos, A Cidade, Kavafis, o grego de Alexandria, escreveu: «Para onde quer que eu olhe, para onde quer que fite por aí / ruínas negras da minha vida vejo aqui...» Todo o poema, e estes dois versos em particular, aplicam-se com propriedade à obra de Modiano. Sob ocupação alemã desde o Verão de 1940, Paris tornara-se um buraco negro para os judeus. Modiano (re)constrói a história de Dora a partir de um patchwork de apontamentos, com remissões a Desnos e Genet. Numa hábil teia, o pacto ficcional intercala os anos 1940 com a década de 1990. Nome de rua no 18.º bairro de Paris, Dora Bruder deveio álibi para o passado de Modiano. Edição Porto Editora.

O Estranhíssimo Colosso, biografia de Agostinho da Silva (1906-1994), escritor, pedagogo e tradutor, da autoria de António Cândido Franco. Dividida em cinco partes, vai das origens familiares à velhice, sem esquecer a obra, o activismo cívico, os anos brasileiros e o regresso a Portugal. Uma minuciosa cronologia assinala o percurso do homem que escreveu: «O português aliou a ciência mais exacta à mais completa safadeza do mundo. Uma maravilha!». Rigor, prosa escorreita, heterodoxia. O traquejo do biógrafo permite o uso de plebeísmos conformes ao biografado: «borraçudo» (o perfil da sociedade portuguesa durante o salazarismo), «marimbou», «baril», «Eh, pá!» ou «Marcelo e Tomás foram dentro», fluem com naturalidade. Agostinho aprovaria. O volume insere portfolio fotográfico. Publicou a Quetzal.

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WORLD PRESS PHOTO


Com esta fotografia de um casal gay de (e em) São Petersburgo, o dinamarquês Mads Nissen, de 35 anos, venceu hoje o World Press Photo. Clique para ver com detalhe.

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terça-feira, fevereiro 10, 2015

HAPPENING NA 5 DE OUTUBRO


Quando Maria de Lourdes Rodrigues era ministra da Educação, os professores faziam manifestações todas as semanas. Uma delas, que terá juntado duzentas mil pessoas, teve direito a reportagem assinada por Maria Filomena Mónica. Os leitores do Público lembram-se. A partir de Junho de 2011, tudo isso acabou, embora os professores sejam metodicamente achincalhados.

Nunca houve tantos professores no desemprego. Crato tem aplicado em dobro a doutrina que tanto incomodava a Fenprof. Ontem, professores e alunos do ensino artístico especializado (uma área educativa que absorve 24 mil alunos de 110 escolas particulares e cooperativas, onde trabalham mais de 3 mil docentes) protestaram de forma original: deram um concerto à porta do ministério da Educação. António Victorino de Almeida dirigiu o Coro Lopes-Graça, Mário Laginha tocou ao piano, e uma professora do Conservatório Nacional cantou árias de ópera. Um agente da autoridade terá confessado que tinha todos os pêlos em pé. OK. Manifs a sério ficam para quando o PS regressar ao poder.

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segunda-feira, fevereiro 09, 2015

CURTO E GROSSO


Ontem, domingo (os Parlamentos não são repartições públicas), Tsipras apresentou o seu programa de Governo. Perante os deputados, o primeiro-ministro grego foi claro:

«Não vamos regressar à Idade Média. Não podemos tolerar as leis do trabalho que estão em vigor. Não podemos permitir que milhões de gregos passem fome. Não vamos repetir os erros do passado. Não vamos prorrogar o memorando com a troika. Somos um país civilizado, não queremos ameaçar a estabilidade na Europa, mas precisamos de tempo. Queremos um acordo de transição até ao Verão. Se não mudarmos a Europa, a extrema-direita irá fazê-lo.»

Nem o discurso de Zoé Konstantopoulou, a nova presidente do Parlamento, exortando cada deputado a assumir a sua responsabilidade individual, foi tão duro.

Entre as medidas imediatas do actual Governo, constam o aumento do salário mínimo para 761 euros, a efecturar de forma faseada até 2016; a reposição da electricidade nos cerca de meio milhão de lares onde ela foi cortada; o acesso dos desempregados a cuidados médicos; a reposição do 13.º mês nas pensões inferiores a 700 euros; a readmissão das mulheres de limpeza despedidas pelos serviços públicos; a redução dos assessores e adjuntos afectos aos gabinetes ministeriais e parlamentares; a revogação do imposto especial sobre energia; a reabertura da televisão pública; a venda de metade da frota automóvel do Estado; a suspensão das privatizações em curso; a criação de um sistema tributário que impeça fugas ao Fisco.

