quinta-feira, março 26, 2015

ANA CÁSSIA REBELO


Contra a corrente da guerrilha partidária, Ana Cássia Rebelo (n. 1972) impôs à blogosfera uma persona desprovida de cautelas, Ana de Amsterdam. O blogue ressurge em forma de livro, prefaciado por João Pedro George, responsável pela selecção dos textos. Fica exarado: «uma grande escritora, uma radiação nova na literatura portuguesa.» Parece exagero, mas não é. Fala ainda de autoflagelação, sublinhando a ausência de literatice. Toda a escatologia será castigada. Ana Cássia Rebelo tem contra ela o atavismo do País e o conservadorismo do Meio. Estamos a falar de um diário avesso ao decoro, e de alguém que, à revelia do guisado normativo, põe em pauta a vagina: «Com esse cabelo preto deves ter um bom grelo. Lambia-to todo!». Gente sensível vai com certeza torcer o nariz: violência doméstica, disfunção sexual feminina, depressão, homens de pila mole, quotidiano em queda livre pelo travão engasgado do Escitalopram, suicídio abortado. Meia dúzia de escritores: Adília Lopes, aliás Maria José, entra na categoria dos afectos; Isabela Figueiredo no desencontro das memórias moçambicanas. O romance da empregada do minimercado é um tropo? Em suma, Ana Cássia Rebelo dinamita o código não escrito dos limites à emancipação de género. Não é pequeno mérito.

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terça-feira, março 24, 2015

HERBERTO HELDER 1930-2015


Herberto Helder, por muitos considerado o maior poeta português vivo, morreu ontem em Cascais. Tinha 84 anos. Nascido no Funchal, Herberto veio adolescente para Lisboa. Publicou os primeiros poemas em 1952, e o primeiro livro, O Amor em Visita, em 1958. Em 1973, com oito livros publicados, entre eles Os Passos em Volta, obra-prima da prosa em língua portuguesa, ainda a crítica dominante não alinhava no unanimismo dos últimos vinte anos. Os Poemas Completos foram publicados em Outubro de 2014 pela Porto Editora. Herberto recusou todos os prémios que lhe atribuíram, incluindo o Prémio Pessoa.

Avesso à exposição pública, Herberto teve na vida várias profissões e ocupações. Foi empregado da Caixa Geral de Depósitos, angariador de publicidade para o Anuário Comercial português, funcionário do Serviço Meteorológico Nacional (na Madeira), delegado de propaganda médica entre 1955-58, guia de marinheiros em Amesterdão, encarregado no serviço de Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian, redactor da Emissora Nacional, publicista, director literário da Estampa, colaborador da revista angolana Notícia, revisor tipográfico da Arcádia, redactor de notícias na RDP em 1974, tradutor, etc. Nos anos 1950 fez parte das tertúlias surrealistas do Café Gelo, nos anos 1960 viajou por vários países europeus e no início dos anos 1970 passou uma temporada em Angola.

Como digo num ensaio sobre A Faca não Corta o Fogo, que publiquei em 2009, e está compilado em Aula de Poesia — Não é fácil falar de Herberto, porque Herberto queima pontes, dando a ler uma suma com um pé no romantismo alemão, outro no imagismo russo, fora tradições inesperadas como a dos ameríndios. [...] Afinal, se Herberto fosse um poeta igual a tantos que vicejam nos departamentos de literatura, Novalis refulgiria intacto nos interstícios da voz. [...] Lembrar, muito a propósito, o verso famoso: «Não posso escrever mais alto». A minha geração cresceu com Herberto, repetindo versos irrepetíveis...

Agora vou reler Photomaton & Vox (1979), prosa de primeiríssima água.

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O ARMÁRIO


Desde que no ano passado Douglas Gotterba revelou publicamente ter mantido uma relação amorosa com John Travolta, a qual teria durado de 1981 a 1987, a imprensa tablóide americana não mais largou as canelas do actor. Os jornais de referência já abordaram o tema (o pretexto foi o anúncio da publicação de um livro em que Gotterba conta tudo com detalhes e muitas fotografias) e, pelo meio, surgiram três massagistas acusando Travolta de comportamento “impróprio”. Agora a coisa mudou de patamar. Travolta seria amante de Tom Cruise desde que rompeu com Gotterba, ou seja, desde 1987. Os dois são membros da Igreja da Cientologia, nasceram com oito anos de intervalo (Travolta em 1954, Cruise em 1962) e casaram com mulheres. A revista Star ocupa a capa com a revelação e vendem-se t-shirts com a frase Top Gun, Bottom Gun, um prodígio de subtileza. Quem leu as biografias de alguns grandes actores dos anos 1930-60, não tem de admirar-se. Mas hoje o Armário não fez sentido.

