sexta-feira, 18 de agosto de 2017

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Um segundo atentado, desta vez na estância turística de Cambrils, a 120 quilómetros de Barcelona, provocou um morto e dez feridos. Tudo se passou no Paseo Marítimo, perto do Clube Náutico, cerca da uma hora da madrugada. A polícia abateu cinco terroristas. Os dois atentados, Barcelona e Cambrils, provocaram catorze mortos e mais de cem feridos, uma dúzia dos quais ainda em estado muito crítico. As vítimas são de 20 nacionalidades diferentes, incluindo uma mulher portuguesa de 74 anos.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

TERROR EM BARCELONA


Eram quatro da tarde em Lisboa quando uma carrinha atropelou deliberadamente, ao longo de cerca de 700 metros, várias pessoas que circulavam nas Ramblas de Barcelona. Estão confirmados, até ao momento, treze mortos e mais de 50 feridos, dez dos quais em estado muito grave. O terrorista é um indivíduo de origem marroquina. Noutro ponto da cidade, um provável cúmplice atropelou um polícia num auto-stop, mas foi prontamente abatido.

Clique na imagem de El País para ler melhor.

NAIPAUL & DONOGHUE


Hoje na Sábado escrevo sobre a reedição, com nova tradução, de Para Além da Crença, de V. S. Naipaul (n. 1932). Uma reedição deveras oportuna. Em 1998, quando o livro foi publicado, ainda o tema do Islamismo não fazia manchetes. Oriundo de uma família indiana radicada em Trindade, Naipaul, autor britânico, tornou-se célebre por uma obra consistente que faz da denúncia da corrupção política o item central. Quando em 2001 recebeu o Nobel da Literatura, foi isso mesmo que a Academia Sueca sublinhou. Em Para Além da Crença, o foco é a religião. O livro resulta de uma viagem de Naipaul a quatro países muçulmanos não-árabes (a Indonésia, o Irão, o Paquistão e a Malásia), prolongando o relato, sobre os mesmos países, iniciado com Entre os Crentes, publicado em 1981, no auge dos excessos da teocracia iraniana. Naipaul é peremptório em várias das suas conclusões, embora faça questão de exarar que este «não é um livro de opiniões». Por exemplo, o Islamismo seria uma forma de imperialismo, uma forma de reagir à globalização: «O Islão e a Europa, dois imperialismos em competição, tinham chegado à Indonésia quase ao mesmo tempo, e, juntos, haviam destruído o longo passado budista-hinduísta.» A estratégia narrativa faz lembrar a de Svetlana Alexievich, ou seja, a de deixar os outros falar. A diferença reside no facto de Svetlana não largar a pele de repórter, enquanto Naipaul não abdica do estatuto de autor. Ela compõe reportagens, ele conta histórias: «Este é um livro sobre pessoas.» E de facto assim acontece, porque são os seus retratos que nos transmitem a natureza desses países. Como entender a Indonésia de Suharto, o homem dos brutais massacres dos anos 1960, sem conhecer a história de Imaduddin? O mesmo se diga de Mehrdad e da Teerão dos aiatolas. Ou da realidade malaia vista pelos olhos de Syed Alwi. O capítulo dedicado ao Paquistão (e o pecado original da secessão com a Índia) é muito interessante: «Ao fim de quarenta anos de cinismo e preguiça intelectual, o Estado, que, de início, era para alguns idêntico a Deus, tornara-se uma empresa criminosa.» Está na altura de um terceiro périplo. Cinco estrelas. Publicou a Quetzal.

Escrevo ainda sobre O Prodígio, de Emma Donoghue (n. 1969), romancista, contista, dramaturga, argumentista e historiadora do lesbianismo na literatura. A autora nasceu na Irlanda mas vive no Canadá, país que adoptou como seu e onde escreveu quase toda a obra. Com uma bibliografia extensa e abarcando vários géneros, O Prodígio é o segundo dos seus livros a ser traduzido em Portugal. Enquanto não chega Room, romance de 2010 inspirado no caso Josef Fritzl (o homem que encarcerou e abusou da filha durante mais de vinte anos), O Prodígio é um bom exemplo do à-vontade da autora a ficcionar temas perturbantes dos nossos dias. Com uma escrita fluente que transmite a natureza sinistra dos factos, tais como o jejum forçado de uma jovem rapariga, Donoghue construiu a sua história apoiada em relatos históricos. Aqui vemos como Lib Wright, uma enfermeira contratada por membros influentes da aldeia de Athlone, vai interagir com Anna O’Donnell. Estamos na segunda metade do século XIX, na Irlanda profunda que mal sobreviveu à Grande Fome dos anos 1840. Se Anna resistisse poderia até ser canonizada, o que não acontecia há muito tempo com nenhum irlandês. É neste quadro fantasmagórico que Donoghue nos força a conhecer uma realidade abominável. Quatro estrelas. Porto Editora.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

