terça-feira, 27 de junho de 2017

PRETO NO BRANCO

Ao fim de três anos, o Tribunal Criminal de Lisboa arquivou o processo movido contra Inês Pedrosa, por alegado abuso de poder enquanto directora da Casa Fernando Pessoa, cargo que abandonou em Abril de 2014.

Segundo o juiz, «Não assiste razão ao Ministério Público porque os elementos de prova não permitem assacar responsabilidade criminal dos arguidos e a matéria de facto vertida na acusação não se revela suficiente para caracterizar o tipo de que os arguidos vêm acusados. [...] A conduta da arguida Inês Pedrosa, descrita na acusação, não preenche factualmente o tipo de crime que lhe está imputado. [...] Por tudo isto se entende que, com maior probabilidade os arguidos seriam absolvidos, razão pelo qual este tribunal decide não os pronunciar

Como os media publicitam as acusações mas, quase sempre, ignoram as absolvições, aqui fica o registo.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

MEDINA, OF COURSE!


Quando forem 6 da tarde, Fernando Medina formaliza a sua recandidatura à Câmara de Lisboa. Vai ser no Palácio Galveias, ali ao Campo Pequeno.

SUICÍDIOS, DIZ ELE

E você? Já se suicidou? Ou nem ao menos tentou?

domingo, 25 de junho de 2017

MOÇAMBIQUE: 42 ANOS


Moçambique completa hoje 42 anos como país independente. Deixo aqui um excerto das minhas memórias desse dia.

Moçambique tornou-se independente no dia 25 de Junho de 1975. Na véspera não fui trabalhar. Era terça-feira mas deve ter havido tolerância de ponto. A época fria tinha começado e o tempo mantinha-se luminoso. Em Moçambique, o Inverno é seco. As chuvas chegam em Janeiro e Fevereiro, quando a temperatura sobe. O jantar foi servido à hora do costume. Para surpresa de minha mãe, não acompanhei o Jorge à cerimónia que teve início no Estádio da Machava ao minuto zero do dia 25. Estavam lá muitos filhos da burguesia dourada, gente que não tinha sujado as mãos na guerra, preferindo viver anestesiada em Oslo ou Estocolmo. Alguns ficaram. A maioria regressou no primeiro avião ao borralho escandinavo. Deitei-me cedo e lembro-me de acordar de madrugada com o estampido das balas de jubilação. A Frelimo tinha acabado de instaurar o regime de partido único. Naquele momento, alguns amigos que tinham celebrado a queda de Saigão como o advento de um mundo novo, gozavam as amenidades de Cape Town como lídimos herdeiros de Cecil Rhodes. Eu lia Alan Watts e queria acreditar num futuro que nunca chegou.

Um Rapaz a Arder, Lisboa: Quetzal, 2013, p. 19

quinta-feira, 22 de junho de 2017

GUEDES DE CARVALHO & SENA


Hoje na Sábado escrevo sobre O Pianista de Hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho (n. 1963), que regressa ao romance após um intervalo de dez anos. Sem surpresa, a prosa clara dispensa todo o tipo de malabarismos semânticos. Mesmo em sottovoce, o autor impõe uma dicção própria. Foi assim nos romances anteriores e o timbre mantém-se inalterado. Narrador autodiegético, Guedes de Carvalho intromete-se na narrativa com gozo evidente. Percebemos logo nas primeiras páginas que é de solidão e perda que o romance trata. E que o faz sem rodriguinhos, antes com uma escrita segura, elegante, atenta à prosódia da língua: «Luís Gustavo nunca a conheceu, e pela vida fora quase nem falará dela, até que um dia começará a pensar nela, quando já seria tempo de a ter esquecido, as coidas estranhas que fazemos sem lógica.» Guedes de Carvalho é muito hábil na forma como articula os factos descritos com o carácter das personagens. Ao arrepio de tanta prosa contemporânea, a sua ficção organiza-se sem ‘encenação’. Dito de outro modo, sem piscar o olho ao ar do tempo. O low profile é ilusório. Por várias vezes a narrativa deflagra em violência crua: «— Não passa de hoje vais dizer onde mora esse filho da puta...» A trama envolve sexo, bullying, imprevistos hospitalares, homossexualidade (o episódio do supermercado é deveras polissémico), violência doméstica, disfunção conjugal, morte, psicanálise, etc. Em suma, a vida como ela é. No fim, tudo conflui para o mesmo ponto, um conhecido hotel da Linha de Cascais. A sólida arquitectura romanesca dá a medida dos recursos do autor. Coisa rara na literatura portuguesa, as cenas de sexo são plausíveis e, graças à utilização correcta dos verbos, bem esgalhadas. Bem calibrado, o discurso não evita o vernáculo da oralidade. Poderá soar rude a espíritos mais sensíveis, mas nunca a linguagem comum foi decalcada de um missal. O fundamentalismo politicamente correcto vai torcer o nariz a certas passagens (a persona do autor potenciará esse condicionamento), mas a literatura não pode deixar-se capturar pela assepsia. O menos importante de tudo é o pianista do hotel. Quatro estrelas. Publicou a Dom Quixote.

