sábado, 20 de janeiro de 2018

CALL ME BY YOUR NAME


Sim, fui ver. Não, não é uma obra-prima. Mas devia ser visto por todos os papás e mamãs com filhos menores. E talvez exibido em escolas do ensino secundário. Adaptado do romance homónimo de André Aciman, o escritor judeu sefardita, nascido em Alexandria, que ensina teoria literária em Nova Iorque, o filme sinaliza todas as idiossincrasias do autor: tradição hebraica, cultura árabe e homossexualidade. O romance é de 2007, o filme é de 2017. James Ivory escreveu o argumento e co-produziu. A realização é de Luca Guadagnino, que passou a infância na Etiópia e é filho de mãe argelina. Sublinho intencionalmente o melting pot.

Timothée Chalamet, 22 anos, e Armie Hammer, 31, são os protagonistas desta história de amor vivida em 1983, em Crema, na Lombardia. Plot: arqueólogo italiano de origem judaica contrata assistente judeu-americano para o ajudar nos meses de férias, filho do arqueólogo (dezassete anos) apaixona-se pelo assistente do papá (vinte e muitos anos), o qual retribui com o dobro da convicção, os pais do adolescente percebem e apoiam, as férias acabam, os dois passam uma semana sozinhos nas montanhas, o americano regressa a casa e, na tarde do Hanukkah, telefona a dizer que vai casar por imperativo social. Seguir com atenção a conversa do pai com o filho depois da separação. As cenas entre os dois rapazes são persuasivas e estão filmadas com elegância, mesmo a do pêssego besuntado com esperma. Não esquecer que tudo isto se passa na Itália de 1983, entre gente culta, com desafogo económico e respeito pelas tradições hebraicas. Ecos de Visconti e vagas reminiscências de Il giardino dei Finzi-Contini (Vittorio de Sica, 1970) vêm-me à memória. Por último, a música de Sufjan Stevens não me parece nada adequada ao ambiente encantatório do filme, mas se calhar sou eu que sou cota.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 56,7%. Sozinho, o PS ultrapassa o PSD em 14,4% (e a PAF em 7,4%). A popularidade de António Costa e a aceitação do Governo continuam a subir. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CRUZ & TCHERNICHÉVSKI


Hoje na Sábado escrevo sobre Jalan Jalan, de Afonso Cruz (n. 1971). Cada novo livro do autor costuma ser sinal de boa surpresa. Nessa medida, Jalan Jalan não desilude. Antes pelo contrário. Para a maioria dos leitores o título soará estranho, mas o autor explica: «Jalan significa rua em indonésio […] Jalan jalan, a repetição da palavra, que muitas vezes forma o plural, significa, neste caso, passear.» Passear vai bem com o autor, flâneur multidisciplinar da vida cultural portuguesa. Jalan Jalan é um livro sobre experiências de viagem, narradas numa sucessão de textos de tamanho variável, conectados entre si por remissões temáticas. No fim de cada, uma janela sinaliza os envios. Não são crónicas, no sentido canónico, mas textos abertos que compõem um macrotexto. Já uma vez escrevi que o autor é um dos mais cultos da sua geração, e este livro, na sua prosa fluída, no modo inteligente como nos dá a ler o mundo, é prova bastante. Este juízo não ignora o diálogo hábil com obras e autores de todos os tempos (Marco Aurélio, Schrödinger, etc.), o contrário de um name-dropping fútil. Afonso Cruz usa as viagens como ferramentas do conhecimento, em aspectos centrais da vida dos povos, como sejam a cultura, a organização política, a religião, os hábitos e costumes de civilizações milenares. As experiências de viagem aqui vertidas ora nos surpreendem na Bolívia ou na Estónia, fugindo quase sempre ao clichê. Não diria o mesmo do ‘retrato’ de Berlim: sendo exacto, encaixa na caracterização de Londres ou Nova Iorque. Ironia suprema: a cidade tornou-se «uma capital tão homogénea […] como tantas outras»… no preciso momento da reunificação, porquanto o inventário de ‘diferenças’ constitui o máximo denominador comum. Dito de outro modo, o autor deixou-se envolver pela heterodoxa onda de cosmopolitismo da capital alemã, afinal replicável noutras metrópoles. Fique registado porque não é despiciendo: ao contrário da maioria dos autores ‘novos’, Afonso Cruz não se inibe de dizer o que pensa da contemporaneidade. Sirva de exemplo o texto Eles vêm todas as madrugadas. Sim, estamos a falar da oligarquia dos banqueiros e do colapso da Europa. Com excepção de duas, todas as fotografias são do autor. Cinco estrelas. Publicou a Companhia das Letras.