RUI KNOPFLI 1932-1997


Se fosse vivo, Rui Knopfli faria hoje 85 anos. No ano em que se assinala o 20.º aniversário da sua morte, um pequeno alinhavo sobre aquele que é um dos grandes poetas de língua portuguesa, em qualquer época. Nascido em Inhambane, Moçambique, a 10 de Agosto de 1932, foi com a família para Lourenço Marques ainda criança. Estudou em Moçambique e na África do Sul, tendo sido, sucessivamente, delegado de propaganda médica (1954-74), director do jornal A Tribuna (1974-75), adido de imprensa da delegação portuguesa na assembleia-geral das Nações Unidas (1975) e, nos últimos 22 anos de vida, conselheiro de imprensa na embaixada de Portugal em Londres (1975-97). Expulso de Moçambique em Março de 1975, pelo alto-comissário Vítor Crespo (o almirante tomou a decisão com base no editorial em que Knopfli denunciava o conúbio da Frelimo com a polícia política de Ian Smith), passou quatro meses em Lisboa antes de partir para a capital britânica.

Fotógrafo amador, colaborador assíduo da imprensa, tradutor exigente (cito apenas dois, T. S. Eliot e Edward Albee, pois de ambos foram publicadas em Portugal traduções suas), fundador, com João Pedro Grabato Dias, dos cadernos de poesia Caliban (1972-73), polemista, deixou uma obra ímpar: O País dos Outros, 1959, Reino Submarino, 1962, Máquina de Areia, 1964, Mangas Verdes com Sal, 1969, que teve uma segunda edição aumentada em 1972, A Ilha de Próspero, 1972, reeditado em Portugal em 1989 (com as fotografias originais, a preto e branco, impressas a cores), O Escriba Acocorado, 1978, O Corpo de Atena, 1984, prémio de poesia do PEN, e O Monhé das Cobras, 1997. Por duas vezes a sua obra foi reunida em volumes de poesia completa: Memória Consentida, 1982, e Obra Poética, 2003. Para Setembro está prevista a publicação, pela Tinta da China, de uma antologia organizada por Pedro Mexia.

Um dos episódios mais caricatos à volta da sua obra relaciona-se com a antologia Rosa do Mundo (2001), da Assírio & Alvim. Knopfli surge no cartapácio como tradutor do polaco Zbigniew Herbert e do chinês Tao Li. Sucede que O Livro Melancólico de Tao Li é puro gozo do autor. Dito de outro modo, Tao Li é Knopfli himself, um detalhe que escapou ao especialista (Gil de Carvalho) em poesia chinesa. Fui seu amigo a partir de 1971, conheci Mécia e Jorge de Sena na sua casa de LM, era seu hóspede regular quando ia a Londres. Quando regressou a Portugal, em Agosto de 1997, vinha já muito doente. O dia de Natal daquele ano foi muito triste: o Rui morreu depois do almoço. A 27 fui a Vila Viçosa para a despedida final.

A foto foi tirada por Jorge Neves (meu marido), em 1981, na casa de Eugénio Lisboa em Londres.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

DUNQUERQUE


Se ainda não viu, vá ver Dunkirk, de Christopher Nolan, com um elenco de actores pouco conhecidos, mas Jack Lowden não me escapou. Kenneth Branagh, única estrela, não adianta nada ao filme. O protagonista, se assim lhe podemos chamar, é Fionn Whitehead, que vêem na imagem. Receio que os espectadores com menos de 50 anos não percebam o que estão a ver. O filme atém-se ao essencial: a retirada anglo-francesa de Dunquerque, entre 25 de Maio e 4 de Junho de 1940. Onze dias decisivos em que foram resgatados trezentos mil homens por mar. O escritor inglês P. G. Wodehouse, que vivia em Le Touquet, na região de Pas-de-Calais, não só não ficou incomodado com a carnificina (cerca de cem mil mortos, dois terços dos quais britânicos), como se tornou colaboracionista nazi. Mas isso o filme não conta. Foi a seguir a Dunquerque que Churchill fez o discurso famoso: «Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança e força crescente no ar, defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas. Nunca nos renderemos.» Só não percebo por que razão o título não foi traduzido. Porquê Dunkirk em vez de Dunquerque?