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quinta-feira, março 19, 2015

LEONARDO PADURA


Hoje na Sábado escrevo sobre Hereges, do cubano Leonardo Padura (n. 1955), conhecido pelos romances centrados na personagem do detective Mario Conde. O oitavo da série acaba de chegar à edição portuguesa. Hereges confirma a propensão do autor para a ficção historicista, de que é exemplo O Homem que Gostava de Cães (2009), sobre a execução de Trotsky por Ramón Mercader, agente da NKVD. Não obstante o lastro histórico, Hereges não dispensa Mario Conde, ausente do romance sobre Trotsky. O título aproveita o sentido coloquial que os cubanos dão ao termo “hereje”. As quatro partes em que está dividido têm ressonâncias bíblicas: Livro de Daniel, Livro de Elias, Livro de Judith e, a fechar, Génesis. Faz sentido, pois a trama incide sobre um incidente ocorrido em 1939, quando o comandante do transatlântico S. S. Saint Louis, oriundo de Hamburgo, com «novecentos e trinta e sete judeus autorizados a emigrar» pelo governo alemão, foi impedido de os desembarcar. Hereges é um thriller com a diáspora judaica em pano de fundo. Aqui e ali, surgem referências a situações e personagens de obras anteriores de Padura. Como fio condutor, um relato de N. N. Hannover sobre o genocídio dos judeus na Polónia entre 1648 e 1653. Partes desse relato estão inseridas no romance, «com os cortes e retoques necessários» e, naturalmente, personagens de ficção. Contudo, é nas “entradas” de Mario Conde que a plasticidade narrativa de Padura atinge maior conseguimento, ilustrando, com desembaraço e em tom pícaro, os traços de carácter do antigo polícia, bem como a algazarra do quotidiano de Havana (em 1939 como agora), espécie de «compêndio do desastre». O livro recebeu o Prémio Ciudad de Zaragoza para romance histórico. Publicou a Porto Editora.

Escrevo ainda sobre Má Luz, do espanhol Carlos Castán (n. 1960). O livro é um exercício literário que decerto agradará a quem se impressione por literatice. A título de exemplo, o autor consegue meter na mesma sequência Marguerite Duras, Robert Antelme, Yann Andréa, os filmes Hiroshima mon Amour e India Song, o baloiço de Emmanuelle, as Éditions de Minuit, a fotógrafa Hélene Bamberger, Rudyard Kipling, Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad e Malcolm Lowry, mais os livros de autores mexicanos «acompanhados nas estantes por garrafas de tequila...» Podia citar outras sequências análogas. Também temos disto por cá, mas não serve de desculpa. Ficção é outra coisa, e um romance deve abster-se de prosaísmo aliteratado. Os franceses são exímios num género próprio, o récit, saco sem fundo onde cabe quase tudo, mas nem com esse álibi o “romance” de Carlos Castán chega lá. Publicou a Teorema.

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E VÃO DOIS


José Maria Pires, subdirector-geral da Justiça Tributária e Aduaneira, demitiu-se. A ideia de criar a Lista VIP de contribuintes terá sido sua. Quem será o próximo? A imagem é do Expresso.

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CITAÇÃO, 521


JORNAL DE NOTÍCIAS — «A lista VIP de contribuintes terá sido criada por José Maria Pires, actual subdirector-geral para a Justiça Tributária. Fontes ligadas ao Governo e à máquina fiscal garantem que a medida foi aprovada por Paulo Núncio.

Tudo começou quando o anterior director-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, Azevedo Pereira, exercia interinamente funções

Comentários para quê? A imagem é do JN. Clique.

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quarta-feira, março 18, 2015

A LISTA


Não vale a pena tapar o sol com a peneira. Enquanto foi o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos a corroborar a existência de uma bolsa de contribuintes VIP, o primeiro-ministro, a ministra das Finanças e o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais desmentiram à vez. Mas o deslize de um dirigente da Autoridade Tributária, perante quinhentos inspectores tributários estagiários, deitou tudo a perder. Hoje de manhã, a demissão de António Brigas Afonso, director-geral da Autoridade Tributária, deu ênfase à trapalhada. Um alegado porta-voz (?) do PSD terá dito que o primeiro-ministro acreditou nas informações da Autoridade Tributária. Verdade? Desde quando um primeiro-ministro despacha com directores-gerais? Adiante que o assunto fede.