Escrevo ainda sobre O Que Fazer?, de Nikolai Tchernichévski (1828-1889). Pode um romance mudar o rumo História? Tendo em vista as repercussões do único romance escrito pelo autor, diremos que sim. Joseph Frank, o biógrafo de Dostoiévski, sublinha: «O romance de Tchernichévski, mais que O Capital de Marx, forneceu a dinâmica emocional que eventualmente desembocou na Revolução Russa.» Líder dos democratas revolucionários russos, Tchernichévski foi preso em São Petersburgo e exilado para a Sibéria, onde permaneceu vinte anos. Ali escreveu O Que Fazer?, obra que inspirou vários políticos, entre eles Rosa Luxemburgo e Lenine, que até escreveu um livro com o mesmo título, mas também escritores da craveira de Strindberg e Nabokov. Escrito e publicado em pleno czarismo, O Que Fazer? viria a tornar-se um clássico da literatura soviética. Traduzido directamente do russo, o livro chegou finalmente à edição portuguesa. Lido hoje, o plot parece trivial. Mas na sociedade russa de 1863 não era comum os escritores fazerem a defesa da emancipação das mulheres. Nem os personagens de romance serem cidadãos que abdicam dos seus privilégios em favor do ideal socialista. Se lhe acrescentarmos transgressão moral, percebemos melhor o sucesso da obra. Quatro estrelas. Publicou a Guerra & Paz.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

PARLAMENTO CATALÃO


O novo Parlamento catalão foi hoje investido. Roger Torrent, 38 anos, da ERC, é o novo Presidente. À segunda volta, foi eleito por 65 votos, contra os 56 obtidos por José María Espejo-Saavedra, do CIUDADANOS. Os votos em branco foram 9.

Os vice-presidentes da Mesa são Josep Costa, de JUNTSxCAT, e José María Espejo-Saavedra, de CIUDADANOS.

Aguardar os próximos capítulos.

sábado, 13 de janeiro de 2018

RIO CONQUISTA PSD


Rui Rio venceu por 54,4% as directas para a presidência do PSD. O homem que se gaba de nunca ter perdido nenhuma eleição torna-se, desse modo, o líder da Oposição. Santana Lopes obteve 45,6%. A grande vantagem da eleição de Rio é a prometida vassourada no passismo, a começar pelo líder da bancada parlamentar. Aguardar para ver.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

CENTENO


Mário Centeno tomou hoje posse do cargo de presidente do Eurogrupo. Por decisão do ministro, a cerimónia decorreu na Embaixada de Portugal em Paris. Por essa razão, Dijsselbloem deslocou-se de Bruxelas à capital francesa, onde Centeno está desde ontem em conversações com Emmanuel Macron, Édouard Philippe e Bruno Le Maire.

EM QUE FICAMOS?

Não sabemos o impacto que a revelação terá, se é que vai ter algum, mas, em qualquer país civilizado, Santana Lopes já teria à sua porta dezenas de jornalistas interessados em conhecer os contornos da operação novo Partido.

Ontem, na SICN, Pacheco Pereira foi claro: em 2011, Santana Lopes juntou vários militantes no Hotel da Lapa, em Lisboa, convidando-os a formar com ele um Partido que «concorreria contra o PSD de Passos Coelho nas eleições legislativas de Junho.» Razão: o PSD de Passos Coelho estava morto, só fazia asneiras, e a nova liderança trouxera gente que o enojava. O assunto foi aflorado nos jornais da época, sem grandes detalhes. Pacheco, apoiante de Rui Rio, veio agora explicar como foi.