Escrevo ainda sobre a publicação, em edição de bolso, de Sinais de Fogo, de Jorge de Sena (1919-1978). Um acontecimento. Trata-se de um dos romances mais importantes do século XX português, sucessivamente reeditado e esgotado desde 1979. Retrato ácido da educação sentimental dos jovens adultos de 1936, com a Guerra Civil espanhola em pano de fundo, Sena põe em pauta o Portugal salazarento e uma panóplia de interditos que vão da inscrição política à hipocrisia dos costumes. Tudo se passa no ambiente da burguesia bem instalada da Figueira da Foz, que fazia vista grossa à pesporrência do Estado Novo (actuação da Pide incluída) e a questões de natureza sexual. Alter-ego de Sena, o protagonista, Jorge, disseca com minúcia aquele peculiar microcosmo. O acento tónico incide no grau de ‘tolerância’ face à identidade sexual de alguns personagens, em particular Rufino e Rodrigues. É deveras eloquente o episódio do ménage à trois entre Jorge, Luís e uma prostituta: «a mulher não tinha tido importância, a mim é que ele, de uma maneira ou de outra, escolhera.» Destinado a ser o primeiro volume da saga romanesca Monte Cativo, projecto abortado por morte de Sena, Sinais de Fogo é uma obra-prima. Cinco estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

REI SOL


Obtendo 350 lugares, La République en Marche conseguiu a maioria absoluta na Assembleia Nacional francesa. É menos do que as projecções indicavam, mas não deixa de ser um resultado histórico. Macron torna-se uma espécie de rei Sol. Os Republicanos obtiveram 130. O Partido Socialista ficou em terceiro lugar, elegendo 33 deputados, uma derrota inquestionável, mas longe da temida pasokização. E em todo o caso com representação superior à France Insoumise, que mesmo em coligação com o PC não foi além de 27 lugares. Marine Le Pen conseguiu ser eleita, mas o Front National ficou apenas com 8 lugares. Tudo visto, é impossível ignorar o índice de abstenção, que chegou a 57,4%. Também vai ser curioso seguir o comportamento da Assembleia, onde 432 eleitos (num total de 577) são estreantes. Já agora, quatro deputados, um deles do Front National, são casados com pessoas do mesmo sexo, muito menos do que no Parlamento britânico, mas é um começo.

domingo, 18 de junho de 2017

MACRON ABSOLUTO


Com uma abstenção de 56,6%, a segunda volta das Legislativas francesas confirma a maioria absoluta do partido de Macron, La République en Marche. Ao alto, a projecção mais recente dos resultados finais. Clique para ler melhor.

A MALDIÇÃO


Estão confirmados, até ao momento, 57 mortos e 61 feridos vítimas do incêndio que deflagrou ontem ao meio-dia em Escalos Fundeiros, na região de Pedrógão Grande (Leiria). Trinta pessoas morreram carbonizadas dentro das próprias viaturas, a maioria quando tentavam fugir pela estrada que liga Castanheira de Pêra a Figueiró dos Vinhos. As aldeias de Mosteiro, Vila Facaia, Coelhal, Escalos Cimeiros, Regadas e Graça foram as mais afectadas. O número de vítimas pode subir porque continuam desaparecidas várias pessoas. Dois pelotões do exército vão juntar-se aos bombeiros na região. Clique na imagem. [Actualizado às 10:00]

sábado, 17 de junho de 2017

TRAGÉDIA DE LONDRES

Enquanto a polícia vai actualizando o número de mortos aos bochechos (ontem subiu de 17 para 30), ocultando a muito previsível existência de uma centena, ou mais, de corpos carbonizados, com o argumento da falta de identificação, «que levará meses a concluir», sucedem-se as manifestações da opinião pública contra a forma desastrada como tem estado a ser gerido o processo de apoio às vítimas da Torre Grenfell.