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

JOÃO LUÍS BARRETO GUIMARÃES


Com Mediterrâneo, João Luís Barreto Guimarães acaba de vencer o prémio de poesia António Ramos Rosa, da Câmara de Faro. O júri era constituído por Nuno Júdice, José Tolentino Mendonça e Adriana Nogueira.

sábado, 5 de agosto de 2017

EUROSONDAGEM


Maioria de Esquerda = 56,8%. A diferença entre o PS e o PSD passou para quase treze pontos (12,7%). Sozinho, o PS ultrapassa a PAF, que continua a descer e soma agora 35%. Clique na imagem do Expresso para ler melhor.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

CRISTINA CARVALHO


Hoje na Sábado escrevo sobre Rebeldia, o romance mais recente de Cristina Carvalho (n. 1949), no qual a autora recria o universo de um certo Portugal, nos anos 1950. O detonador da intriga é o desejo de emancipação da protagonista e narradora, alguém que tem um olhar muito crítico sobre o atavismo da sociedade à sua volta. Da modesta pensão de Coimbra, gerida pelos pais, à casa da madrinha, em Lisboa, persiste o desdém por gentes e costumes: «Cavalheiros e mastronças que a única coisa que desejavam era casar as filhas de véu e grinalda, tudo branco e, claro, verdadeiramente virgens.» Ao contrário da vontade da narradora, adepta confessa de «uma valente foda». Em obras anteriores, a autora tem dissecado todo o tipo de comportamentos, dos mais convencionais aos de índole esotérica, mas tem-no feito quase sempre sem recurso ao jargão rude da coloquialidade. Nesse aspecto, Rebeldia marca um ponto de viragem. São recorrentes frases como, «O miúdo masturbava-se e nós fodíamos à noite…» A violência verbal manifesta-se mesmo nas mais prosaicas reflexões sobre a vida portuguesa durante os anos ominosos do Estado Novo. O fio da história é linear. A narradora descreve um casamento frustrado com a tinta forte do realismo sem filtro. O desprendimento familiar é de rigueur. Em compensação, sobreleva um peculiar ‘apego’ aos porcos chafurdando nas pocilgas. Os odores do chiqueiro, tão apreciados pela narradora, arrastam consigo uma forte carga sexual. Leninha tem 24 anos quando desembarca em Santa Apolónia. «Vou ser médica. Está resolvido!», dissera aos pais atónitos. Em Lisboa vai morar para a Ajuda, zona da cidade que não seria o nirvana, mas uma ida à Baixa não altera o estado de espírito: «Umas ruas atrás das outras, prédios escuros, lojas de panos, alfaiates e pastelarias.» A heterodoxia não conhecia limites. Chegou a pensar que invejava «a sorte e o destino das putas da Calçada da Memória.» Mal por mal… Os anos passam, Leninha casa com um homem que desaparece de vez em quando, a vida conjugal roça a abjecção, o filho é um estorvo. A linguagem crua é um dos traços distintivos do romance. Veja-se, logo no primeiro capítulo, o relato da urinação de pé, colada aos arbustos de um muro. Quatro estrelas. Publicou a Planeta.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

AVIÃO ATROPELA BANHISTAS


Já nem na praia se pode estar descansado.
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terça-feira, 1 de agosto de 2017

SCARAMUCCI OUT

Anthony Scaramucci aguentou-se dez dias como director de comunicação da Casa Branca. A sua demissão terá sido exigida pelo general John Kelly, o novo Chief of Staff (ocupa o cargo desde ontem). Era um ou outro. Kelly recusava trabalhar com alguém que chamou “maldito”, “esquizofrénico” e “paranoico” a Reince Priebus, o seu antecessor como Chief of Staff. De caminho, Scaramucci terá de ir teorizar sobre fellatios para outras bandas.

SAM SHEPARD 1943-2017


Aconteceu no dia 27 de Julho, mas só ontem a família divulgou. Vítima de esclerose lateral amiotrófica, Sam Shepard morreu. Tinha 73 anos. Mais conhecido como actor de teatro e cinema, Shepard foi um escritor e dramaturgo laureado, tendo recebido o Pulitzer em 1979. Como eu gostava de ver os Artistas Unidos fazerem Buried Child, que ainda o ano passado foi novamente encenada em Londres, com Ed Harris no protagonista. Também escreveu argumentos para cinema, como por exemplo os de Zabriskie Point (1970, Antonioni), Paris, Texas (1984, Wenders) e, a partir de uma peça sua, Fool for Love (1985, Altman). Durante vários anos, a Village Voice atribuiu-lhe o Obie, o mais importante prémio do teatro Off-Broadway. Foi casado durante trinta anos com Jessica Lange, mãe dos seus filhos mais novos. A ligação amorosa com Patti Smith provocou turbulência no casamento com a primeira mulher, mas o casal mudou-se para Londres. Em 2009 e 2015, Shepard foi preso por conduzir embriagado. Além de teatro, escreveu contos e livros de memórias.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