Quem são as pessoas que enojavam Santana? Ainda enojam, ou já não?

CATALUNHA


Carme Forcadell renunciou ontem ao cargo de presidenta do Parlamento catalão. Vai cumprir o mandato de deputada na nova legislatura, mas não aceitará a presidência, como pretendem o seu partido, a Esquerra Republicana de Catalunya, e o trânsfuga Puigdemont. Neste momento, os nomes mais prováveis para substituir Forcadell são Ernest Maragall, 75 anos, e Raül Romeva, 46, ambos da ERC. Lembrar que, por decisão de Rajoy, o novo Parlamento é constituído no próximo dia 17.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

FORSTER & KIELLAND


Hoje na Sábado escrevo sobre Passagem para a Índia, de E.M. Forster (1879-1970), o ensaísta e escritor inglês que marcou a primeira metade do século XX e viu muitos dos seus romances adaptados ao cinema. Passagem para a Índia foi um deles. O que talvez nem toda a gente saiba é que o romance foi considerado uma das cem obras-primas de sempre. Inspirado nas viagens que o autor fez à Índia e, em particular, na sua experiência (1921-23) como secretário pessoal do marajá de Dewas, Forster focou a sua obra ficcional mais ambiciosa nas convulsões pró-independência que já então abalavam o Raj britânico. O estranho incidente das cavernas de Marabar, envolvendo Adela e Aziz, serve de rastilho ao desenvolvimento da intriga. Ou seja, à explosão das tensões raciais entre colonizadores e colonizados. Não tendo ficado esclarecido se Adela sofrera um ataque de ansiedade generalizada ou apenas efeitos relacionados com eco e claustrofobia, a opinião colonial considerou Aziz culpado de agressão sexual. Que outra coisa, senão um agressor, podia ser um médico muçulmano? Adela está noiva do magistrado local, e o julgamento estabelece uma fractura irremediável. Confusa, Adela contradiz-se, acabando por concluir que tudo não passou de um equívoco. Em consequência, o noivado desfaz-se e ela marca viagem de regresso a Inglaterra. Chandrapore, onde tudo se passa, não existe (a cidade inspira-se em Bankipore), mas as suas características servem de metáfora do compound elitista em que se movem os ingleses: «Os indianos não podem entrar no Clube de Chandrapore, nem como convidados […] As pessoas entravam no Clube com uma calma estudada, à maneira da gente campestre passando entre duas sebes viçosas.» O fio condutor da história ilustra os limites das relações entre indianos e europeus. Homossexual oriundo da classe média e, nessa medida, ciente dos vários patamares sociais da Era Vitoriana, Forster — que foi por mérito próprio um dos Apóstolos de Cambridge — tem um apurado sentido do tema em pauta. Lembrar que, além de outros romances e ensaios, Forster é autor de Aspects Of The Novel, obra de 1927 ainda hoje de leitura obrigatória para quem queira escrever ficção literária. Cinco estrelas. Publicou a Relógio d’Água.

Quando, em 1880, Alexander Kielland (1849-1906) publicou Garman & Worse, romance centrado no quotidiano da alta-burguesia norueguesa nos anos 1840, não podia adivinhar que viria a inspirar, uma década mais tarde, a obra-prima Os Buddenbrooks, de Thomas Mann. Romances de estreia, nos dois casos. O nome é outro, mas Garman & Worse remete para a casa de negócios da família. Além de empresário abastado e escritor (escreveu romances, peças de teatro e ensaios, um deles sobre Napoleão), Kielland foi um político com preocupações sociais pouco comuns nos homens do seu meio. Este ‘romance norueguês’ põe em pauta as clivagens de classe, sendo as principais personagens baseadas nos pais, parentes e amigos íntimos do autor. Em 1882 foi publicada a sequela Skipper Pior, com acção na mesma época e firma. Com o naturalismo no auge, Kielland de certo modo antecipa Proust. A obra vive das minudências discursivas: «A brilhante folhagem verde-escura pendia em ricos aros perto do chão, que estava cheio de nozes das faias.» Traduzido directamente do norueguês por João Reis, Garman & Worse chega à língua portuguesa com alto conseguimento. Quatro estrelas. Publicou a Cavalo de Ferro.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