Jeremy Corbyn, o líder trabalhista, não faz a coisa por menos: quer os desalojados instalados nas mansões vazias dos bairros elegantes da cidade. E avisou Theresa May que cinco milhões de libras são peanuts.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

HELMUT KOHL 1930-2017


Helmut Kohl, chanceler alemão durante dezasseis anos, entre 1982 e 1998, morreu hoje. A Alemanha deve-lhe a reunificação, em Outubro de 1990. Mitterrand e Thatcher eram contra. Gorbachev aceitou sem grandes reticências, até porque a Alemanha financiou a fundo perdido a saída dos exércitos soviéticos da RDA. Do outro lado do Atlântico veio o apoio decisivo de Bush pai. Em suma, como alguém disse, foi o homem que acelerou a História.

ATÉ QUE ENFIM

Após oito anos, o Ecofin retirou hoje Portugal do procedimento por défice excessivo. Ainda há palermas a gozar com Centeno?

AXIMAGE

Sondagem da AXIMAGE para o Correio da Manhã» e o Negócios:

PS 43,7% / PSD 24,6% / BE 9,7% / CDU 7,8% / CDS 4,6%.
Maioria de esquerda = 61,2%. PAF = 29,2%.

Em termos de popularidade, a sondagem é clara: 69,1% escolhem António Costa contra os 22,2 por cento que escolhem Passos Coelho. Com o PS à beira da maioria absoluta, a Direita regista os piores resultados desde 1976.

GRENFELL TOWER

Ainda a tragédia de Londres. O Governo britânico tinha em seu poder, há anos, um dossiê sobre a falta de condições de segurança da Torre Grenfell. Gavin Barwell, ministro da Habitação até ao passado dia 8, devia tê-lo na gaveta. Mr Barwell é actualmente chefe de gabinete da primeira-ministra. Não consta que se tenha deslocado ao local e, já hoje de manhã, à chegada ao n.º 10 de Downing Street, recusou falar à imprensa. A Torre Grenfell era gerida pelos serviços de habitação social da Câmara de Londres. Sadiq Khan, mayor de Londres desde Maio do ano passado, não ignorava com certeza a existência do dossiê. O mesmo se diga de Boris Johnson, actual ministro dos Negócios Estrangeiros, que foi mayor da cidade durante oito anos (2008-16). Ora estes cavalheiros não podem assobiar para o lado. Na imagem vêem-se drones a sobrevoar a Torre.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

THIEN & CUMMINGS


Hoje na Sábado escrevo sobre Não Digam Que Não Temos Nada, de Madeleine Thien (n. 1974), escritora canadense de origem sino-malaia. Trata-se de um dos romances mais aclamados dos últimos anos. O título remete para uma passagem da versão chinesa da Internacional, o hino comunista: «O velho mundo será destruído. De pé, escravos, de pé. Não digam que não temos nada.» Com a intriga focada na China que sobreviveu à Revolução Cultural, e a caução de reminiscências autobiográficas, o romance tem todos os ingredientes para ser um sucesso de público e crítica. A sucessão de prémios aí está para o provar.  A partir de Vancouver, a narradora descreve com método o ambiente de uma família de imigrantes, tendo como ponto de partida o massacre da Praça Tiananmen, em Pequim. O pai tinha fugido em 1978 e proibido de voltar à China, mas os brutais acontecimentos de Junho de 1989 levaram-no a partir para Hong Kong, onde acabou por desaparecer. Para as autoridades, ter-se-ia suicidado. É este o detonador do plot, que explica os solavancos que conduziram à China actual. Através de flashbacks recuamos às razões do percurso do pai da narradora e, por sua vez, do pai adoptivo deste, um enigmático professor de música. Mas nem só das sequelas da Revolução Cultural aqui se trata. Thien descreve muito bem as etapas de que Mao Tsé-Tung se serviu para impor a ditadura do proletariado, em especial a reforma agrária, bem como o denominado, e fracassado, Grande Salto, ou seja, a industrialização acelerada que provocaria dezenas de milhões de mortos, a maioria pela fome. Thien não faz proselitismo. A escrita, em regra neutra, tem a desenvoltura dos factos: «Fui recrutado pelo Kuomintang. Felizmente, consegui escapar-me e passar para o exército comunista. Foi pavoroso. Os combates, quero eu dizer. Mas fizemos este país.» É realmente mais fácil perceber a China contemporânea depois de ler Não Digam Que Não Temos Nada. O texto é pontuado por inúmeras remissões culturais (chinesas e ocidentais), bem como por fotos da época versada. Nem umas nem outras servem de ornamento, mas de suporte da narrativa. Notas esclarecedoras encerram o volume. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d'Água.