Vem a talhe de foice lembrar a síntese de Júlio de Magalhães: «Vasculhando a história da República, desde a sua proclamação em 1910, afigura-se que, apesar de todas as vicissitudes ocorridas, nunca um Governo mentiu tanto e com tanto descaramento aos portugueses como o Executivo chefiado por Pedro Passos Coelho. Aqui se regista para memória futura

Amanhã, como demonstrado pela imagem, a Visão disseca o tema.

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terça-feira, março 17, 2015

O AVANÇO


A sentença que declarou O. J. Simpson “Não culpado” pelo assassinato de Nicole Brown estabelece o momento em que todos percebemos que a Justiça é um ardil. Transmitido em directo pela televisão, o julgamento teve uma audiência média de cem milhões de espectadores. Vem isto a propósito do desabafo de João Araújo, advogado de Sócrates: «O acórdão do Supremo Tribunal de Justiça representa um avanço.» Ora, tendo o STJ recusado o pedido de Habeas Corpus do antigo primeiro-ministro, falar de avanço causa perplexidade.

Por um lado, o STJ reconheceu a existência de irregularidades na parte que diz respeito ao reexame da medida de coacção por parte do juiz de instrução: «Em nosso entendimento, no caso vertente e quanto ao despacho de 24 de Fevereiro, a fundamentação inexiste. Falha que conduz necessariamente à irregularidade da mesma decisão.» Por outro, reconhecendo a impossibilidade de (no âmbito de um pedido de Habeas Corpus) fixar jurisprudência sobre que tribunal deve ficar com o caso, matéria que deverá «ser equacionada em sede adequada», o STJ coloca nas mãos da defesa de Sócrates um argumento de peso. Se e quando a questão do julgamento se colocar, metade das perguntas estarão respondidas. Salvo melhor opinião, o avanço é esse. E não é pequeno.

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domingo, março 15, 2015

CITAÇÃO, 520


Pedro Marques Lopes, Vai e não voltes, hoje no Diário de Notícias. Excertos, sublinhados meus:

«O governo finalmente apercebeu-se de que muitos portugueses estavam a abandonar o país. Muito a custo, parece ter admitido que isto de muita gente sair é capaz de não ser assim uma coisa tão boa. Que um país perder em três anos 7% da população ativa não será um bom indicador para o futuro da comunidade.

Vai daí, alguém se lembrou de pôr o secretário de Estado adjunto do ministro adjunto a tratar do assunto. [...]

Pedro Lomba [...] nem sabe quantos portugueses saíram. Como disse ao jornalista Paulo Magalhães, na TVI 24, acha que foi bastante gente e tem duas certezas: que não foram 400 mil pessoas e que há muita desinformação sobre o assunto. Aliás, percebeu-se pela entrevista que eram as duas únicas coisas que Pedro Lomba, de facto, sabia. Digamos que é um bocadinho estranho que o homem a quem foi dada a incumbência de tratar assuntos relacionados com a emigração não tenha sequer uma ideia de quantas pessoas estamos a falar. Até era fácil, bastava consultar a Pordata e teria a informação de que de 2011 a 2013 saíram 350 504  —  ainda não há registos respeitantes a 2014 e para 400 mil falta pouco. Detalhes, bem entendido. [...]»

[Imagem: Alberto Ruggieri. Clique.]

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sexta-feira, março 13, 2015

A OPINIÃO DA RUA


Estes gráficos do Expresso Diário dispensam comentários. Clique.

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CITAÇÃO, 519


Vasco Pulido Valente, Uma virtuosa excepção portuguesa, hoje no Público. Excertos, sublinhados meus:

«[...] Mais curioso é que não tenha aparecido em Portugal, como na Grécia ou em Espanha, nem uma federação da extrema-esquerda como o Syriza, nem um ajuntamento fortuito de inimigos da partidocracia e da austeridade.

O Bloco de Esquerda, já em si uma combinação de heresias do comunismo de Estaline e de Cunhal, não cresceu com a crise e, pelo contrário, acabou por se dividir e redividir, logo que os seus três fundadores, por uma razão ou por outra, desapareceram de cena. Pior ainda, da poeira dos dissidentes só saíram pequenos grupos quase domésticos, sem consistência e estabilidade, que se unem ou separam perante a indiferença do país, por pura fidelidade de seita ou por interesse pessoal de meia dúzia de indivíduos supostamente “representativos”.