LIBERDADE DE IMPORTUNAR


Um colectivo de cem mulheres da intelligentsia francesa defende a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual. No original: «Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle.» E porquê? Porque... «Le viol est un crime. Mais la drague insistante ou maladroite n’est pas un délit, ni la galanterie une agression machiste

Movimentos como o MeToo, o BalanceTonPorc e o Time’s Up são caracterizados como «uma onda de purificação puritana» que, ao contrário de «ajudar as mulheres, serve os interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos e dos piores reaccionários...»

Publicado no Monde, o manifesto é assinado por várias académicas, uma das quais a filósofa Peggy Sastre, mas também por figuras públicas como, entre outras, Catherine Deneuve, Catherine Millet (escritora), Ingrid Caven (actriz, cantora e viúva de Fassbinder), Joëlle Losfeld (editora), Brigitte Sy (cineasta), Gloria Friedmann (artista plástica), Stéphanie Blake (autora de livros infantis) e a jornalista Abnousse Shalmani. «Como mulheres, não nos reconhecemos neste feminismo...», dizem.

Por estas e por outras é que obras de Schiele e Balthus são alvo de ataques da opinião pública.

Na imagem, de cima para baixo e da esquerda para a direita, Catherine Deneuve, Catherine Millet, Joëlle Losfeld e Gloria Friedmann. Clique.

sábado, 6 de janeiro de 2018

OS MAIS BELOS POEMAS PORTUGUESES


Em 1995, mais coisa menos coisa, o editor José da Cruz Santos contactou 25 poetas a quem pediu que escolhessem os 25 mais belos poemas portugueses de sempre. Alguns desses poetas (Sophia, Eugénio, Fiama, Graça Moura, etc.) já morreram. Mas só agora o resultado chegou às livrarias, em dois volumes totalizando 1.260 páginas. O 1.º vai de Afonso X a Ricardo Reis, e o 2.º de Álvaro de Campos a Paulo Teixeira. Nestes dois volumes estão 361 poemas, de 116 poetas, nascidos entre 1221 e 1962. Sanadas as repetições, as 625 escolhas deram lugar aos 361 poemas antologiados. A título de curiosidade, refira-se que o poema mais citado foi O Sentimento dum Ocidental, de Cesário Verde.

Luís Adriano Carlos, poeta, ensaísta e professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, assina as 34 páginas da introdução, Crítica do gosto literário. O leitor estranhará que, a despeito da erudição, Luís Adriano Carlos faça listas de quem não foi escolhido (uma delas termina praticamente na minha house maid...), ao invés de deter-se nos eleitos. A ausência de verbetes biobibliográficos é outro óbice. Dou um rebuçado a quem souber quem é o poeta António H. Balté. Como de regra, Herberto Helder, João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães não autorizaram a publicação de poemas seus.

A primeira meia dúzia dos eleitos é constituída por Camões, com 22 poemas; Nemésio com 17; Sá-Carneiro com 15; Sena e Eugénio com 13 cada um; e o Pessoa ortónimo com 12. Falta gente? Falta sempre gente, mas, numa antologia de gosto, nem podia ser de outro modo. Porém, o cômputo é equilibrado. Uma lista feita por mim não podia ignorar 20 daqueles poemas. Gostei de me ver representado com um poema de 1983.