JEANNE MOREAU 1928-2017


O dia começa mal. A governanta de Jeanne Moreau encontrou-a morta esta manhã. A Moreau foi uma das poucas actrizes que não precisou de Hollywood para nada: trabalhou com todos os realizadores que importam (Orson Welles foi um deles) e foi sempre magnífica. A minha geração, que cresceu com ela, mais as Magnani e as Signoret, contraponto europeu aos ícones americanos, vê morrer todos os dias um mundo que deixou de existir. O primeiro filme de que me lembro é Jules e Jim (1962), de Truffaut. Mas é impossível ter visto tudo, numa carreira com cerca de 130 filmes, sem contar com as séries e documentários para televisão, mais as 60 peças de teatro. Agora acabou. Tinha 89 anos.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

OBAMACARE, SIM

Por 51 votos contra 49, o Senado americano impediu a revogação do Obamacare. Quem fez a diferença foram três senadores Republicanos, que se juntaram aos 48 Democratas e chumbaram a Lei. O povo americano pode (e deve) agradecer a Susan Collins e a Lisa Murkowski, cujas posições anti-Trump são públicas, mas sobretudo a John McCain, que depositou o voto decisivo. Trump ainda não parou de espernear.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

A MITÓMANA

O perfil de Isabel Monteiro, a conta-mortos, vai ganhando contornos. Ontem à noite, a edição online da revista Sábado dá conta de uma novidade:

«Isabel Monteiro foi hoje [ontem] ouvida na sede da Polícia Judiciária em Lisboa para mostrar a sua lista. Segundo informou às redacções o Ministério Público, da análise dos elementos recolhidos apurou-se a existência de diversas imprecisões quanto à identificação das pessoas indicadas na referida lista, bem como repetição de nomes em, pelo menos, seis situações

Nada que não fosse previsível. Segundo a Lusa, a Dialectus é a quarta empresa de Isabel Monteiro nesta área (conteúdos para televisão) que abre falência, havendo processos judiciais referentes a empresas antigas pendentes há pelo menos dez anos.

O que terá levado a SIC a dar tempo de antena a esta fulana?

terça-feira, 25 de julho de 2017

CATA MORTOS


Li agora um resumo o CV da empresária que anda à cata de mortos em Pedrógão Grande. Isabel Monteiro gere uma empresa de conteúdos para televisão, a Dialectus, facto que explica o rápido acesso a tempo de antena. Enfim, a Dialectus é conhecida no meio artístico pelos salários e subsídios em atraso, sobretudo desde a denúncia pública do CENA, o Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual, que fez uma acção de protesto em frente à sede da empresa. Se mal pergunto: a criatura interrompeu os banhos no Ancão (ou seria na Trafaria?) para vir contar mortos em Pedrógão Grande?

segunda-feira, 24 de julho de 2017

É DO VINHO?

Anteontem, o Expresso descobriu que afinal as vítimas mortais do incêndio de Pedrógão Grande são 65 e não 64: uma mulher terá sido atropelada quando fugia. Mas, hoje, o i, diz que uma empresária fala em mais de 80 nomes e explica como já confirmou 73. E, acrescenta o tablóide, um habitante de Nodeirinho diz que o número é de três dígitos, enquanto o funcionário de uma funerária afirma: «Só eu vi mais de 95 corpos.» É do vinho? A Judiciária já chamou esta gente para provar o que diz, identificando os mortos supostamente não contabilizados? As famílias não vêm à televisão protestar? Se o que certa imprensa diz for verdade, é muito fácil demonstrar que fulano, beltrano e sicrano não constam do inventário oficial.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

VAMOS FALAR DE DISCRIMINAÇÃO?


Desde 2002, os primeiros-ministros britânicos recebem em Downing Street uma delegação de activistas LGBT. Representantes de várias áreas da sociedade (artistas, professores, cientistas, escritores, sociólogos, políticos, etc.) reúnem-se no n.º 10 para tomar o pulso aos direitos e deveres de cada campo. Foi assim com Tony Blair, Gordon Brown, David Cameron e continua com Theresa May. Porém, um homem, e não é um homem qualquer, tem sido sistematicamente banido do comité de notáveis. Estou a falar de Peter Tatchell, 65 anos, activista de direitos humanos desde 1969, membro do Green Party e do grupo OutRage.