A reunião extraordinária do Eurogrupo, marcada para depois de amanhã, vai decerto ser animada.

[Imagem: foto de Alkis Konstantinidis, Guardian. Clique.]

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sábado, fevereiro 07, 2015

A VIDA COMO ELA É


O post anterior, sobre a Ucrânia, vai direitinho ao coração da Grécia. A vitória do Syriza não mudou uma vírgula à doutrina de Berlim. Merkel recusou-se a receber Tsipras. Hollande e Renzi não se atrevem a contrariar a chanceler alemã. O tour de Varoufakis excitou a imprensa porque o ministro grego das Finanças tem, como Marilyn Monroe tinha, uma relação lasciva com a fotografia. Nada mudará no quadro institucional.

A Alemanha, a Comissão, o Parlamento Europeu, o Eurogrupo, o BCE, o FMI, as eminências de Bilderberg e, por último mas não em último, os insondáveis Mercados, não querem resolver o problema grego. Ponto. Nas chancelarias, vária gente sonha com um coup d'État militar em Atenas. A crise ucraniana vai tirar a Grécia do mapa. Tsipras, se quiser mesmo recuperar a soberania grega, terá de bater com a porta da UE, regressar ao dracma, suspender a presença da Grécia na NATO (como a França de De Gaulle fez em 1966) e fechar as fronteiras do país. É uma chatice? Pois é. Facto é que o Syriza não pode permitir-se a ingenuidade de supor que é possível fazer uma revolução com os instrumentos do Capital. A crise humanitária grega não vai lá com minuetes.

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TURNING POINT


A escalada de guerra na Ucrânia levou Merkel e Hollande a Kiev e Moscovo. A correria explica-se: Obama quer enviar armamento moderno para Kiev, mas a Alemanha e a França opõem-se. O raciocínio é lógico: no dia da chegada do primeiro míssil americano, Putin mandava o exército russo ocupar os territórios reivindicados pelos separatistas ucranianos, e daí à tomada de Kiev era um passo. Por isso, uma hipotética candidatura da Ucrânia à NATO será vetada pela generalidade dos países-membros. Desde 1939 que a Europa não vive um momento de tal melindre.

[Imagem: foto de Michael Klimentyev, Libération. Clique.]

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sexta-feira, fevereiro 06, 2015

A GRÉCIA PODE ESPERAR?


Depois de, anteontem, ter cortado abruptamente o financiamento aos bancos gregos, uma forma pouco subtil de dizer a Berlim que o encontro com Varoufakis fora um mero pro forma, Draghi lembrou ao Banco Central da Grécia que o ELA continua em vigor. Utilizem-no até ao limite de sessenta mil milhões de euros, e não chateiem. Hollande e Renzi levantaram objecções à decisão do presidente do BCE? Pelo contrário. Uma reunião extraordinária do Eurogrupo, no próximo dia 11, é tudo o que haverá. Sem aliados na UE, Tsipras e Varoufakis têm de evitar um corralito. Obama está preocupado, claro que sim, mas não é com a crise humanitária que tem a sua montra mais visível em Atenas. Washington sabe que a Grécia pode tornar-se num curto espaço de tempo o tampão de um conflito na Europa com epicentro em Kiev. Não é por acaso que Merkel e Hollande estão hoje em Moscovo. Poderá a Grécia esperar?

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quinta-feira, fevereiro 05, 2015