Porquê? Principalmente, por várias razões. Em primeiro lugar, porque não há nada de original na linguagem e na acção (se as bizantinas manobras em que se ocupam merecem o nome)  dos novos salvadores da Pátria e presuntivos guias do povo. Toda a gente suspeita  — e muito bem —  que aspiram no fundo a parasitar o PS em troco de quatro ou cinco votos na Assembleia da República.

Não romperam com nada, querem uma Secretaria de Estado e o sublime prazer de uma vez na vida serem tratados por “Excelência”. [...]»

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quinta-feira, março 12, 2015

HILARY MANTEL


Hoje na Sábado escrevo sobre O Assassinato de Margaret Thatcher, colectânea de contos de Hilary Mantel (n. 1952), um dos quais irritou a opinião pública conservadora por ter ousado ficcionar o hipotético assassinato de Margaret Thatcher, «no Verão de 1983», ou seja, ainda no exercício de funções. Inicialmente destinado ao Telegraph, que o considerou inapropriado, o conto seria publicado no Guardian. A polémica foi empolada por declarações de deputados tories, revoltados com o que consideram ser a insensibilidade de Mantel para com as vítimas do IRA e os herdeiros de Thatcher. É esse conto, o único cuja publicação original não vem referida na nota bibliográfica, que dá o título ao conjunto. Mantel discorre com a displicência de quem comenta a meteorologia. Enquanto bebe chá com o homem que não esqueceu Bobby Sands e por isso vai abater a primeira-ministra britânica, a narradora, uma pacata dona de casa, desabafa: «É a forma como ela adora os ricos, como os adula. É o seu espírito filisteu, a ignorância dela e o modo como se congratula com essa ignorância. A sua falta de compaixão.» Quando por fim o atirador ajoelha para o tiro fatal, a sua exclamação («Regozijem-se, porra!») recupera o famoso dito de Thatcher por ocasião da Guerra das Malvinas: «Regozijem-se». Sendo o que suscita mais curiosidade, está longe de ser o melhor dos onze. Provavelmente, os que vituperam a rudeza de Mantel a respeito da antiga primeira-ministra, reagem com indiferença ao cinismo ácido de outros textos. Por exemplo, Harley Street é um manual neo-realista da solidão nas grandes cidades, o tédio dos pequenos empregos, o fadário das escolhas erradas, as contingências da idade, do sexo e da doença. Manipulando com virtuosismo o vocabulário rico de cambiantes, a prosa atinge momentos prodigiosos. Como quando, com domínio absoluto da prosódia, “vemos” Jodie a sofrer um QT-longo no momento em que surpreende o marido em flagrante: «Ela deixou-se cair sobre os vidros, tão suavemente como se fossem cetim, como se fossem neve, e a pedra calcária cintilava à sua volta, como um campo de gelo, cada laje com a sua aresta inchada e almofadada...» Quem nunca leu Mantel, a única mulher a vencer duas vezes o Man Booker Prize, não encontra aqui o fôlego dos romances sobre a Inglaterra dos Tudor, Wolf Hall (2009) e O Livro Negro (2012), mas nem por isso deixa de confrontar-se com uma das vozes mais singulares da literatura contemporânea.

Escrevo ainda sobre O Fotógrafo e a Rapariga, de Mário Cláudio (n. 1941). Chega ao fim a trilogia centrada nas relações particulares entre pessoas de idades muito diferentes. Começou com Bernardo Soares e um marçano que nunca leu Pessoa, prosseguiu com Leonardo da Vinci e um seu amado discípulo, até chegar a Dodgson e à rapariguinha que levou o celebrado matemático e fotógrafo a escrever Alice no País das Maravilhas. Escalorada por décadas de ofício, a escrita de Cláudio atinge uma coloratura de timbre proustiano. As passagens dedicadas a Dodgson fazem justiça ao homem que, apesar do anglicanismo, desdenhava «conivências institucionais». Hoje seria execrado. Ilustrada com os desenhos que John Tenniel fez para a primeira edição de Alice no País das Maravilhas, a novela merecia ter sido impressa em papel de melhor qualidade, de modo a fazê-las sobressair, evitando, do mesmo passo, interferir na leitura.