Clique nas imagens.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CAETANO & SCHWEBLIN


Hoje na Sábado escrevo sobre Verdade Tropical, a autobiografia de Caetano Veloso (n. 1942) que chegou finalmente a Portugal. Para esta edição comemorativa do vigésimo aniversário da sua publicação, o autor acrescentou um texto que ilustra o seu estado de espírito em 1997, confessando, sem pudor, que escreveu o livro para confrontar Paulo Francis: «conhecer a reação dele parece que me era necessário.» Mas Francis, um crítico célebre que tinha trocado o Rio por Nova Iorque, morreu precisamente em 1997, antes do livro sair: «Ele morreu quando eu esperava a explicitação do diálogo.» Caetano tinha-se exposto a pensar no que diria o implacável mogul. A decepção virou depressão. Fazendo questão de dizer que não é gay, nem bi, nem hetero («Somos sexuais»), Caetano execra as perseguições movidas, um pouco por toda a parte, contra os homossexuais. Cita com detalhe o caso de Cuba, com as óbvias excepções permitidas aos notáveis. Como sabem os seus admiradores, o activismo político do autor passa sobretudo por questões culturais e identitárias. Os incidentes verificados com a edição americana de Verdade Tropical vão com certeza desconcertar quem vive fora do mundo da edição. Isabel de Sena, filha de Jorge de Sena, foi a tradutora da edição da Knopf, e Caetano gostou do que leu. Mas o editor responsável alterou a ordem dos capítulos, rasurou alguns, e mandou uma colaboradora (que não sabia português) reescrever outros. Estas coisas acontecem todos os dias no universo editorial de língua inglesa, mas não é costume os autores comentarem. A edição francesa foi um desastre por ter sido feita a partir daquela. Os dois meses de prisão, antes do exílio em Londres partilhado com Gilberto Gil, são descritos com parcimónia. Sobre a capital britânica, o inesperado: «em dois anos e meio, não fui uma só vez ver uma peça de teatro inglesa, não assisti a um só concerto de música clássica, não entrei numa livraria ou numa biblioteca, e só fui aos museus […] na semana de voltar ao Brasil.» Os leitores portugueses vão com certeza achar curiosas as referências feitas ao actual Governo português, bem como ao cantor Salvador Sobral. Quatro estrelas. Publicou a Companhia das Letras.

Escrevo ainda sobre Distância de Segurança, o primeiro romance da escritora argentina Samanta Schweblin (n. 1978), que há seis anos é conhecida dos portugueses.  Quem leu os contos de Pássaros na Boca (2011) identifica a origem deste livro. A autora controla o imaginário nevrótico com a naïveté e a cadência que associamos à literatura para a infância: dicurso pedagógico, sincopado, não vá o leitor perder-se nos interstícios da história. O expediente não interfere com a recorrente intromissão do obscuro: «A minha mãe disse que aconteceria alguma coisa má. […] Já quase não há distância de segurança, o fio está tão curto…» O fio condutor enreda o plot num amálgama de derivas. Como detonador, um vírus mortal, que tanto pode ser antrax como outro tipo de agente biológico letal, no que parece ser uma alusão enviesada aos produtos agrícolas geneticamente modificados (neste caso, soja). O medo circula no ar. Os animais não são poupados. A terra devastada é ali. Tudo visto, confirma-se que o conto é a forma em que Samanta Schweblin melhor se exprime. Distância de Segurança foi um passo em falso. Duas estrelas. Publicou a Elsinore.