BEAUVOIR & BULGÁKOV


Hoje na Sábado escrevo sobre Mal-entendido em Moscovo, de Simone de Beauvoir (1908-1986), novela que era para ter feito parte da colectânea A Mulher Destruída, mas só em 2013 viu a luz do dia. Não custa identificar Simone e Sartre nas personagens de Nicole e André, o casal de professores reformados que vai passar férias a Moscovo na segunda metade dos anos 1960. Percebemos hoje que A Idade da Discrição tenha sido, na França de 1968, a versão politicamente correcta do tema ficcionado. Afinal, a invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia coincide no tempo com a publicação de La Femme rompue. Tendo visitado a URSS mais de uma vez, é natural que Simone de Beauvoir tenha escrito sobre o país (e o regime soviético) em vários dos seus livros de ensaio e ficção, mas também, de forma mais “solta”, na correspondência e nos diários, bem como nos quatro volumes da autobiografia. Lido hoje, temos dificuldade em aceitar que Mal-entendido em Moscovo possa ter sido considerado “inadequado” ao ar do tempo. A sua publicação póstuma acrescenta um travo de ironia aos insondáveis desígnios da liberdade de expressão. Reflexões sobre as contingências da idade atravessam o plot. Nicole desistiu dos «prazeres da cama» e André conclui: «Ela devolvera-lhe desse modo a liberdade» (sabendo, todavia, que o seu próprio corpo deixara de ser «um presente que se desse a uma mulher»). Rejeitando ambos ser «um casal que continua porque começou», sentem a progressão do silêncio. Pura música de câmera. Por último, lembrar ao autor da badana que Simone de Beauvoir morreu em 1986 e não em 1976.

Escrevo ainda sobre O Mestre e Margarita, de Mikhaíl Bulgákov (1891-1940), autor cuja vida se confunde com a de tantos escritores russos que entraram em rota de colisão com a revolução bolchevique. A sua obra mais famosa regressou em tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra. As anteriores traduções (1972 e 1991) invertem o título: Margarita e o Mestre. No prefácio, Nina Guerra sublinha o facto de ter sido Elena Bulgákova, a viúva, a concluir o romance após a morte do marido. Depois seria preciso esperar vinte e seis anos até ser publicado (com cortes) na Rússia, e mais tempo ainda para que o original não censurado fosse traduzido no Ocidente. Tudo isto fez a lenda do livro. Médico cirurgião, detractor assumido do regime soviético, Bulgákov viu-se impedido de publicar (e as suas peças de teatro proibidas e retiradas de cena) a partir de 1930. Por maioria de razão, O Mestre e Margarita era impensável sob Estaline. Servindo-se de truques formais e do imaginário “fantástico”, Bulgákov arquitectou uma farsa demolidora que só a posteridade estaria em condições de exaltar. Publicou a Presença.

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domingo, fevereiro 01, 2015

CITAÇÃO, 512


Vasco Pulido Valente, Voto de não-confiança, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:

«O dr. Ricardo Salgado resolveu envolver o Presidente da República, o primeiro-ministro e o vice-primeiro-ministro na suspeita e obscura falência do banco e do grupo Espírito Santo; e numa carta à comissão parlamentar de inquérito anunciou que tinha falado com os três muito antes do desastre se consumar. A manobra é inteligente. [...] Para sorte dele, o dr. Cavaco reagiu com uma declaração embrulhada e comprometedora. Nada o impedia de reconhecer que vira Salgado e de lembrar cordatamente o seu dever de reserva. [...] Mas Cavaco, que sempre foi vingativo e provinciano, não ficou pela solução mais lógica e acrescentou muito excitado que nunca comentara a situação do BES, tinha citado simplesmente a opinião do Banco de Portugal sobre o BES  —  o resto era “mentira”. Ora, como o país logo concluiu, o Presidente da República não citaria a opinião do banco se não concordasse com ela. E, como o banco se enganara, isto levou à ruína uns milhares de accionistas e depositantes do BES, que acreditavam na autoridade e no bom senso do dr. Cavaco. [...] O dr. Cavaco exibe a cada passo, até nos mais pequenos pormenores, a sua incapacidade para o cargo em que infelizmente o puseram. Este incidente não é uma gaffe inócua e desculpável, é uma intervenção profunda na vida material do país, agravada por uma fuga desordenada à franqueza e à verdade política. O sr. Presidente da República devia daqui em diante observar um silêncio penitente e total, com o fim meritório de não assanhar a crise que ele consentiu e em parte criou. Não merece a nossa confiança

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PODEREMOS?


A manifestação do PODEMOS ontem em Madrid. A imagem reproduz a capa do Jornal de Notícias. A foto é de Sergio Perez. Clique.

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CITAÇÃO, 511


Pedro Marques Lopes, Anestesiados, hoje no Diário de Notícias. Excertos, sublinhados meus:

«O juiz, depois do procurador Rosário Teixeira ter pedido a prisão preventiva, afirmou que esta medida de coação, a pecar, não era por excesso. [DN de 27-1-2015] Tente ignorar que esta frase respeita a um processo em que está envolvido José Sócrates. [...]