Escrevo ainda sobre O Quarto Enorme, de E. E. Cummings (1894-1962), nome central do Modernismo, poeta, ensaísta, dramaturgo e artista plástico, que em 1922 publicou o relato da sua prisão em França, em Setembro de 1917, no estertor da Primeira Guerra Mundial. Cummings e um amigo foram acusados de espionagem, mas o futuro poeta foi prontamente ilibado, o que não impediu três meses de cativeiro, malgrado diligências diplomáticas conduzidas pelo pai. Tudo se resumia ao espírito anti-guerra que o levou, juntamente com William Slater Brown, a servir como voluntário no corpo de ambulâncias. O episódio teve contornos bizarros, dele resultando O Quarto Enorme, título que remete para a cela comunitária partilhada com dezenas de presos no campo de concentração de La Ferté-Macé. Ilustrado com desenhos do autor, a edição portuguesa segue a versão fixada em 1978 por George Firmage, destinada a «corrigir as omissões e alterações das versões anteriormente publicadas», em especial no tocante à extravagante pontuação: ausência de espaços a seguir às vírgulas e outras diabruras. A narrativa descreve, com mordacidade e muitas vezes em tom pícaro, o quotidiano do campo, sem contemplação pelas autoridades francesas. O leitor que não conheça a poesia de Cummings tenderá a sentir-se perdido. Quatro estrelas. Publicou a Livros do Brasil.

LONDRES


Nos últimos tempos parece que não há nada que não aconteça em Londres. Esta madrugada (01:20) foi um incêndio de proporções dantescas que consumiu um edifício de 24 andares e 120 flats, a Torre Grenfell, na Latimer Rd, perto de Notting Hill, ou seja, na zona oeste da cidade. Quatro famílias portuguesas residiam no local. Seis mortos e 50 feridos hospitalizados, para já, números devem disparar quando forem contabilizados os corpos carbonizados. Um bebé foi atirado do 10.º andar, mas os bombeiros apanharam-no. Clique na imagem.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

OPA, BIEN SÛR


Uma boa síntese. Macron lançou, de facto, uma OPA sobre o sistema partidário francês. Clique na capa do Libé.

A ONDA


Projecção das bancadas na futura Assembleia Nacional francesa. Clique na imagem.

O EFEITO MACRON


Resultado final da 1.ª volta das Legislativas francesas. Clique na imagem.