Tatchell nasceu em Melbourne, na Austrália, mas radicou-se no Reino Unido em 1971 e tornou-se cidadão britânico em 1989. Como activista LGBT participou em campanhas em vários países, designadamente na Rússia, Iraque, Síria, Palestina, Irão e no Zimbabwe, onde a polícia pessoal de Mugabe o brutalizou, sofrendo ainda hoje de sequelas da tortura. Tendo participado na luta anti-apartheid na África do Sul, criou um lobby no ANC que levou o partido de Mandela a aceitar os direitos dos homossexuais: a África do Sul é o único país africano que permite e reconhece legalmente o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Em 1983, quando ainda era membro do Labour, foi difamado e ameaçado de morte (a coisa meteu tiros) durante a campanha eleitoral no círculo de Bermondsey. A Fundação que criou é uma referência mundial nos direitos LGBT. 

Resumindo: não estamos a falar de alguém que vai às recepções de Buckingham preencher quota. Não obstante, Theresa May, tal como os seus antecessores, acha-o inconveniente.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

FILIPA MELO


Hoje na Sábado escrevo sobre Dicionário Sentimental do Adultério, de Filipa Melo (n. 1972), obra singular que acaba de chegar às livrarias. Com desembaraço e alguma ironia, a autora cruza fontes históricas e bibliográficas com textos literários de todas as épocas, compondo uma panorâmica do adultério tout court. Sem pretenciosismos académicos, o Dicionário... leva-nos de Abraão a Zeus. Como qualquer dicionário, também este está ordenado por ordem alfabética: Abraão, Bovary, Cleópatra, Doidas, Espinosa, Festa dos Cornos (nos Açores) e assim sucessivamente. Num registo heterodoxo, a autora não hesita em considerar a ligação de Abraão com Agar um acto equivalente ao que hoje chamamos barriga de aluguer. Não deixa de ter razão: a condescendência da mulher de Abraão de certo modo antecipou essa prática hoje comum. O verbete dedicado a Hollywood é ilustrado com a ligação entre Ingrid Bergman e Roberto Rossellini, ambos casados. Ingrid engravidou antes de divorciar-se e o tom das manchetes provocou, como sói dizer-se, alarme social. O caso foi discutido no Senado, onde Ingrid e Rossellini foram apelidados de «agentes do Diabo» (um pedido oficial de desculpas chegaria vinte anos mais tarde). Um exemplo típico da hipocrisia social nos anos 1940 e 50. Em Estatísticas, somos confrontados com uma série de estudos sobre hábitos e comportamentos sexuais. Uma citação da antropóloga Helen Fisher relacionada com períodos de adultério permissivo em «139 sociedades estudadas na década de 1940», deixa o leitor pendurado. O trecho remete para a fonte (a obra Anatomy of Love, de 1992), mas não nos diz quais as sociedades onde, em certas datas comemorativas, homens e mulheres podiam ter relações extra-conjugais com os respectivos cunhados. É pena. O adultério de Maria Adelaide Coelho, tornado público em 1918, expõe com clareza a subalternidade das mulheres. Filha e herdeira do fundador do Diário de Notícias, Maria Adelaide abandonou a casa de família, o palácio de São Vicente, para seguir o amante, vinte anos mais novo. Apoiado em pareceres clínicos, o marido, o influente Alfredo Carneiro da Cunha, internou-a num hospício do Porto durante oito meses (o amante esteve preso sem culpa formada durante quatro anos) e desapossou-a de todos os bens. Doida, diziam eles. Três estrelas. Publicou a Quetzal.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

GEORGE ROMERO 1940-2017


Vítima de cancro no pulmão, morreu ontem George Romero, o realizador que inventou os zombies. Quem não se lembra de filmes como A Noite dos Mortos-Vivos (1968) ou, meu preferido, O Despertar dos Mortos (1978), passado no cenário fantasmático de um shopping? Era um realizador de segunda linha? E daí?

sábado, 15 de julho de 2017

O QUE É ISTO?


Alertado por um amigo para as enormidades que contém, fui ler a entrevista de Gentil Martins ao Expresso. Inqualificável sob vários pontos de vista. O campeonato do não há ninguém mais politicamente incorrecto do que eu dá azo a todas as alarvidades. A pérola contida na imagem suscita uma interrogação: em 63 anos de carreira formal, o indivíduo terá presidido a dezenas de concursos. Quantos homossexuais, homens e mulheres, preteriu? Não há ninguém interessado em investigar?