MODERNO ANTES DOS MODERNOS


Passou ontem na RTP-2 um documentário sobre Ruy Athouguia (1917-2006), um arquitecto que marcou Lisboa e Cascais, um dos maiores da arquitectura portuguesa, infelizmente pouco citado. Formado pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto, Ruy de Sequeira Manso Gomes Palma Jervis d’Athouguia Ferreira Pinto Basto sofreu o ónus dos homens e mulheres da sua geração que não pertenceram ao Partido Comunista. As origens aristocráticas, a fortuna da família, o facto de ter pertencido à alta sociedade e o total alheamento da vida política e dos lobbies corporativos, contribuíram para a omissão. A obra não pode ser rasurada, mas, à sua volta, o silêncio é ensurdecedor. Lá fora, Corbusier e Alvar Aalto, entre outros, não pouparam elogios. Para quem não sabe, Athouguia foi o arquitecto do Bairro das Estacas, da Escola do Bairro de São Miguel, da Escola Teixeira de Pascoaes, do Liceu Padre António Vieira, do Edifício Roma, do conjunto de seis edifícios da Praça de Santo António, do edifício-sede e do museu da Fundação Calouste Gulbenkian, etc., tudo isto em Lisboa, bem como de várias obras em Cascais, das quais se destacam a sua própria casa (amplamente citada, fotografada e estudada em revistas estrangeiras da especialidade), bem como as icónicas Casa Sande e Castro e a Torre do Infante. Em Abrantes, o Cineteatro São Pedro também é de sua autoria. O documentário de Nuno Costa Santos e Ricardo Clara Couto contou com depoimentos de Eduardo Souto Moura, muito enfático sobre a importância da obra de Athouguia, Graça Correia, Ana Tostões, Vasco Avillez e outros. O serviço público é isto.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

GUIDA MARIA 1950-2018


Vítima de cancro, morreu hoje a actriz Guida Maria, que no próximo dia 23 faria 68 anos. Guida Maria estreou-se com 7 anos de idade e nunca mais parou. Frequentou o Conservatório Nacional e, em Nova Iorque, a American Academy of Dramatic Arts e o Actors Studio. Até 1978 fez parte do quadro da companhia residente do Teatro Nacional D. Maria II. Popularizada pela televisão, também fez teatro e cinema. Com Os Monólogos da Vagina, de Eve Ensler, teve uma das suas interpretações mais recordadas: a peça esteve em cena no Casino Estoril, durante 4 meses, passando em seguida para o Teatro Villaret e depois para o Auditório dos Oceanos, tendo sido reposta no Casino Estoril entre Outubro e Dezembro de 2016.

RAZIA

Nos anos 1980 e 90, a sida dizimou um terço das figuras mais proeminentes da vida cultural americana. Da literatura à fotografia, passando pelo teatro, cinema, música, bailado, artes plásticas, ciência, universidade, jornalismo, publicidade e moda, a lista de mortos é eloquente. Quase todos homens, mas a morte da modelo Gia Carangi, em Novembro de 1986, provou à opinião pública que as mulheres não eram poupadas.

Nos últimos três meses, a vaga de denúncias por assédio sexual ameaça fazer o mesmo, mantendo os acusados vivos, para opróbrio universal. Tudo começou em Outubro, quando o produtor Harvey Weinstein foi acusado de abuso por várias actrizes. A vaga não parou. Entre actores, staff dos estúdios, altos responsáveis por instituições culturais, senadores e funcionários do Congresso, são mais de quinhentos os homens acusados nos Estados Unidos. O mais recente em data é o antigo bailarino Peter Martins, director do New York City Ballet, que se demitiu hoje, na sequência da divulgação de uma carta anónima, datada de 9 de Dezembro, na qual é acusado de ter obtido favores sexuais de duas dezenas de bailarinos da companhia. Como o mítico James Levine, director emérito da Metropolitan Opera, já tinha passado pelo mesmo em 3 de Dezembro, quando um homem de 48 anos, antigo aluno seu, o acusou de ter sido molestado durante durante oito anos consecutivos (1985-93), é caso para dizer que foram decapitadas as direcções das duas principais instituições culturais de Nova Iorque.

Tudo isto no dia em que 300 mulheres, ligadas à indústria cinematográfica, fundaram o Time’s Up, uma espécie de ONG que tenciona dar apoio e aconselhamento legal a vítimas de assédio sexual nos seus locais de trabalho, incluindo homens.

domingo, 31 de dezembro de 2017

MUNDO CÃO


Julga que a imagem é do Rio Janeiro ou São Paulo? Engana-se. A imagem foi obtida no bairro Skid Row, de Los Angeles. Exactamente. A cidade do glamour, onde acaba de ser vendida uma mansão por 500 milhões de dólares (sim, quinhentos). Em Skid Row vivem cerca de 60 mil sem-abrigo, ou seja, mais de 10% do total de sem-abrigo do país, que são 553 mil.