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quarta-feira, março 11, 2015

FOLHETIM


Aos meus amigos estrangeiros não faz espécie que Passos Coelho se recuse a identificar os patrões que teve em determinado período da sua vida. A esses meus amigos o que faz espécie é que não exista uma entidade pública (o Instituto da Segurança Social, a Autoridade Tributária, outras) que esclareça de vez o imbróglio contributivo do PM, no quadro do regular funcionamento das instituições que o Presidente da República é obrigado a garantir.

[Imagem: Público. Clique.]

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domingo, março 08, 2015

CITAÇÃO, 518


Vasco Pulido Valente, Folias do nosso tempo, hoje no Público. Sublinhados meus:

«Basta ligar a televisão para se perceber o estado de indigência intelectual e política a que chegou o país. A informação, que já foi sofrivelmente sensata, embora parcial e sumária, tem hoje o critério editorial do antigo semanário O Crime e da imprensa cor-de-rosa e desportiva.

Para começar, os portugueses são presenteados com horas do que antigamente se chamava “casos crapulosos”: a facada, o tiro, o roubo, a violência doméstica, histórias de tribunal, considerações de réus, de testemunhas, de advogados, de “populares”, da polícia e de um ou outro comentador de serviço. Depois do “crapuloso” vem o “acidente” e a catástrofe: desastres de avião e de automóvel, incêndios, tempestades de vento ou neve, inundações, tudo o que meta feridos, mortos, miséria e sangue.

Isto ocupa muito mais de metade do noticiário médio. O resto consiste numa pseudo-reportagem desportiva, ou seja, no dia-a-dia do futebol. A televisão não perde um jogo ou um golo que possa interessar a meia dúzia de fanáticos de um clube qualquer. Segue os treinos. Esclarece sobre o “plantel” da equipa A ou da equipa B, sobre os lesionados, sobre os castigados, sobre os “duvidosos”. Entrevista treinadores na véspera e no minuto seguinte aos “clássicos” e não-“clássicos” do campeonato. Jorge Jesus, por exemplo, é seguido com uma persistência e um zelo com que não se segue nenhum ministro, o primeiro-ministro ou o Presidente da República (agora tão retirado que o boato da sua prematura morte já corre pela província). E, através de tudo isto, Ronaldo, sempre Ronaldo, infinitamente Ronaldo.

O tempo que sobra (e o jornal da TVI, para só falar nele, dura uma hora e meia) vai para festas: festas de cozinha, festas de vinho, festivais da alheira, do presunto e do chouriço, de quando em quando as prodigiosas fabricações do chefe A ou do chefe B e, continuamente, o sabor e o aroma dos tradicionais produtos deste nosso querido Portugal (que não se vendem nos supermercados, nem nas mercearias de Lisboa).

Não admira que, neste banho cultural, a política tenha pouco a pouco adoptado a natureza da televisão. Com um esforço sublime consegue concorrer, e colaborar, com os “valores” que regem os noticiários e não pára de nos dar novos motivos de interesse e estima: a barafunda Sócrates, a barafunda BES, os mistérios dos vistos gold, o velho incumprimento fiscal de Passos Coelho, a prisão de um inspector da polícia, a mentira impenitente e descarada no parlamento e fora dele. Portugal acaba com certeza por se transformar num “filme negro” (anos 40), sem Bogart, nem Bacall. E nós, pachorrentamente, assistimos na nossa cadeira

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CAVACO & O SEXO DOS ANJOS


Cavaco Silva acabou mesmo por comentar a situação contributiva e fiscal de Passos Coelho. Fê-lo ontem, da pior forma possível, numa empresa cervejeira, reduzindo a questão a um jogo de lutas político-artidárias, próprio de quem faz da chicana o seu modo de vida. Simplesmente vergonhoso.

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sábado, março 07, 2015

TURNING POINT


Quem me lê, sabe o que penso de Cavaco Silva e da sua actuação como Presidente da República. Mas não alinho no coro dos que consideram que devia pronunciar-se sobre as dívidas do primeiro-ministro à Segurança Social e ao Fisco. Admitindo que, em privado (como deve ser), o PR pediu explicações ao PM, temos de concluir uma de duas coisas: ficou esclarecido com a resposta, ou aguarda para ver para que lado sopra o vento. Perturbador, nos dois casos. Sobra a hipótese remota de ter feito sentir ao PM que a situação atingiu o ponto de não retorno. A “imunidade” de que fala António Costa mergulhou o país num lodaçal.

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TRAPALHADA


Isto não é uma novela mexicana. É o país que temos.
Clique na imagem.