sábado, 10 de junho de 2017

CLAUDEL, WOOLF & AMARAL


Anteontem, na Sábado, escrevi sobre A árvore dos Toraja, penúltimo romance do francês Philippe Claudel (n. 1962), autor que se divide entre a literatura e o cinema. Como o próprio autor, também o narrador é cineasta. Um homem que se vê confrontado com o cancro de Eugène, o seu melhor amigo. O ponto de partida da narrativa terá sido uma viagem feita pelo autor à Indonésia, mais exactamente ao arquipélago das Célèbes, onde se situa a ilha de Sulawesi, território do povo Toraja. Os Toraja enterram os seus mortos precoces (crianças) na cavidade de uma árvore. O livro é uma reflexão sobre a morte e o poder da amizade, com envios ao passado comum: afinidades electivas, remorsos, afectos. Em suma, uma subtil elegia branchée. Como bom francês, Philippe Claudel não consegue abstrair-se de citar alguns dos seus pares. Ao fim de duas páginas apanhamos com Ismaïl Kadaré, «que leio pelo menos uma vez a cada dois anos». Mas também temos direito a Kundera. Afinal de contas, era o autor dilecto de Eugène. Até Michel Piccoli tem a sua quota, no cenário improvável de um McDonalds. Móbil, a erosão do tempo: «Pertenço a um tempo que acabou. Como os dinossauros…», sublinha o actor. Philippe Claudel pretende contrapor a cultura da morte, conforme ritualizada no Oriente, à rasura da tradição ocidental. Agora que a doença se tornou uma obsessão das sociedades industrializadas, entaladas entre os interesses dos lobbies farmacêuticos e a cultura do medo, é natural que a literatura dê voz a essa espécie de ansiedade colectiva. É o que pretende fazer o autor, pondo em pauta a camaradagem de dois homens unidos por inextricáveis laços de cumplicidade. Havendo matéria para um romance, é pena que Philippe Claudel fique pelo récit de perfil ensaístico. A título de exemplo, um texto de Mario Rigoni Stern é trazido à colação a propósito do suicídio de Primo Levi: «Ambos tinham tido de atravessar a pé a Europa dos mortos para regressarem ao seu país.» Um cínico dirá que A árvore dos Toraja não anda longe dos livros de auto-ajuda. Para intelectuais, evidentemente. Três estrelas. Publicou a Sextante.

Escrevo ainda sobre Momentos de Vida, de Virginia Woolf (1882-1941), cuja importância no contexto da Literatura do século XX seria fútil sublinhar. Romancista, contista, ensaísta e crítica literária, Virginia escreveu ainda um importante diário, parcialmente traduzido em Portugal. Em 1976 foram descobertos cinco textos autobiográficos, inéditos, escritos entre 1907 e 1939, editados e reunidos por Jeanne Schulkind com o título Momentos de Vida. Não se tratando de uma obra que de algum modo interfira com o cânone da autora, é um documento importante para a compreensão de um largo período da vida inglesa e, em especial, para a forma como os bloomsberries viam o seu tempo. Vem a propósito lembrar a síntese de Quentin Bell: «considerado como uma entidade ética, social e estética...», o mundo moderno nasceu em 1910, no Bloomsbury. O livro abre com “Reminiscências”, ensaio dividido em cinco capítulos, fechando com os textos lidos no Clube de Memórias, criado por Mary MacCarthy (não confundir com a americana Mary McCarthy, trinta anos mais nova). No meio, “Um Esboço do Passado”, escrito em 1939, pouco antes do suicídio de Virginia, analisa o Bloomsbury de um novo ângulo. Além de fac-símiles, o volume inclui portfolio fotográfico. Quatro estrelas. Publicou a Ponto de Fuga.

E também sobre What’s in a Name, de Ana Luísa Amaral (n. 1956). Depois da novela autobiográfica com que em 2013 expôs publicamente a sua orientação sexual, a autora continuou a publicar colectâneas de poemas, mas é com  What’s in a Name, chegado agora às livrarias, que reencontramos o melhor da sua obra. No poema que dá o título ao conjunto, pergunta a autora: «[…] o que há num nome?» Poeta central da poesia portuguesa contemporânea, a autora tem-se destacado pela forma hábil como, sem se afastar do classicismo da tradição anglo-americana (Emily Dickinson e Anne Sexton são referências próximas), consegue impor a voz que dá «nome a estas coisas», fazendo-o sempre com o rigor oficinal que faz da sua escrita um lugar de alto conseguimento: «Mas não há nada de natural num nome: / como uma roupa, um hábito, normalmente para a vida inteira, / ele nada mais faz do que cobrir / a nudez em que nascemos» A identidade é um ferrete. Que quase todos estes poemas tenham por objecto matéria improvável (abacates, castanhas bravas, azeite, especiarias, ostras, etc.) e o cenário heterodoxo de uma cozinha, dá a medida do virtuosismo da autora. Afinal, a grande poesia tende a evitar a grandiloquência. Cinco estrelas. Publicou a Assírio & Alvim.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 56,1%. A diferença entre o PS e o PSD passou para onze pontos. Sozinho, o PS ultrapassa a PAF, que continua a descer e soma agora 35,4%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.