Segundo a OCDE, os países desenvolvidos com maior número de sem-abrigo são o Canadá, com 0,44% da população total, a Suécia (0,36%), o Reino Unido (0,25%) e os Estados Unidos (0,17%). Dá que pensar.

Clique na imagem.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

ANA MARGARIDA & RHODES


Hoje na Sábado escrevo sobre Pequenos Delírios Domésticos, de Ana Margarida de Carvalho. Depois do universo distópico que caracteriza o seu segundo romance (obra que a levou a bisar o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores), a autora regressa ao real com este livro de contos que leva por título um verso “roubado” a Sérgio Godinho. À laia de prefácio, Chão zero dá testemunho da devastação que assolou o país durante os incêndios de Outubro: «A minha infância é um esgoto atravancado de detritos.» A casa dos bisavós perdida num mar de cinza. Com invulgar economia retórica, e muita eficácia, a frase-síntese diz tudo. Um poema da autora, Apfelstrudel, separa esse texto de abertura do resto do livro. Estamos agora no centro das periferias desapossadas: os prédios-gaiola com as suas «vidraças enjauladas» e toda a panóplia Kitsch que dá cor à miséria dos que têm abertura de telejornal garantida, esse microcosmo de onde por vezes saem voluntários para as madrassas do ódio. Manuel, ou Man-hu-el (o rapaz convertera-se), foi um deles. A Síria pareceu-lhe uma boa solução para virar costas à disfunção familiar. Era isso ou continuar «aos caídos, a arrumar carros, a assaltar velhotas pensionistas para pagar a próxima dose…» Mas na hora da verdade faleceu-lhe a certeza. E o Chico também não foi capaz. O desfecho é absolutamente português. Não deixa de ser uma ironia que o adjectivo «domésticos» surja no título de um livro cujos primeiros contos estão focados em problemas de natureza planetária, tais como a tragédia das migrações e seus efeitos colaterais. Homens e mulheres, aos milhares, que o Mediterrâneo vai engolindo, depois de terem fugido da guerra, da fome, da escravidão, de toda a sorte de abusos e violências. A ilusão da terra prometida foi-lhes fatal: «E alguns, fiados nesse doce rugir da indulgência, deixam-se ir…» O conflito entre Israel e a Palestina não é esquecido. Ana Margarida de Carvalho tem uma prosa limpa, fluente em vários registos, dotada de vocabulário anterior ao regime tuiteiro. Sirvam de exemplo contos como Uma Vida em Centrifugação ou, mais denso, Os Elefantes Têm Sismógrafos nos Pés. Quatro estrelas e meia. Publicou a Relógio d’Água.

Escrevo ainda sobre Instrumental, a polémica autobiografia de James Rhodes (n. 1975), o pianista. Depois da querela judicial intentada pela ex-mulher, o livro pôde finalmente publicar-se. O facto de Rhodes não omitir os abusos sexuais sofridos em criança, fonte de danos na coluna vertebral e do stress pós-traumático que o atormentou durante anos, foi o argumento usado, pois poderia perturbar o filho. Lendo as páginas 99 e 100 percebe-se porquê. Por fim, um tribunal superior desatou o nó e o livro saiu. Ainda bem, porque é o relato desassombrado de um artista que foi ao fundo e conseguiu voltar à tona: «O abuso sexual na infância tem o efeito imediato de nos decepar uma perna…» O leitor não pode deixar-se iludir pelo índice. Por trás dos títulos dos capítulos (obras de música clássica) estão histórias muitas vezes chocantes, narradas com desembaraço, ironia e, podemos dizê-lo, elegância. A superioridade moral dos ‘militantes’ das redes sociais, a cultura da celebridade, o uso de drogas, a hipocrisia da opinião pública relativamente aos casos de pedofilia, os transtornos psicológicos, e outros temas, preenchem páginas bem conseguidas. Mas também ficamos a conhecer a história das Variações Goldberg, de Bach. Cinco estrelas. Publicou a Alfaguara.