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sexta-feira, março 06, 2015

CITAÇÃO, 517


Joaquim Vieira, ontem na Antena 1. Sublinhados meus:

«Portugal conheceu nos últimos dias um Pedro Passos Coelho diferente daquele a que se habituara nos últimos quatro anos. Já não é o Passos Coelho do rigor, da intransigência, dos princípios inflexíveis, da disciplina sem exceção, da execução de um programa custe o que custar, da ultrapassagem da troika, do imperioso empobrecimento da população, do abandono da zona de conforto, da exigência fiscal, da cobrança coerciva de impostos, do agravamento das multas aos prevaricadores, da perseguição aos incumpridores e aos distraídos.

Agora temos o Passos Coelho que não é perfeito, que foge à observância das suas obrigações para com o Estado, que se esqueceu de pagar ou julgou que era facultativo, que nisso foi reincidente sem contrição, que vai a correr liquidar dívidas antigas só devido à ameaça da sua divulgação pública, que acha tudo isso normal e não censurável, o Passos Coelho um pouco videirinho, sem carreira profissional digna de nota fora da política, a gerir uma empresa para receber fundos europeus pagando uma formação inexistente, a viver de expedientes para compor um orçamento confortável, que recebeu um vencimento disfarçado em despesas de representação, ao mesmo tempo que se declarava deputado exclusivo para garantir o subsídio do erário público.

Por estranho que pareça, é o mesmo Pedro Passos Coelho, dr. Jeckyll e mr. Hyde, que ora é uma coisa, ora é outra, sem que os portugueses percebam onde está a sua verdadeira personalidade. Diz-se que a política não deve ser feita com base em julgamentos morais, mas que dizer quando o maior de todos os moralistas é afinal o mesmo que anos a fio fugiu aos deveres cujo cumprimento a todos exige?

Passos Coelho fez do acatamento das obrigações fiscais um dos pilares da sua política enquanto primeiro-ministro, mas agora vem explicar aos portugueses que não há mal nenhum em não pagar ao Estado e só o fazer quando, eventualmente, se for apanhado.

De um passado obscuro, emergiu o dr. Jeckyll que parece querer matar o Mr. Hyde. Nenhum deles merece governar, porque os Portugueses não merecem um governante assim

[Imagem: Spencer Tracy em Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1941. Clique.]

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quinta-feira, março 05, 2015

NÉLIDA PIÑON


Hoje na Sábado escrevo sobre A República dos Sonhos, de Nélida Piñon (n. 1937), brasileira de origem galega, traduzida em mais de vinte países, que não tem tido em Portugal a recepção crítica que merece. Autora de romances, contos, ensaios, crónicas e volumes de memórias, membro da Academia Brasileira de Letras desde 1989, Nélida recebeu no Brasil todos os prémios que havia para receber, e outros de âmbito internacional, entre eles o Prémio Príncipe das Astúrias de Letras, que em 2005 “roubou” a Philip Roth (que só o recebeu em 2012). Nenhum outro autor de língua portuguesa obteve a distinção. O romance ilustra a saga da construção do Brasil moderno. Dito de outro modo, põe em pauta a geração que cresceu do outro lado do Atlântico durante e após a Segunda Guerra Mundial. Nélida fixa um período concreto da história brasileira, observado sob perspectiva feminina, ou seja, pondo o acento tónico no papel da mulher como sujeito da História. Nenhum resquício de complacência ou ambiguidade. Nélida dispensa etiqueta de género. O título remete para as esperanças desencadeadas pela revolução que pôs termo à República Velha (1889-1930). Não obstante o rigor factual da narrativa, incorporando responsáveis políticos como Getúlio, Médici, Geisel, Figueiredo, etc., A República dos Sonhos extravasa o protocolo do romance histórico. Em grande angular, o plot dá voz a vários segmentos da população, em particular as mulheres (o papel de Nélida na defesa dos seus direitos tem sido internacionalmente reconhecido), os imigrantes, as vítimas da ditadura militar, os intelectuais forçados ao exílio: «Quem vai no futuro responder pelos que morreram em nome deste suposto desenvolvimento?» Limpa de excrescências, a trama flui sem ênfase, mantendo a coerência interna lá onde a deriva existencial podia servir de álibi. Manipulando tempo e espaço, a acção ocorre tanto no Rio de Janeiro como em Santiago de Compostela. Um grande autor tem esse privilégio.