Tente pensar que é juiz. Que tem de julgar sem preconceitos, de esquecer as suas simpatias e antipatias. [...] Olhe para si como alguém que tem de ser um garante do Estado de direito, que tem de cumprir escrupulosamente a lei, de ser um bastião dos direitos consagrados na Constituição da República Portuguesa, um ponto de equilíbrio entre quem acusa e quem defende. Que sabe que não pode pactuar com julgamentos na praça pública, que não os pode promover passando ou deixando passar para esgotos a céu aberto, mascarados de jornais, pedaços de informação que devem permanecer confidenciais.

Que jamais utilizará esses lodaçais para obter na praça pública as condenações que a lei e os seus procedimentos não permitem. Que não pode permitir que escutas sejam tornadas públicas, nem as que interessam ao processo nem as que não têm pingo de interesse para o que quer que seja senão para achincalhamentos públicos. Mais, que tem de ter um extremo cuidado para que essas não aconteçam e o mais depressa possível sejam destruídas.

Não se esqueça, também, que tem de ter uma exata noção da importância de uma decisão que sujeita a prisão alguém que ainda não foi, de facto, julgado. Alguém que ainda não pode defender-se de uma forma absolutamente cabal. Já imaginou a responsabilidade de tirar aquilo que a civilização ocidental considera o mais precioso bem? É que não há, em qualquer sistema de justiça de uma democracia, maior pena que a privação da liberdade.

Há, no entanto, um juiz que considera que tem indícios tão graves, tão graves, que está tão convicto da culpabilidade de alguém, que não só acha que ele deve estar preso  —  cumprindo, claro está, os requisitos da lei, ou melhor, estando certo de que esses requisitos se aplicam  —  que até pensa que devia existir uma medida de coação mais contundente. Dado que no nosso sistema não há nenhuma mais grave, em que é que o juiz estará a pensar? Chicotadas, tipo sharia? Não deve ser isso  —  é que até para aplicar chicotadas os condenados têm de ser julgados antes.

Aliás, achando que a prisão preventiva, neste caso, peca por defeito, das duas uma: ou o juiz pensa que o ex-primeiro-ministro deva ser amarrado e amordaçado para que não possa fugir, destruir provas ou repetir os crimes pelos quais está indiciado, ou então olha para essa prisão como uma pena e acha-a até leve. Qual das duas possibilidades a pior.

Verdade seja dita, nada se ganha em tentar interpretar aquela frase. Ela fala por si. Basta que fiquemos com a certeza de que há um juiz que pensa que a prisão preventiva não é medida de coação suficiente. Convinha, no mínimo, saber se já o tinha dito para outros casos e qual seria a sua sugestão para algo mais grave que a privação de liberdade sem julgamento. É que se o juiz Carlos Alexandre só fez este tipo de comentário no caso Sócrates, parece evidente que tem um preconceito contra o arguido em causa e que, assim sendo, não está capaz de cumprir corretamente as suas funções neste processo. Mas se também os fez noutros processos tem um problema mais grave, digamos assim.»

De tudo, o que mais impressiona é a forma como aquele comentário não causou um tumulto na comunidade. Um juiz que tem os mais importantes processos deste país, faz um comentário daquela gravidade e toda a gente encolhe os ombros. Ouvimos uma ministra da Justiça a dizer que fala para o telefone como se fosse um gravador, vemos peças processuais em segredo de justiça a aparecer nos jornais, escutas circulam como se nada fosse, sentenças são lavradas dizendo que se julga interpretando o sentir da comunidade e tudo é encarado com normalidade: a anormalidade tornou-se normal. Só isso pode explicar que nem um único político tivesse uma palavra sobre o assunto, que nem um editorial tivesse sido dedicado a este assunto, que nem um único representante da justiça se tivesse indignado.

Não, o que se passa no processo Sócrates está longe, muito longe de ser normal. Mas o mal é mesmo maior, muito maior

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sábado, janeiro 31, 2015

MATAR A TROIKA


Duas fotos que valem mil palavras. No fim da conferência de imprensa que ontem juntou Varoufakis e Dijsselbloem, o presidente do Eurogrupo esquiva-se ao aperto de mão protocolar, sendo forçado (em andamento) a fazê-lo pelo ministro grego das Finanças. Varoufakis invocou o estado de calamidade pública para pôr um ponto final nas conversas com Berlim. A Grécia prescinde da avaliação em curso. Dijsselbloem, com ar de prisão de ventre, afirmou: Acabaste de matar a troika. A coisa promete.

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