BEST OF INTERNACIONAL 2017


As minhas escolhas estrangeiras de 2017, publicadas hoje na revista Sábado. Três romances, uma biografia e uma colectânea de ensaios.

Celebrado como contista, George Saunders estreou-se no romance com Lincoln no Bardo. Em registo tardo-modernista, o livro ficciona a depressão sofrida por Abraham Lincoln após a morte do terceiro filho. A sintaxe desconcerta, a filiação à literatura do absurdo obscurece por vezes a narrativa, mas o leitor deixa-se levar pelos fantasmas que assombram a obra.

Toda a gente ouviu falar de Nathan Zuckerman, o protagonista de nove romances que Philip Roth publicou entre 1979 e 2007. O Escritor Fantasma inaugurou a série, mas chegou ao nosso país depois dos outros. Digressão sobre as origens judaicas do autor, a cena literária de Manhattan, a vida americana nos fifties e as contingências do sexo, o livro é um prodígio de sarcasmo em prosa de primeiríssima água.

Romance em três partes, O Teu Rosto Amanhã é provavelmente a obra mais famosa do espanhol Javier Marías, eterno nobelizável. Oscilando entre presente e passado, cruzando toda a sorte de referências culturais, políticas e sociológicas, o virtuosismo do autor faz um tour d’horizon ao século. Os volumes subtitulam-se, respectivamente, Febre e lança / Dança e sonho / Veneno e sombra e adeus. Notável.

A biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro é um monumento do género. Nelson, dramaturgo, cronista, romancista, contista, repórter e guionista, não foi um personagem liso, e é provável que só Ruy Castro estivesse à altura de pôr em letra de forma a vida do homem controverso que fez o teatro brasileiro entrar no século XX. A vários títulos, O Anjo Pornográfico é um capítulo da História do Brasil.

Seguir o raciocínio de George Steiner, o último renascentista vivo, releva do puro prazer. A selecção de 28 ensaios publicados na revista New Yorker, entre 1967 e 97, corroboram o papel central do autor no pensamento crítico dos últimos 60 anos. Soljenítsin, Orwell, Céline, Borges, Chomsky, Brecht, o caso Anthony Blunt visto sob nova luz, etc., são dissecados com a ‘força bruta de inteligência’ com que Steiner agarra o leitor da primeira à última página.

BEST OF NACIONAL 2017


As minhas escolhas de ficção nacional publicadas hoje na revista Sábado.

Chegada tarde à vida literária, Cristina Carvalho tem vindo a impor-se à revelia dos lobbies instalados. Rebeldia, o seu romance mais recente, conta a história de uma mulher que, no auge do salazarisno, decide ser senhora do seu destino. Narrado com a tinta forte do realismo sem filtro, o romance tem passagens de rara violência verbal, carga sexual incluída.

Com uma escrita limpa e polida até ao osso, Bruno Vieira Amaral é das vozes mais assertivas da ficção nacional — ao ponto de ter inscrito o Bairro Amélia no cânone. Hoje Estarás Comigo no Paraíso demonstra como, a partir de uma grelha autobiográfica habilmente ficcionada, o romance coloca ao leitor questões da sua própria contemporaneidade.

O romance de estreia de Dulce Garcia, Quando perdes tudo não tens pressa de ir a lado nenhum, confirmou a vitalidade da ficção nacional escrita por mulheres. Numa prosa seca, isenta de autocomplacência, a autora ilustra o terreno movediço de todos os interditos: sexo, droga, violência e disfunções familiares, atrito conjugal. Epítome do estranhamento, a  ‘mulher do saco’ entrou assim na galeria das heroínas de ficção.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

IRONIA

Se, em vez de eleições legislativas, a Catalunha tivesse votado ontem um referendo, a vitória teria sido do bloco constitucionalista, que obteve 52,1%. Dito de outro modo, continua a ser maior (embora por margem curta) o número daqueles que não querem a independência.