Escrevo ainda sobre Última semana, do poeta inglês Hugo Williams (n. 1942), em tradução de Pedro Mexia. A colectânea abrange o conjunto da poesia do autor: Collected Poems (2002), Dear Room (2006), West End Final (2009) e I Knew the Bride (2014). Diria que é nos poemas confessionais, em especial os publicados entre 1985 e 2006, que lemos o Williams vintage. Editou a Tinta da China.

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CITAÇÃO, 516


Sócrates em carta enviada ao Diário de Notícias. Excertos:

«Ao atacar um adversário político que está na prisão a defender-se de imputações injustas, o senhor primeiro-ministro não se limita a confirmar que não é um cidadão perfeito, antes revela o seu carácter e o quanto está próximo da miséria moral. Num momento desesperado face às acusações de incumprimento das suas obrigações contributivas [...] não resistiu a trazer para a campanha eleitoral o processo em que fui envolvido. Em vez de atirar lama para cima dos outros, faria melhor em explicar aos portugueses se ele próprio cumpriu ou não cumpriu a lei. É um cobarde ataque pessoal

Clique na imagem para ler melhor.

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quarta-feira, março 04, 2015

A PROCISSÃO VAI NO ADRO?


No dia em que o PSD e o CDS chumbaram as nove perguntas do PS sobre as contribuições de Passos Coelho à Segurança Social, entre 1999 e 2004, o Expresso Diário revela a existência de processos de execução fiscal instruídos entre 2003 e 2007, envolvendo o actual primeiro-ministro.

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TOP 15 DA MISÉRIA


Conjugando dois parâmetros (a taxa de desemprego com o índice da inflação), a Bloomberg analisou as economias de 51 países. À cabeça, os mais miseráveis são: Venezuela, Argentina, África do Sul, Ucrânia, Grécia, Espanha, Rússia, Croácia, Turquia, Portugal, Itália, Colômbia, Brasil, Eslováquia e Indonésia. Notar que o nosso país ocupa a 10.ª posição.

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sábado, fevereiro 28, 2015

CITAÇÃO, 515


Ferreira Fernandes, hoje no Diário de Notícias. Excerto:

«[...] Se calhar, António Costa devia fazer um discurso à Ano do Macaco. Astuto, manhoso: ‘Então, vocês investiram na EDP, num país que se tornou um beco escuro?!’ Seria respeitado cá fora. A plateia é que não percebia

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quinta-feira, fevereiro 26, 2015

MAAJID NAWAZ


Hoje na Sábado escrevo sobre Radical, de Maajid Nawaz (n. 1978), o britânico de origem paquistanesa que durante catorze anos foi militante activo do grupo terrorista Hizb al-Tahrir. Em suma, um «recrutador islamita global». Escrito em co-autoria com Tom Bromley, Radical explica como Nawaz foi recrutado (e como mais tarde recrutou outros e organizou a célula de Copenhaga), o que fez no Hizb al-Tahrir, como reagiu ao 11 de Setembro, a política do olho por olho, o que passou na prisão de Torah, a ingenuidade dos «liberais bem-intencionados», etc. Preso e torturado no Egipto, arrependeu-se, regressou a Inglaterra, acabou os estudos e divorciou-se da mulher muçulmana. Com dois antigos camaradas do Hizb al-Tahrir fundou em 2008 a Quiliam, um think tank anti-jihad com sede em Londres. Nick Clegg, líder dos Liberais Democratas, fez dele candidato do partido pelo círculo de Hampstead e Kilburn. Nawaz mantém-se muçulmano e tem uma namorada americana. Tudo visto, revelador e enfadonho.

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CITAÇÃO, 514


Freitas do Amaral a propósito do Caso Sócrates, ontem na Grande Entrevista da RTP, conduzida por Vítor Gonçalves. Excerto:

«O Ministério Público e o TIC estão a actuar como se estivessem em ditadura

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terça-feira, fevereiro 24, 2015

PODE LÁ SER..., 2


Olha que surpresa! Leia os detalhes no Público. Se clicar na imagem, fica com uma ideia.

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PODE LÁ SER...


Queriam o quê? Uma sala com acesso biométrico, reservada a magistrados e funcionários judiciários credenciados para manusear documentos em segredo de justiça? Isso é nas séries da HBO e, claro, nos países que se dão ao respeito. A imagem é do Diário de Notícias. Clique.

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domingo, fevereiro 22, 2015

LUCA RONCONI 1933-2015


Vítima de pneumonia, Luca Ronconi morreu ontem em Milão, ao princípio da noite, a poucos dias de completar 82 anos. Natural da Tunísia, onde viveu até ao fim da adolescência, Ronconi, actor e encenador, marcou a cena teatral (Shakespeare, Ariosto, Goldoni, Ibsen, Pasolini, O’Neill e outros) e operática italiana e europeia (Mozart, Wagner, Monteverdi, Bellini, Verdi, Britten e outros) desde a segunda metade dos anos 1950.

[Imagem: foto de Andrea Merola, 2012. Clique.]

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sexta-feira, fevereiro 20, 2015

TWILIGHT ZONE


Quem tiver memória, tem o assunto resolvido. Quem não tiver, pode consultar os jornais de 2011, em particular os de Março a Junho, entre o chumbo do PEC IV e a posse de Passos Coelho. A actual maioria tudo fez para precipitar o resgate, mote de campanha eleitoral. Em funções, o Governo repetiu várias vezes a necessidade de ir além da Troika, alargando por sua iniciativa o âmbito de aplicação do memorando original. Enquanto jornalistas embevecidos entrevistavam o dinamarquês Poul Thomsen como se ele fosse (na prática, era) o primeiro-ministro de Portugal, uma chusma de criaturas lambia com gosto o rabo dos funcionários da Comissão Europeia, do BCE e do FMI. Sem pudor, as televisões repetiram ad nauseam a imagem da delegação estrangeira a entrar no Parlamento. E vem agora Paulo Portas falar em vexame. A imagem é do Diário de Notícias. Clique.

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quinta-feira, fevereiro 19, 2015

CITAÇÃO, 513


Ferreira Fernandes, hoje no Diário de Notícias, a propósito das declarações de Schäuble sobre Portugal:

«Nada nos limpará da indignidade de nos terem passado a mão pelo pêlo e termos abanado o rabo

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A ESCOLHA DE TSIPRAS


A Grécia tem novo Presidente da República. Prokopis Pavlopoulos, 64 anos, militante da Nova Democracia, professor de Direito, antigo ministro do Interior (obrigado a demitir-se em 2008 quando um estudante de 18 anos foi morto pela polícia), foi a escolha de Tsipras. O Parlamento confirmou. Apoiado pelo Syriza, pela Nova Democracia e pelos Gregos Independentes, Pavlopoulos obteve a aprovação de 233 dos 300 deputados. A posse será no próximo 13 de Março.

[Imagem: Le Monde. Clique.]

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ELIF SHAFAK


Hoje na Sábado escrevo sobre A Bastarda de Istambul, de Elif Shafak, escritora turca nascida em 1971, em Estrasburgo. A identidade pode ser um empecilho. A autora é o caso-padrão dos filhos de diplomatas: cresceu em Madrid e Amã, depois em Istambul, viveu em Boston e outras cidades americanas, tem residência em Londres. Formada, nos Estados Unidos, em ciência política e estudos de género, nunca cortou os laços com a Turquia. Crítica do regime de Erdogan, tem-se distinguido na defesa dos direitos das minorias, em artigos que publica na imprensa anglo-americana e na turca. No livro mais recente, The Architect’s Apprentice (2014), recua ao século XVI para, através da figura de Mimar Sinan, o arquitecto cristão dos sultões otomanos, estabelecer um nexo de causalidade com equívocos que persistem na actualidade. É na área movediça das subculturas étnicas ou de género (em especial o feminismo) e, de modo mais lato, no multiculturalismo, que a obra assenta, saltando com à-vontade do sufismo para as “fracturas” da contemporaneidade. Elif Shafak acredita e defende que o Islão não é incompatível com os regimes democráticos. Ser muçulmano, diz ela, não colide com as liberdades individuais. A Primavera Árabe foi uma desilusão, mas não se pode desistir. Bestseller na Turquia, A Bastarda de Istambul levou a autora à barra do tribunal, acusada de «denegrir a identidade turca». Passou-se isto em 2006, tendo os juízes decretado que personagens do romance proferem heresias. Elif Shafak ousara tocar no ponto entre todos sensível do Genocídio Arménio. Escapou à prisão graças aos protestos internacionais. Nessa altura, ainda a Turquia sonhava entrar na UE. A narrativa apoia-se num patchwork de episódios por vezes desconexos. Se o retrato da família Kazanci está bem esgalhado, a Istambul de Elif Shafak não é a de Orhan Pamuk. O inesperado desfecho explica o passado.

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